17/9/19
 
 
Marta F. Reis 07/03/2019
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Cuidadores invisíveis

Tudo o que puder ser feito para aliviar o peso e a sensação de impotência de quem tenta fazer o que pode pelos seus – e nem sempre tem os meios – será uma ajuda 

Em boa hora se começou a dar atenção à realidade de quem cuida de filhos, pais, sogros com deficiência ou doença crónica e avançada, por vezes numa autêntica ginástica para dar conta de tudo, cumprir indicações médicas e de enfermagem exigentes - em termos físicos e emocionais -, manter rotinas positivas, fazer com que as pessoas cuidadas não se sintam um fardo. Esta semana, o parlamento discute medidas. Tudo o que puder ser feito para aliviar o peso e a sensação de impotência de quem tenta fazer o que pode pelos seus - e nem sempre tem os meios - será uma ajuda e, sobretudo, um sinal de um país que percebe a trajetória do envelhecimento e que comunidades mais robustas implicam o seu reconhecimento e apoio, sem descurar o investimento necessário em instituições capazes, lares e uma rede nacional de cuidados continuados que dê resposta atempada, o que hoje não acontece. Um levantamento entregue ao governo em 2017 traçou o retrato nacional: cerca de 50% da população idosa tem muita dificuldade ou não consegue realizar pelo menos uma tarefa básica do dia-a-dia, o que representa 995 mil pessoas, mais de metade a viverem sozinhas ou acompanhadas por outros idosos. A estas acrescem 16% de portugueses entre os 15 e os 64 anos com problemas de saúde prolongados. Sabe-se também que em Portugal, como na Europa, os cuidadores são maioritariamente mulheres entre os 45 e os 75 anos, com dificuldades em conciliar a função de cuidadoras com uma atividade profissional - e os psicólogos têm alertado que, para muitas, serem cuidadoras traz uma carga psicológica que está por detrás de quadros depressivos, um sofrimento invisível. França, Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Suécia são alguns dos países que já definiram um estatuto para os cuidadores informais, com diferentes apoios, da formação a mecanismos que permitam às famílias momentos de descanso. Por cá, o trabalho vai-se fazendo, com projetos que por vezes conseguem fazer a diferença pela simples oportunidade de partilha de experiências, como o Café Memória da associação Alzheimer Portugal. Nas portas das juntas e centros de saúde vê-se promover workshops, mas é preciso mais. E importa ouvir quem lida com esta realidade todos os dias, os cuidadores que dizem que as medidas que estão em cima da mesa têm de ir mais longe para irem ao encontro das necessidades reais das famílias. Afinal, é isso que está em causa. 

 

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