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Christina Dalcher. “Vale a pena gritar tudo aquilo em que acreditamos”

Christina Dalcher. “Vale a pena gritar tudo aquilo em que acreditamos”

DR Laurens Arenas Mariana Madrinha 26/02/2019 16:41

Se tivesse que resumir a mensagem do seu livro, Christina Dalcher escolheria esta: usem as vossas vozes enquanto podem. “VOX” chegou recentemente às livrarias portuguesas

A sociedade está farta de mulheres histéricas. De mulheres com opiniões fortes. De mulheres com empregos em todas as áreas. De mulheres, no geral. Portanto, há que calá-las. Como? Restringindo-as às cem palavras por dia, monitorizadas por um pulseira - caso incumpram, são eletrocutadas. É este o cenário imaginado por Christina Dalcher em “VOX”, livro que, diz-nos, é difícil de encaixar num só género - têm-lhe chamado uma distopia feminista - e que acaba de ser por cá publicado pela TopSeller. Escrito antes do movimento #metoo, “VOX” tem sido apontado como sucessor de “The Handmaid’s Tale”, de Margaret Atwood.

A autora, doutorada em Linguística Teórica, esteve recentemente em Portugal. 

Quando e em que circunstâncias teve a ideia por detrás deste livro?

O verdadeiro início de “VOX” deu-se em janeiro de 2017, quando escrevi uma pequena história de ficção - 750 palavras - para um concurso chamado ‘Cocktail Molotov’, subordinado ao tema “o fim do mundo”. Nessa história, afastei a linguagem de todos os personagens, o que faria com que os humanos não durassem muito tempo. É um deleite para mim escrever ficção com elementos linguísticos. Sabia que queria levar a premissa mais longe - tive a minha oportunidade quando vi uma chamada para escrever ficção especulativa feminista, o que foi uma oportunidade incrível. Mas eu comecei (e terminei) o “VOX” bem antes do aparecimento do movimento #MeToo ter surgido. Ao invés de partir da ideia de que as mulheres estavam a ser silenciadas, segui uma direção diferente: imaginei um lugar onde as mulheres se estavam a tornar mais barulhentas do que nunca, e perguntei-me se havia algumas pessoas que dissessem para si próprias: “Quem me dera que elas simplesmente calassem a boca”.

A sua formação académica está intimamente ligada às palavras e aos seus sons. Isto ajudou-a a montar a história ou, por saber tanto sobre a área, foi complicado equilibrar os dados científicos com a linguagem de um romance?

Desde que comecei a escrever ficção, segurei-me à máxima “escreva o que você sabe”. Em “VOX” fiz exatamente isso: escrevi sobre o que sei e sobre o que amo. Mesmo no meu primeiro livro (um thriller que ainda não foi publicado e cujo protagonista revolve um crime recorrendo à sua experiência em fonética) uso a linguagem como ponto de partida. E tenho outra história na qual estou a trabalhar que reflete sobre quão intimamente a nossa faculdade linguística está ligada à nossa capacidade de socializar. É muito divertido inserir a ciência na ficção, e acho que os livros são perfeitos para isso - entretêm-nos, mas também nos fazem pensar sobre o mundo de maneira diferente. Sou uma fã de longa data de Michael Crichton, e ninguém (na minha cabeça) escreve ciência-em-ficção melhor que ele. Dito isto, tenho que realçar que algumas das “ciências” em “VOX” são completamente especulativas. Afinal, “VOX” não é um livro académico. O objetivo é levantar questões e interesses, mas não ser didático.

Já disse numa entrevista que, na sua opinião, ter apenas cem palavras por dia é pior do que não falar de todo. Porquê?

Pense no quão aterrador deve ser usar um mecanismo no pulso que conta as palavras e observar o número a subir e a aproximar-se de cem. Cem palavras não são nada - não quando as comparamos com o número de palavras que usamos em média por dia (cerca de 16 mil por dia). Mas a tensão, o horror absoluto de saber se está se a aproximar cada vez mais da sua quota diária - isso parece-me mais assustador do que remover o aparelho vocal!

Já encontrou em que género se insere “VOX”?

O género é a parte mais complicada do “VOX”. Mesmo sem perceber o que estava a fazer, consegui escrever um livro que é parte ficção científica, parte ficção feminista, parte thriller político e, provavelmente, parte terror. Talvez isso seja um resultado lógico das minhas preferências literárias, tanto como leitora quanto como escritora.

O silêncio pode ter mais poder do que o discurso verbal?

Essa pergunta tem rasteira! Consigo imaginar algumas circunstâncias em que permanecer em silêncio é a melhor opção, mas essas são circunstâncias extremas, situações em que devemos recusar-nos, a todo o curso, a fornecer informações - estou a pensar no mundo da espionagem. Há um ditado em latim: Silentium est aurum - “o silêncio vale ouro”. E há outro: Qui tacet consentire videtur - “quem cala consente”. Penso que a Jean, a personagem principal do meu livro, que é um pouco erudita, estaria familiriazada com ambos. Pergunto-me às vezes se ela encontraria ironia nestas frases, com aquele contador a zunir no pulso. Jean sabia melhor do que ninguém à sua volta que ela - e todos os humanos - somos distintos no reino animal devido à nossa capacidade linguística. Tirem-nos isso e tornamo-nos numa outra espécie de primata, capaz de comunicar mas não muito mais do que isso. E, como ela descobriu, o silêncio dela ao longo dos anos significou consentimento. E, no que quer que acreditemos, não cometamos os mesmos erros. E quando digo isto, falo mesmo a sério. Quero dizer: tudo aquilo em que acreditamos, aquilo que sentimos que é valioso, vale a pena gritá-lo. Há aquela frase usada muitas vezes e que é atribuída a Burke, e aqui estou a parafrasear: “Coisas más acontecem quando pessoas boas não fazem nada”. 

Tem sido comparada a Margaret Atwood. O que acha disso?

Naturalmente que é muito bom ser comparada a uma escritora tão conhecida e talentosa, mas eu realmente escrevi um tipo de livro completamente diferente, então não tenho certeza se a comparação funciona. A ficção distópica é complicada - o género geralmente envolve um tema comum de autoritarismo versus o indivíduo, então encontraremos sempre semelhanças entre obras como “Admirável Mundo Novo”, “1984” e “Fahrenheit 451”. “VOX”, no entanto, pelo menos do meu ponto de vista, é um thriller.

Por que escolheu os EUA como cenário para o seu livro?

Sou natural dos EUA e conheço melhor a cultura do país do que a de qualquer outro, mesmo tendo vivido em vários países. Mas os temas mais abstratos de “VOX” não estão ligados particularmente aos EUA. “VOX” é definitivamente uma consequência de climas políticos e fala dos meus medos pessoais de qualquer abuso de poder, particularmente de um governo ou de uma fação extremista na sociedade. Mas não foi uma resposta direta à “atual” situação política - pelo contrário, construí uma história e usei aspetos da nossa realidade para desenhá-la. Na verdade, quando estava a escrever o livro, fiz a mim própria uma pergunta hipotética: e se a cultura da doméstica da era vitoriana tivesse ressurgido? Afinal, isso aconteceu, em certa medida, na década de 1950, uma época em que as mulheres que trabalhavam durante a Segunda Guerra Mundial voltaram a ser donas de casa, uma época em que programas de televisão como “Father Knows Best” eram populares. Então “VOX” é político, mas gosto de pensar que é político de uma como político de uma forma mais generalista. Independentemente da realidade atual, um dos principais temas que levanto é a importância de falar e usar nossas vozes enquanto ainda podemos. Espero sinceramente que o livro estimule as pessoas a pensar sobre os seus papéis e responsabilidades como cidadãos, as que temos hoje e as que poderemos vir a ter em algum futuro, independentemente de vivermos nos EUA, na Itália, em Portugal, na China ou em qualquer outro lugar!
 

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