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Kaulbach. Um olhar sobre “A Destruição de Jerusalém por Tito”

Kaulbach. Um olhar sobre “A Destruição de Jerusalém por Tito”

Carlos Sousa de Almeida 27/02/2019 17:04

As galerias têm os seus esplendores e os seus fantasmas. Ao lado das obras-primas que conhecemos e apreciamos, pendem alguns quadros que parecem fazer parte de um mundo desaparecido. E é aí precisamente que reside o seu fascínio: compreender o que noutros tempos foi tão aclamado e celebrado

Wilhelm von Kaulbach não é um pintor conhecido, mas ainda em meados do séc. XIX expunha em Munique um dos mais famosos quadros da época, sendo visto como um espírito vivo, não inferior a Rafael.

Este enorme quadro, com mais de 30 metros quadrados, dá pelo glorioso nome de “A Destruição de Jerusalém por Tito”, um acontecimento que tivera lugar 1800 anos antes, no ano 70 da era cristã.

Kaulbach não era um artista de ambições modestas. A sua alma romântica explodia. Como disse deste quadro: “Era o espírito de Deus na história que queria explorar.” O artista trabalhara na obra durante dez anos. Um homem que o acompanhou animadamente foi Luís i da Baviera, que amava e encorajava a pintura histórica. E tão encantado estava que adquiriu a obra ainda inacabada para a Nova Pinacoteca.

Luís sentia que uma obra na qual os heróis cavalgavam envoltos em névoa era como que uma invocação do seu passado lendário. O significado destas trombetas, segundo o modelo romano, era maior do que parece. Kaulbach completou um ciclo de quadros históricos para os patronos régios que culminou na vitória da Reforma sobre o catolicismo. Era uma visão histórica destinada a celebrar o triunfo da casa real da Baviera, personificada pelo rei Luís.

A história é explicada como um melodrama. O sumo sacerdote expõe o seu melhor perfil e, corajosamente, suicida--se, enquanto os romanos saqueiam Jerusalém. Três figuras com serpentes enroscadas afastam-se da cidade, uma imagem que representa a eterna errância do judeu, sofrendo o destino na carne. Em cima, à direita, um toque de doçura e gosto: uma família cristã prepara-se para deixar a cidade, conduzida pelo Santo Graal. Um grupo de crianças judias pede-lhes que não partam, erguendo as mãos angustiadas.

Kaulbach fantasiou ao olhar para o passado, para a mais famosa pintura histórica: os vastos murais de Rafael no Vaticano, de princípios do séc. XVI: “A Expulsão de Heliodoro” era um quadro que o nosso pintor tinha em mente. Outro era a “A Disputa”, de Rafael, no qual a ressurreição de Cristo é acompanhada pela Virgem e João Baptista, juntamente com figuras do Antigo e do Novo Testamento. Por baixo do globo foram reunidas figuras da Igreja mais recentes: S. Gregório, Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, etc. 

O quadro solene de Rafael está muito longe dos efeitos operáticos obtidos por Kaulbach. O que preenche a distância entre eles é o movimento romântico. Os românticos mantêm-se próximos da pintura do Renascimento através das cores primárias, da composição mais formal. Há discretas sugestões emocionais. Mas isso não era suficiente para a imaginação dramática de Kaulbach. Como num temporal, as emoções tinham de impelir as suas figuras para a frente, preferivelmente, um temporal de morte e de lágrimas.

Qual é, afinal, a atração deste quadro? Atualmente, sente-se que Kaulbach encalhou no passado. O sentido do gosto mudara na direção oposta a este género de opera exangue. Mas, por outro lado, antes de Manet, Van Gogh, Gauguin, Matisse, etc., este podia ter parecido o caminho que a arte tomava, evocando cenas em que os acontecimentos violentos podiam dar asas à imaginação. Era uma visão da arte influenciada pela obsessão com o ímpeto da marcha histórica, uma marcha que conduzia inexoravelmente às glórias da Baviera moderna.

“A Destruição de Jerusalém por Tito” transformou-se num capítulo singular de uma vasta epopeia histórica, uma epopeia em que os monarcas cavalgam em grande aparato com a sua corte e as vítimas da história se baixam servilmente e sofrem.

O mundo de Kaulbach é um mundo de vítimas e de homicidas. A visão que o artista tem da História tende a polarizar, por um lado, a crueldade, por outro, uma doce inocência. Atente-se nos anjos que auxiliam o Santo Graal. E, por baixo, no grupo de catequese absorvido na sua própria bondade. É uma bondade personificada pela doce inocência das crianças, tal como Kaulbach as via.

A influência de Kaulbach no gosto popular talvez não fosse tão grande como ele gostaria. Em vez de apontar o caminho à arte moderna, ele deu-nos um kitsch moderno: os pequenos quadros de anjos que pairam imóveis sobre os livros das crianças devem pouco a Rafael. O artista podia ter sentido que a grande glória daquele kitsch se devia a ele.

Surpreendentemente, o que não perdera fama haviam sido as ilustrações de Kaulbach para ilustrações de “Reineke Fuchs”, de Goethe, que ele realizou no mesmo período em que pintou a “Destruição”. Certamente que não há nelas apenas uma sátira um tanto ou quanto carregada, na qual o reino animal é selvaticamente humanizado. A inclinação do artista para a violência encontra uma saída nas referências trocistas aos métodos de persuasão outrora usados pela Igreja Católica Romana.

No entanto, apesar de não ser este o caminho que a pintura haveria de seguir, nem tudo estava perdido. As artes visuais não ignoraram o exemplo operático adotado por Wilhelm von Kaulbach. E o seu espírito renasceria numa nova forma de arte… em Hollywood.

Durante a i Guerra Mundial, David Griffith realiza a primeira epopeia em filme, “Birth of a Nation”, e, um ano mais tarde, a gigantesca produção “Intolerância”. Se Griffith soubesse que Kaulbach já tinha contado tais episódios em pintura, ficaria desconfiado. Do que não há dúvida é que, se o pintor tivesse vivido 70 anos mais tarde, teria adorado realizar cenas como as do cineasta.

Talvez seja esse o sonho em que a fama de Kaulbach pode perpetuar-se.

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