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Dr. Bayard. “O amigo do peito dos portugueses”

Dr. Bayard. “O amigo do peito dos portugueses”

Tatiana Costa 25/02/2019 21:29

Celebra este ano 70 anos desde que os rebuçados foram criados. Tal como os rebuçados são passados dos avós para os filhos e netos, também o negócio destes rebuçados que começou no avô e se prepara para passar para os netos

O céu está azul, o sol brilha com todo o seu esplendor. São dez e meia da manhã de uma terça-feira e avistam-se poucas as pessoas nas ruas da Amadora. Quase a chegar à Rua Gomes Freire, o cheiro a rebuçado que se sente no ar é quase impossível de ignorar e a cada passo torna-se mais intenso. A culpa é do nº10 daquela rua.

Sem qualquer identificação, a porta branca passa despercebida para quem não sabe o que ali se produz. Assim que a porta se abre, o barulho torna-se ensurdecedor. Sobre o lado esquerdo encontra-se uma placa que denuncia a marca: em tons de azul está a imagem característica de um homem a tossir, acompanhada do nome tão familiar: “Dr. Bayard”.

Daniel Matias, diretor de Comunicação e Marketing da marca, conta ao i como tudo começou. “Os rebuçados foram criados pelo meu avô”, começa. Nascido no Norte do país, o fundador veio para a capital à procura de uma vida melhor. “Trabalhava numa mercearia em Lisboa na altura da Segunda Guerra Mundial” e houve uma família francesa - a do Dr. Bayard - que se refugiou em Portugal.

“Naquela altura era difícil arranjar comida” e o avô de Daniel começou a ajudá-lo, a aí nasceu uma amizade. “O meu avô mostrava-lhe Lisboa e o Dr. Bayard dava-lhe aulas de francês”, continua.

Quando a guerra acabou, o Dr. Bayard e a sua família regressaram ao seu país, mas como agradecimento o francês “ofereceu-lhe uma lata metálica com a fórmula dos rebuçados que ele fazia na França escrita num papel”. A partir daí o avô de Daniel começou a experimentar fazer os rebuçados em casa. Depois de uma fase de testes, passou a vendê-los juntamente com outras marcas de rebuçados em cinemas, farmácias e noutros locais.

Os rebuçados começaram a fazer sucesso entre os clientes e aos poucos foi expandindo a produção. A linha de montagem passou da cozinha “para uma pequena marquise” e com a “ajuda da minha avó faziam os rebuçados”. “Depois, com a ajuda do meu pai e da minha tia, pequenos, embrulhavam os rebuçados à mão”. O negócio foi crescendo e foram compradas as primeiras máquinas para industrializar o processo de produção.

A receita permanece a mesma desde que o seu avô recebeu a latinha metálica, garante ao i Daniel Matias, acrescentando que é algo bastante secreto. “Não posso partilhar muito porque também nem eu sei”, começa por explicar, acrescentando que neste momento apenas o seu pai conhece os ingredientes que compõem os rebuçados. “Posso adiantar que levam limão. Os rebuçados são feitos por açúcar, glucose e mel, os ingredientes principais e depois o xarope das plantas medicinais leva limão, canela e anis. Esses três posso revelar, mas leva muito mais coisas”, disse, acrescentando que a receita está fechada a sete chaves e que no momento certo será passado à próxima geração - neste caso será a ele e ao irmão, que trabalham ambos na fábrica.

Tal como a receita, a imagem do homem a tossir também estava cravada na lata de metal, mas Daniel não sabe o porquê de ter ficado esse o logótipo. “Na altura em que o meu avô quis expandir o negócio desenvolveu as quatro caras que estão hoje na embalagem para passar a imagem de que era um rebuçado que era para a família inteira”, acrescentou.

Como são feitos? A fábrica - onde trabalham 15 funcionários - é composta por dois pisos. A caminho do rés-do-chão estão três funcionárias. Usam uma touca na cabeça, luvas e um avental branco para manusear a massa. Os ingredientes começam por ser misturados automaticamente numa panela industrial. “A partir daí, através de tubos, o líquido é puxado para uma cozedora onde temos duas panelas de cobre que vão rodando sempre alternadamente e onde a massa é cozida a alta temperatura e em vácuo”, explica Daniel.

Depois de cozida, uma das funcionárias tira a massa - que se assemelha a uma bola gigante - ainda quente e leva-a para outra máquina para ser amassada várias vezes e ao mesmo tempo arrefecer. Depois passa para outra máquina, para ser afunilada até chegar à “grossura de um dedo”, esclarece o responsável. Esse fio é cortado numa moldadora e sai com o formato dos rebuçados que todos conhecemos.

Ainda quentes, passam várias vezes por um tapete rolante com ar condicionado para arrefecerem e ficarem prontos a comer. “Através de tapetes rolantes passam para a parte da embalagem”, diz Daniel.

O barulho é ensurdecedor, mas nesta parte não se vê qualquer funcionária porque é tudo automatizado. 

Na zona de embalar estão três máquinas a trabalhar em uníssono - que em capacidade máxima conseguem embalar mil rebuçados por minuto. O papel, colocado numa espécie de película, semelhante à dos filmes antigos, é cortado, enrolado em tubos, o rebuçado entra e a máquina através de duas pinça fecha o papel. 

Num tapete seguem os rebuçados já embrulhados, mas não vão para as embalagens antes de passarem por um controlo de qualidade. Nesse posto está um funcionária que examina cada rebuçado - os partidos ou mal embrulhados são colocados de parte e os outros seguem para as balanças. São eletrónicas e, por isso, já estão programadas para pesarem 100 ou 200g, conforme o que estiver a ser produzido. Os rebuçados são pesados, colocados nas embalagens e estas são fechadas, descendo para a cave - onde se finaliza o processo de embalamento.

Descendo para a cave - composta por grandes silos que armazenam as matérias primas -, entre várias caixas de cartão, estão duas funcionárias que separam 40 embalagens de cada vez para dentro das caixas - que depois são fechadas automaticamente numa máquina, colocadas em volumes e estes em paletes para serem distribuídas.

Daniel Matias revela que a época em que mais vendem é entre setembro e abril, mas que a produção só para durante o mês de agosto - em que a fábrica fecha para férias.

Quanto ao mercado internacional, Daniel diz que para já não é algo que lhes interesse: “Tudo o que nós produzimos aqui é vendido para o mercado nacional. Para conseguirmos exportar teríamos que fazer aumento de instalações, mais horas e mais máquinas. É um investimento bastante grande”. No entanto, têm uma loja online em que fazem envios para o estrangeiro.

E os clientes são muitos. Segundo Daniel ainda há quem vá bater à porta da fábrica para buscar os rebuçados. “É mais aqueles clientes antigos que sempre vieram (...). Os poucos que ainda vêm buscar aqui são daqui da zona ou são clientes antigos e já estão habituados a vir aqui”, reitera, acrescentando que alguns são ainda da altura em que o seu avô liderava a fábrica.

Aos olhos de Daniel é a confiança na marca e “a ligação afetiva que as pessoas têm à marca” que atraem os consumidores. “Mais do que um produto somos o amigo do peito dos portugueses”, completou.

Por dia, aquela fábrica produz 800 mil rebuçados e por ano tem uma faturação de 2,5 milhões de euros.

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