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Mário Cordeiro. “Antes dos dez não devem escolher vídeos sozinhos”

Mário Cordeiro. “Antes dos dez não devem escolher vídeos sozinhos”

Mafalda Gomes Marta F. Reis 03/03/2019 15:30

O pediatra, pai de cinco, fala do que tem testemunhado em consulta. E explica que a reação da criança ao que vê depende muito da maturidade, mais do que da perceção do risco. A ousadia por vezes suplanta o medo.

Muitas crianças começam a ver vídeos muito cedo. Já teve pais a partilharem consigo terem apanhado conteúdos impróprios?

Sim, uma vez ou outra, mas claro que tem sempre de se ver o que são “conteúdos impróprios” porque não se trata apenas do que lá é mostrado ou dito, mas também de como a criança reage a esse conteúdo. Talvez esta última parte seja a mais importante para definir o que é “próprio” ou “impróprio, no fundo o que é adequado ou inadequado. Sei de casos da baleia azul em escolas, e já tive casos de cutting, mas não diretamente, estes, por causa da internet.

Quão influenciador consegue ser um vídeo destes? A partir de que idade é que os miúdos conseguem discernir entre o que os pode magoar e não pode?

Depende muito da criança ou adolescente, da maturidade, da maneira como vê o filme e o que entende dele, em termos de comportamento “correto” ou “incorreto” e, claro, do estado psicológico. Há comportamentos, não necessariamente expressos na internet mas até em programas de entretenimento da televisão, que podem levar a imitar, mesmo que seja dito “não façam isto em casa!” - muitas vezes é um convite a fazer. Lembro-me de, há vinte e tal anos, haver um programa na televisão em que um indivíduo punha um berbequim pelo nariz dentro, com a broca a girar… não é coisa de hoje… Não há uma idade a partir do qual se possa dizer que as crianças entendem todo o alcance deste tipo de coisa - vai-se entendendo, mas até o medo de fazer por vezes é suplantado pela ousadia de fazer, mesmo já com consciência do risco - as atividades de vertigem e de risco acrescido são, para muitos adolescentes e crianças, apelativos.

Quando será adequado verem vídeos sem supervisão parental?

Creio que antes dos 10 não deverão; pelo menos, os vídeos devem ser escolhidos e selecionados pelos pais. É difícil definir uma idade, porque depende da maturidade, do autocontrolo e de uma série de fatores pessoais.

Os pais devem deixar os filhos publicar vídeos no YouTube? Que cuidados devem ter? 

Não vejo interesse em andar a divulgar a vida privada nas redes sociais ou em plataformas desse tipo. Francamente, acho que não devem, salvo se for, sei lá, uma criança a tocar violino ou piano, a dançar, qualquer coisa relacionada com arte ou desporto, mas também tendo em conta que, se surgirem comentários desagradáveis, a criança pode ficar “esmagada” e até desistir da atividade. Quanto a coisas privadas ou momentos íntimos, acho que, simplesmente, não devem ser publicados, muito menos com dados pessoais. 

Existe mais acesso a material pornográfico. Há sinais de que os miúdos mais novos, mesmo antes da adolescência, estejam a procurar este tipo de vídeos?  Que impacto têm?

Na adolescência mais tardia é natural a experimentação, sobretudo com os amigos. Todavia, creio que as escolas deveriam ensinar e debater mais a questão da pornografia, ensinando o erotismo, e o seu papel na arte, na escultura, pintura, literatura, etc, e separando-o da pornografia e, sobretudo, explicando que, nesta, há misoginia, exploração da mulher e deturpação e banalização da sexualidade pela falta de afetos e, até de um enredo. O erotismo é bonito, a pornografia é de gosto muito duvidoso.

Encontram-se muitos vídeos de miúdos a abrirem brinquedos, deixam as crianças meio hipnotizadas. Os canais infantis fazem o mesmo ou sente que este mundo da internet merece uma atenção diferente por parte dos pais?

Se estamos a falar de brinquedos perigosos, há que ter em atenção que pode levar a comportamentos perigosos também. A internet é menos controlável do que os canais de televisão. Ainda por cima está acessível em todo o lado, seja porque existe nos telemóveis, seja pelo wireless em praticamente todos os espaços. Tudo isto se combate promovendo e falando das vantagens da comunicação com os outros, pessoal e direta, olhos nos olhos, com atenção às microexpressões da face, aos gestos. E até aos silêncios, que são tão importantes como as palavras. Tal como na música, em que as pausas valem tanto como as notas, em que há momentos calmos e outros agitados, em que há acordes e há solos, há notas soltas e há “ensembles”… a vida é assim, e esta noção deve ser dada às crianças e adolescentes, no sentido de ganharem tempo de qualidade, calmo e endorfínico, com os amigos. Do ponto de vista humano e intelectual, é muito mais estimulante do que estar em conexão com ecrãs, ou com os amigos através de ecrãs, com limitação de carateres e repetição de banalidades. Era como voltarmos ao tempo em que a linguagem era resumida a grunhidos e rosnidos - já evoluímos, não involuamos. Já agora, é preciso promover a leitura, o parente pobre do ensino do Português.  
 

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