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Dínamo-Benfica. Da melancolia da Pantera ao garoto que apavorava hipopótamos

Dínamo-Benfica. Da melancolia da Pantera ao garoto que apavorava hipopótamos

DR Afonso de Melo 06/03/2019 22:53

Duas visitas dos encarnados a Zagreb. A primeira em 1970, num jogo particular (0-2) no qual Eusébio não conseguiu encantar a plateia; a segunda em 1980, para a Taça das Taças (0-0), com decisão definitiva no Estádio da Luz

Quando Eusébio entrou no Estádio Maksimir, o entusiasmo do público que enchia as bancadas foi ao ponto máximo dos decibéis. Afinal, o Mundial de 1966 ainda estava preso à memória coletiva com a cola-tudo das lembranças.

Ficariam desiludidos, no entanto, os milhares de croatas que tinham os olhos fixos no Pantera Negra, o único que conseguira fazer frente a Pelé. Com um dos seus crónicos problemas de joelhos, Eusébio iria passar como um fantasma por um jogo no qual o Benfica tombou numa estranha apatia.

Terça-feira: 21 de abril de 1970.

Pela primeira vez, os encarnados, fantásticos trota-mundos do futebol universal cujas digressões os levaram dos confins da Austrália à flamejante Teerão do tempo do xá, visitavam a maior cidade da Croácia, na altura parte integrante da República Federativa da Jugoslávia, um inimitável projeto político alimentado pelo sonho de Josip Broz Tito. Já tinham atuado em Split, encantadoramente azul--adriático, viam-se agora frente ao Dínamo que, perante a pompa do acontecimento, resolvera reforçar-se com alguns jogadores de outras equipas croatas de forma a ganhar a maior competitividade possível.

Não seria sequer preciso. Dois golos na primeira parte, aos 39 e 41 minutos, apontados por Lamza e Lalik, respetivamente, resolveram o assunto. Vítor Martins e Jaime Graça bem tentavam compensar as fraturas que iam surgindo no meio--campo do Benfica, mas debalde. Só a entrada de Torres, na segunda parte, para fazer um trio ofensivo com Eusébio e Simões, deu alegria à soturnidade dos portugueses. Então sim, o guarda- -redes Danthegoric viu-se em trabalhos. Torres atirou à trave e Eusébio, finalmente!, arriscou um pontapé violento de muito, muito longe que fez soltar-se da assistência um oh! de admiração.

A imprensa local lamentou-se: “O grupo português esteve longe de corresponder à fama que possui! Apesar de tudo, pode considerar-se que cada uma das equipas dominou 45 minutos. E embora sejam as últimas imagens que perduram, com a bola a ir à trave de Danthegoric, a vitória do Dínamo não merece reparo.”

Seria agora preciso esperar dez anos para sacudir essa imagem negativa...

Empate 17 de setembro de 1980. Primeira mão da primeira eliminatória da Taça dos Vencedores de Taças. Lajos Baroti, o húngaro que treinava o Benfica, estava com dúvidas em relação à equipa que faria alinhar em Zagreb, frente ao Dínamo.

Alberto e Alhinho estavam lesionados; Pietra, acamado com uma gripe daquelas de abafar até a consciência; Reinaldo, entregue ao serviço militar, algo incompreensível num país que vira o 25 de Abril cumprir seis anos.

Pelas 17h30 locais, os grupos entraram no Estádio Maksimir. Esperava-se que este regresso das águias fosse mais satisfatório que o jogo de 1970. E foi.

Baroti decidira-se: Bento; António Bastos Lopes, Humberto Coelho, Laranjeira e Frederico; Carlos Manuel, Alves, Shéu e Chalana; César e Nené.

O ambiente era fervilhante, inquieto, de uma ansiedade que se entranhava na pele e bulia com os nervos, como o vento costuma bulir com as agulhas dos pinheiros.

Basicamente, a retaguarda benfiquista estava entregue a quatro centrais. Com Frederico, o bom do Frederico, recentemente desaparecido, tomando conta da faixa esquerda, libertando Chalana para que o duende endiabrado das órbitas arbitrárias pudesse semear o pânico na defesa jugoslava.

Durante 30 minutos, os encarnados aguentaram a pressão contrária, sofrendo mas assumindo-se como conjunto superior que não tardaria a ter a sua chance de alterar os acontecimentos. Surge o revés da lesão de Humberto Coelho. Alberto Bastos Lopes entra para o seu lugar.

Kovacevic, Krancjar e Tucaj revelavam--se perigosos, de um perigo prático, intencional. O primeiro viu um remate seu ser rechaçado pelo poste logo aos cinco minutos – uma injeção de crença que levou o Dínamo a carregar sobre os lisboetas. Debalde. Bento estava lá e Bento, nas suas grandes noites, era impressionante.

E depois havia aquele meio-campo de veludo, com os pés de Alves e de Shéu traçando passes precisos, requintados, e a genica de Carlos Manuel pela direita e de Chalana pela esquerda. O Benfica responde. Nené tem duas excelentes oportunidades para marcar vantagem, mas desperdiça-as de uma forma que para si não é normal. César estava mais fixo. O objetivo do velho Lajos era o de criar nos adversários um sentimento de intranquilidade através de movimentos velozes e certeiros. Consegue-o. Os azuis de Zagreb não se sentem confortáveis. Após a entrada de peito feito, perceberam que se estavam a expor demais perante um opositor de inequívoca categoria. Os ziguezagues de Chalana eram de apavorar hipopótamos. Ele corria pela faixa esquerda com a alegria e descontração de um rapazinho num campo de margaridas.

O zero a zero final traz a decisão para Lisboa. No Estádio da Luz, o Dínamo seria batido sem rebuço pelos golos de Nené e de César. Lembro-me bem: estava lá e vi. E o Benfica foi avançando até às meias-finais perdidas para os orientais alemães do Carl Zeiss.

 

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