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Estádio Universitário. Um complexo para todos salvo por uma fusão

Estádio Universitário. Um complexo para todos salvo por uma fusão

Bruno Venâncio 04/03/2019 18:31

A integração na Universidade de Lisboa, em 2013, foi decisiva para a revitalização de um recinto mítico que quase não conseguia escapar aos efeitos da famigerada crise

Qualquer lisboeta o conhece. Situado no campus da Cidade Universitária, surgiu na longínqua década de 50 do século passado (inaugurado a 27 de maio de 1956) e desde então desempenha um papel fulcral na promoção da atividade física e desportiva na capital portuguesa. São 40 hectares recheados de instalações e equipamentos desportivos que convidam os cidadãos (e especialmente os estudantes, dada a sua vocação para a comunidade académica) a deixar de lado os computadores, telemóveis, tablets e televisões e puxar pelo físico, sempre com o objetivo final de melhorar a saúde e a qualidade de vida.

À frente do projeto desde 2000, João Roquette continua a olhar para o futuro. Mestre em Ciências do Desporto e antigo diretor técnico da Federação Portuguesa de Judo, o professor de Desporto chegou ao Estádio Universitário (EU) como coordenador dos Serviços Técnico-Desportivos, acabando por aceitar o convite de Pedro Mil-Homens para assumir a direção. “Em 1997, com a inauguração do complexo de piscinas, o estádio teve um crescimento e desenvolvimento muito grande, não só pelo aumento do número de utentes como pelo facto de ser uma instalação desportiva muito especializada e que exige muita qualidade na sua gestão. Isso veio também melhorar a própria gestão do estádio como um todo, foi um fator crucial no desenvolvimento do próprio estádio: até aí, o estádio funcionava através da reserva de instalações (campos de futebol, râguebi, ténis e pavilhão); a partir daí, começa a prestar um conjunto de serviços desportivos muito mais alargado e também de maior qualidade, abertos à comunidade em geral (com condições especiais para a comunidade do ensino superior), com a criação de um vasto programa de atividade física e desportiva orientada com vários projetos – aquático, fitness e mais tarde desportos de combate, coletivos e da escola de ténis, que levaram a um aumento dos utilizadores do estádio e também a uma melhoria das condições da prática da própria atividade física e desportiva”, explica o responsável pelo complexo, garantindo não se arrepender minimamente de ter aceite o desafio, mesmo que tal o tenha obrigado a passar a carreira académica para segundo plano: “Estou a prestar um serviço público relevante, que sempre me motivou durante toda a minha vida profissional e académica, relacionado com a promoção do Desporto, da Saúde e do bem-estar no seio do Ensino Superior e aberto à comunidade em geral. Estou convicto que esta missão é cada vez mais importante para a Universidade de Lisboa, num tempo em que a promoção de estilos de vida ativos e um corpo saudável são necessidades sociais prementes na luta contra o sedentarismo, a obesidade e o stress quotidiano.”

Para estudantes mas não só O atual Estádio Universitário é, como se pode calcular, bastante diferente daquele que foi apresentado aos lisboetas em 1956. Com o passar dos anos, as instalações foram sendo sucessivamente melhoradas e ampliadas, de modo a ir ao encontro das necessidades dos utentes. Muito recentemente, de resto, foi inaugurado o campo de atividades de praia e requalificados os campos de relva natural para relva sintética, estando prevista para breve a conclusão do projeto de rearborização dos espaços verdes, a criação do novo circuito de manutenção (está a ser projetado e cujo concurso vai ser lançado dentro de pouco tempo) e a substituição de toda a iluminação existente para LED, “de modo a assegurar a segurança e sustentabilidade ambiental”, como ressalva ao i o diretor do EU.

Para a concretização de todos estes planos, é preciso frisá-lo, contribuiu decisivamente a integração do complexo na Universidade de Lisboa (UL), em 2013, na sequência da fusão entre a Universidade Clássica e a Universidade Técnica. “Foi um momento determinante. Até aí, o EU tinha uma situação económico-financeira relativamente complexa – a partir de 2010, com a crise, as pessoas começaram a ter menos capacidade para pagar a atividade física e desportiva. Tivemos um decréscimo muito grande de utentes, na ordem dos 30 a 40 por cento, o que causou muitos problemas de gestão e sustentabilidade. Foi com a ajuda da UL, pela liderança do atual Reitor Prof. Doutor António da Cruz Serra, coadjuvado pela administradora dos Serviços Centrais, Dr.ª Ana Maduro, e pelo vice-reitor com o pelouro do Desporto, Prof. João Barreiros que se conseguiu restabelecer o equilíbrio e fazer novos investimentos, quer na manutenção, quer na construção de novas infraestruturas desportivas e aquisição de novos equipamentos. A diversidade de instalações é uma opção estratégica importante para a própria sustentabilidade do complexo, porque ao diversificar a oferta desportiva isso representa não só mais possibilidades de recrutar utentes mas também uma possibilidade de poderem escolher a atividade que mais se adequa às suas necessidades e expectativas. Permite o transfer de utentes, que podem fazer uma prática multidesportiva”, realça João Roquette.

O EU, já deu para perceber, tem uma componente marcadamente virada para a realidade académica – um dos projetos mais importantes no contexto do recinto, de resto, é o desenvolvimento da competição universitária, com a criação de cinco equipas (andebol e basquetebol feminino, voleibol masculino e feminino e badminton) que participam em competições universitárias a nível regional, nacional e internacional. “Isto é um serviço da universidade, um serviço autónomo integrado”, lembra o diretor do complexo, frisando que o estádio “cede as instalações para a prática do desporto universitário”: “Cerca de 90 por cento dos treinos e Campeonatos Universitários de Lisboa, organizados pela Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa (ADESL), realizam-se no EU, e a aposta no projeto de formação de equipas e estudantes-atletas que representem a UL é uma opção estratégica tendo em vista o aprofundamento dos processos de identidade e coesão da própria UL, bem como a possibilidade de dar aos estudantes da UL a possibilidade de conciliação entre a sua vida académica e a sua vida desportiva (dual career).”

O que não significa, todavia, que o espaço seja exclusivo para os estudantes – muito longe disso. “Como dizia o saudoso Prof. Mariano Gago, ‘o Estádio é dos universitários mas aberto para todos, e está localizado em Lisboa mas é para todo o país’. É esta abertura que a UL soube manter que lhe dá força, diversidade e perenidade, contribuindo certamente para um espaço de encontro entre a universidade, a cidade e o mundo. Temos uma componente de utilização informal do estádio que é uma opção da universidade, até pela excelente relação com a Câmara Municipal (CML): a abertura à comunidade em geral. Inúmeros utentes realizam aqui a sua prática desportiva informal, correndo, marchando, utilizando o circuito de manutenção ou simplesmente exercitando-se ou passeando com a família ou amigos. A nossa grande vocação é promover a prática da atividade física e desportiva no meio académico e abrir as instalações a todos os utentes da cidade de Lisboa. Zelar pela saúde dos cidadãos: um parque desportivo com estas instalações e esta qualidade tem de ser utilizado pelas pessoas da cidade”, insiste o dirigente.

A utilização do recinto, ainda assim, não se limita a utentes informais. O EU está à disposição “de qualquer entidade ou clube que queira utilizar as instalações”, mediante o pagamento de um preço “que tem como único objetivo a manutenção do funcionamento das infraestruturas”. O Sporting, por exemplo, utiliza um dos campos de relva sintética que se encontram mais próximos do Estádio de Alvalade. “O Sporting pediu uma reserva de instalações para os jovens entre os oito e os 14 anos, existe mesmo um protocolo entre a universidade e o clube”, esclarece João Roquette, lembrando que também atletas de elite utilizam com muita frequência o estádio: “A seleção nacional de râguebi disputa aqui os jogos do Torneio Europeu das Nações, no Estádio de Honra, e o CDUL, da I divisão de râguebi, tem aqui a sua sede, utiliza regularmente as nossas instalações para treinos e jogos. Há um protocolo com a federação de judo, que permite utilizar o novo tapete para os treinos da seleção. O mesmo acontece com alguns atletas de elite da natação, que utilizam a piscina diariamente, entre as seis e meia e as oito da manhã. Apoiamos também os atletas com estatuto de alta competição da UL, a quem a mesma possibilita a utilização das suas estruturas nos dois Campus (Cidade Universitária e Ajuda, criado após a integração na UL). Temos duas pistas de atletismo, também de excelente qualidade e que podem ser utilizadas pelos atletas para os seus treinos – e nas quais muitas vezes também se organizam competições distritais, nacionais e internacionais.”

Faça-se luz Uma das necessidades mais prementes no momento prende-se com as questões ecológicas e ambientais – o chamado “exercício verde”. “Hoje temos toda uma zona verde que tem sido requalificada e melhorada, através de um investimento muito grande da UL nos espaços verdes, na plantação de muitas árvores em zonas estratégicas do EU”, refere o diretor do complexo, apontando algumas áreas que entende necessitarem de uma intervenção mais urgente no sentido de otimizar ainda mais o espaço e os seus serviços: “A iluminação é um fator crucial para a utilização durante a noite. Esse é um dos constrangimentos que ainda temos tido: por exemplo, muitos utentes não vêm aqui correr a partir de certa hora por falta de uma boa iluminação, torna-se pouco acolhedor e desconfortável. A melhoria neste aspeto vai permitir uma utilização do estádio durante todo o dia, com um conjunto de condições que considero excecional no centro da cidade de Lisboa. Não é muito normal ver no meio de uma capital europeia 40 hectares de espaço verde e desportivo ao dispor dos cidadãos: é quase um milagre, no contexto do crescimento e desenvolvimento urbanístico da cidade de Lisboa, preservar um bem tão precioso, mantendo a sua qualidade de espaço verde e com toda esta capacidade de oferta desportiva e de atividade física no coração da cidade. É um fator muito importante para a própria cidade.”

Além da questão da iluminação, João Roquette considera que é também necessário investir no incremento de “qualidade do enquadramento técnico”. “Um complexo desportivo é essencialmente um conjunto de instalações desportivas que tem uma mão de obra muito intensa do ponto de vista do contacto com os utentes – manutenção, limpeza, segurança, atendimento –, mas o principal é através dos técnicos de exercício físico e treinadores. O investimento na melhoria da qualidade desses técnicos vai ser fundamental para podermos continuar a oferecer aos utentes uma boa qualidade de serviços”, salienta.

O complexo do EU apresenta, além do estádio de honra (com campo relvado e pista de atletismo), vários outros campos de futebol, uma pista de atletismo secundária, um pavilhão polidesportivo e dois de apoio, seis campos de ténis, 12 campos de padel, um campo de atividades de praia, um circuito de manutenção, um complexo de piscinas cobertas, uma Academia de Golfe e um novo e moderno tapete de judo, num total de 80 atividades desportivas frequentadas por aproximadamente 5 mil utentes. Mas não fica por aqui: ali pode encontrar-se também um Centro Médico (com outro no Pólo da Ajuda) aberto à comunidade em geral, com inúmeras especialidades médicas e de apoio psicológico, bem como um Centro de Fisioterapia e Bem-estar e um Centro de Reabilitação Cardíaca. “Estou convencido que no futuro teremos a hipótese de desenvolver, com a ajuda da universidade, um conjunto de projetos no âmbito da reabilitação que permitam dar resposta a algumas necessidades da comunidade. Hoje temos um problema de falta de atividade física, de sedentarismo – é uma autêntica epidemia –, e o EU tem um potencial imenso por explorar, dado que por motivos culturais a maior parte das pessoas só vem ao estádio a partir das cinco da tarde, com exceção das piscinas. De resto, a maior parte das instalações está completamente deserta até essa hora e só aí é que as pessoas começam a chegar, seja por motivos profissionais ou académicos. Queremos que essa realidade mude, porque isso é um fator de sustentabilidade e recrutamento de mais utentes e maior utilização das infraestruturas. Temos de melhorar muito a atratividade das infraestruturas e das suas condições de acesso e procurar um conjunto de parceiros que nos permitam ir buscar mais utentes: escolas e outras entidades externas, como a CML, clubes, associações, federações, Juntas de Freguesia. Colocar ao dispor dessas entidades as nossas instalações, sem esquecer que elas têm de ser sustentáveis.”

E como é possível assegurar essa sustentabilidade num complexo que proporciona tantas atividades de borla – ou a um preço quase simbólico – aos seus utilizadores? “A sustentabilidade do estádio é feita de três vertentes: receitas oriundas dos serviços desportivos; receitas oriundas dos serviços de Saúde (Serviços Médicos e de Apoio Psicológico) e Bem-Estar; e as receitas que têm origem nas concessões. As concessões têm sido uma aposta da UL do ponto de vista da rentabilização de todo o espaço: incluem restauração, parque de estacionamento, posto de combustíveis e algumas instalações desportivas, como a fisioterapia, a Academia de Golfe e o Centro de Ténis, e já representam um conjunto significativo de receitas para o próprio estádio”, explica João Roquette.

A mais recente dessas concessões, de resto, foi o Burger King que se pode encontrar agora em frente à Universidade Católica: para algumas pessoas pode parecer estranha a existência de um restaurante de fast-food nas instalações do maior parque desportivo da cidade, um espaço que promove a atividade física e desportiva e a saúde e o bem-estar, mas o diretor do EU tem outra opinião. “Tentamos que exista um conjunto diversificado de concessões de restauração que permitam às pessoas escolher o que seja mais adequado às suas necessidades: existe um restaurante na piscina, outro que vai abrir junto ao centro médico, outro em frente ao Hospital de Santa Maria e agora outro que ganhou um concurso público e que foi o Burger King. As concessões são diversificadas e dão um contributo importante para a sustentabilidade do estádio”, sentencia.

 

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