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Juan Vicente Piqueras. A poesia tem as costas largas

Juan Vicente Piqueras. A poesia tem as costas largas

Diogo Vaz Pinto 27/02/2019 12:06

Uma breve antologia de Piqueras interrompe o jejum da Assírio a nível de tradução de poesia espanhola contemporânea. Infelizmente, o livro não destoa das recentes apostas deste catálogo no que toca à poesia lusa

 

Digam o que disserem, ninguém nos poderá acusar de não sabermos acolher literatos estrangeiros na já abarrotada jangada do meio literário português. Juan Vicente Piqueras chegou a Lisboa há uns meses para ocupar o posto de Director de Estudos no Instituto Cervantes e logo se lhe arranjou uma antologia em português, estilo salvo-conduto para mais escorreita circulação no reino. E ainda veio a tempo do tiro de largada para a temporada dos festivais. Mais: a recolha feita a partir de dez livros do autor (que ao todo publicou 17) sai com o selo da Assírio & Alvim. Infelizmente, desde que se viu engolida pela baleia do livro escolar, há muito que esta chancela vem desluzindo o seu prestígio, ao mesmo tempo que descura o papel vital que teve na frente da tradução de poesia contemporânea, particularmente a espanhola. Assim, quebrou-se o vínculo ibérico que chegou a firmar, tendo-nos oferecido uma muito satisfatória vista panorâmica do século passado, graças sobretudo à tão cúmplice e empenhada paixão do tradutor José Bento. O mestre que andará sabe-se lá onde fez 86 anos há uns meses sem que ninguém se lembrasse de o ouvir ou homenagear. Mas talvez seja ele quem não se põe a jeito, desinteressado dessas atenções hoje gastas com qualquer um.

Voltando à antologia, com o título de um dos poemas incluídos, “Instruções para atravessar o deserto” abrange 44 poemas, 5 deles até agora inéditos, e foi traduzida num esforço a quatro mãos, entre João Duarte Rodrigues e o director editorial da Porto Editora, Manuel Alberto Valente. O que equivale, em termos de atenções, a uma passadeira vermelha. Mal havia saído do prelo, logo foi atendida nos serviços gerais de recenseamento, pespegando-se-lhe quatro estrelas, isto na revista de secos e molhados, livros e tudo (a que sai com o “Expresso”). Acontece que, tendo sido atribuídas por José Mário Silva, é sabido que, dada a fraqueza do cuspo, o melhor é descontar uma ou duas estrelas, pois se esperarmos uns dias o mais provável é que despenquem ou se apaguem. Naquele género insosso de texto que faz as vezes de canção das sereias do marketing, tratando das apresentações, enviando os convites para o baile de debutante do poeta, traça um breve inventário das linhas com que se cose, arrolando os seus múltiplos motivos culturais, enquanto nos dá uma ideia do que tem andado a fazer este funcionário espanhol que deixou o seu país em 1985, e que, depois de 19 anos em Roma, vem trocando de país em intervalos de alguns anos, numa deriva que lhe serve pelo menos para ir recolhendo conchas para os poemas. Antes de cá chegar andou por França, Grécia e Argélia.

Nascido em 1960 em Los Duques de Requena (Valência), aldeia que então nem água tinha, como nos conta o poeta, e tendo crescido numa casa sem livros, é oriundo de uma família de camponeses pobres. A breve nota que serve de introdução a esta escolha de poemas diz-nos adianta que “o centro do seu mundo poético é aquela aldeia rodeada de vinhas, oliveiras, amendoeiras e montes, onde hoje vivem apenas trinta pessoas”. Este quadro tão pitoresco é decisivo na narrativa sobre a aventura de uma obra que se confunde com o lastro biográfico do autor, num balanço que tenta puxar para si o lençol mitológico, sendo o poeta quem nos diz como nasceu “em finais da baixa idade média e vi séculos passarem diante dos meus olhos e um mundo inteiro desaparecer. Nasci numa Espanha que já não existe.”

Descrevendo um arco bastante familiar, o do rapaz da província que se tornou um cidadão do mundo, é através de um paciente exercício que esta poesia entrança a mitografia das suas origens ao mais vasto arco da cultura Ocidental. E o poeta vai-se insinuando como um predestinado nesta obra que não cessa no esforço de articulação com os ventos urdidos no pulmão homérico. Com o seu jeito para o arremedo, para produzir averbamentos numa espécie de poética para tótós, Piqueras traçou esta útil e breve noção desse jogo floral que se tem substituido à poesia como uma rara acção criadora, e, em “Poesía y gramática” (incluído no livro “Yo que tú, Manual de gramática y poesía”, 2012), expõe brevemente a sua tão abrangente noção de poesia: “Toda a palavra é um poema. A palavra falar vem de fabulare. A palavra palavra, de parabolare. O mero acto de falar é já um acto poético, uma invenção, uma fábula. O mero acto de falar é um acto sagrado ainda que o falante, para sobreviver, se veja obrigado a desconsiderá-lo”.

É uma obra sem rugosidades, escrita sobre uma lisa superfície, frases límpidas ao serviço de um desejo de máxima comunicação (ou legibilidade), sem asperezas para o leitor. Os poemas são um convite à identificação, uma descrição do homem médio, e a sua dupla consistência vive de entretecer referências com vista a que tudo o devolva a si mesmo. Nos melhores momentos derrama nos degraus de alguns versos o efeito de um aforismo, bem escamado, sem espinhas. Uma poesia acessível, que segue na faixa oposta à via hermética, segurando esse tom das frases sem dono, que soam tão familiares ao ouvido da época, e que sintetizam uma ideia geral da poesia contemporânea, o seu efeito relaxante. Para isso, traz no bolso um punhado de grãos de areia mitológica trocados de mão em mão, uma garrafa de plástico com água salgada, um pouco de Borges, umas raspas de Stevenson, para estancar o mar num búzio, versos que não estranharíamos se escapassem a um papagaio que tomou o hábito e o equilíbrio de vir ao ombro dos mais fiáveis piratas de papel.

Com todo o mar que lhe crivou os versos do rigor das grandes vagas, muito se têm interrogado os estudiosos de Homero porque foi que a cor azul ficou de fora das suas descrições, como pode o azul não ser referido nos poemas épicos, sendo o mar descrito antes como da cor do vinho. Piqueras suborna este tipo de ecos, e é quando anoitece (em “Travessia Nocturna”) que o mar se torna vinho... “E vamos sobre o mar como quem regressa,/ como quem veio à Grécia só para regressar,/ como regressa tudo/ aquilo que parte e não acaba.” Nestas tão soluçadas glosas, o poeta assume-se de forma nada surpreendente nestes termos: “Sou o rumo que o barco/ semeia no sulco das ondas,/ a esteira que o segue e se extingue.// Sou o que parte em mim.” E ainda puxa a crista da sua pequena onda que logo rebenta: “Olho a esteira do barco, é uma/ linha sobre a palma da mão./ Da mão de quem. Nessa esteira/ estão todos os versos/ escritos desde Homero até à noite de hoje.” Satisfaz-se assim uma ideia da poesia como embriaguez desolada, uma forma de cansaço que se refastela nos versos.  

Lidos os poemas desta antologia – numa ordem cronológica que já de si fere o balanço narrativo dos livros –, damo-nos conta de que Piqueras abusa de uma humildade um tanto enjoativa. Há até, fechando um dos poemas – com o sugestivo título “Dieta Linguística” –, uma recomendação que funciona como a mais prostrada das artes poéticas: “E ponha de joelhos tudo o que escreveu.” E noutro poema diz-nos: “Tira o pó da tua voz”. Recomendação que o próprio talvez pudesse ter aplicado melhor ao que escreve.

Em muitos versos abundam os decalques, anotações tremidas dos livros de História, mitos erodidos ao ponto de se tornarem próteses; coisas em segunda mão, ou terceira..., uma prática esvanecida, que se dá a ler sem sobressaltos nem assombro. Limadas todas as arestas, o poema pervaga num culturalismo serôdio. Sobre qualquer dos seus achados seria fácil reclamar direito de passagem, até usucapião. O que acaba por nos ficar destas páginas é a grata condição de um leitor de poesia contente por ir com os outros. Sem risco, porta-se como um bom aluno, entregando o caderno onde realizou os exercícios, para ser avaliado. Não há grande margem para um fracasso clamoroso, tudo é comedido, num modo de efabular a crédito, levando fiado. E como não incomoda, ninguém virá despejá-lo. É sabido, aliás, que a poesia vem tolerando há muito tudo o que há de mais gratuito nas letras. E basta levar em conta as recentes estreias neste catálogo que, depois de anexado pela Porto Editora, tem seguido conveniências que destronam critérios de apreciação literária. Longe, longe vão os tempos em que os editores estavam menos interessados em pôr a mesa para os amigos, e os catálogos evidenciavam uma actuação crítica, um posicionamento ou até militância. Hoje, ninguém se espanta que personagens tão apagadas como Vasco David possam segurar o leme (ainda que como mero testa de ferro) de uma editora como a Assírio & Alvim.

Se já definimos a regra, esta antologia não deixa, naturalmente, de contar com algumas excepções que apenas a confirmam. Aquelas poucas páginas que, não salvando a edição, nos amparam face à necedade das demais. Da escolha que nos oferece, salvam-se três poemas: “A Peste de Tebas”, “Canção do Suicida” e “Museu da Acrópole”. E para que o leitor não se vá sentindo que daqui não levou nada, eis um excerto do primeiro desses poemas: “O passado é mais forte/ que Deus. Ninguém, nem Deus,/ pode mudá-lo. Só a memória.// Vais envelhecendo e recordando/ tudo aquilo que nunca aconteceu.// Pior que o medo do que vai acontecer/ é o terror atento/ do que possa ter acontecido.” Uma bela excepção que termina assim: “Já nada te separa da tua vida./ Já nada te oferece/ tantas surpresas como o teu passado.”

Juan Vicente Piqueras é um belo exemplar de uma estirpe que tem dominado (em número, pelo menos) a poesia espanhola contemporânea, contando com alguns primos, como Nuno Júdice ou João Luís Barreto Guimarães, deste lado da península: esses poetas que nos apresentam variações melancólicas, às vezes delicodoces, e que se promovem como “especialistas em êxtases”, cientistas um nadinha loucos que vão ratando os dias, fechando-se num laboratório entre as pipetas e os tubos de ensaio em que se ficam manejando o verbo, descobrindo fórmulas, quebrando as partículas, concebendo fumos e tónicos que actuam sobre o fraco juízo do leitor, produzindo estados minimamente alterados de consciência. Servem-lhe fugazes estímulos sensoriais, “uma espécie de chiclete” que deturpa um nico a percepção, e isto com recurso, não propriamente a poções misteriosas, mas a uns enlatados textuais, contos de vaga moralidade fáceis de bochechar, e que cabem numas poucas linhas; anedotas e piadas, molenguices contemplativas, alguma partilha que puxe pela lágrima, injustiças mais ou menos íntimas, a coitadice, o catálogo que vai entre o dói aqui, dói acolá, às vezes um sensualismo meio ordinário, com meias de liga num cruzar e descruzar de pernas. Isto resulta do encosto da cultura ao modelo publicitário, às doses que servem uma utilização e logo são descartáveis. A imediatez é o efeito chave, a eficácia enquanto elemento distractivo, alívio para a consciência; uma poesia que se possa ler exausto, ao fim do dia, no meio desse estupor que provocam ocupações repetitivas, empregos entorpecedores. São poemas que podiam sair nos pacotes de açúcar – na prática o efeito é o mesmo e talvez até cause um prejuízo menor à saúde. Não exigem grande coisa do leitor. Não exigem habituação estética, o virar a lata, roer o osso para chegar ao tutano. Não é preciso um especial culto, nem dificuldade. Privilegiam a comunicação directa, o tu-cá-tu-lá com o leitor. E produzem essa satisfação que roça a inanição, um gozo repentista como o que se obtém do “peixe-aranha” – droga que se popularizou entre os putos na escola, e que se toma depois de embeber um pano de cloreto de etilo, chuchando nele. Quanto ao efeito, deixamos a sua poética descrição a um entendido na matéria – o anónimo adolescente que a explicou, faz uns anos, ao “Correio da Manhã”: “Ficas o resto do dia com um zumbido esquisito nos ouvidos, mas a jarda mesmo é só um minuto. A maior sensação é que o corpo fica descontrolado: as imagens e os sons aumentam de velocidade e o coração também”.

Eis um bom exemplo tirado desta antologia de Piqueras: o poema "Papoilas": "Sobre o antigo campo de batalha/ onde morreram milhares de rapazes/ volta a crescer o trigo, salpicado/ aqui e ali por ardentes papoilas.// E dois apaixonados, que terão mais ou menos a idade dos soldados/ que então aqui morreram,/ fazem hoje amor entre as searas.// Derrubam o trigo. Esmagam as papoilas".

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