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António Rodrigues 25/02/2019
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

A mulher, o camelo e o nosso amigo saudita

Uma ferramenta digital para manter as mulheres sob controlo é apenas uma forma de usar o progresso para se manter feudal. Os sauditas esmeraram a arte de trazer a Idade das Trevas para a era moderna, sempre com o beneplácito do ocidente

Aparentemente parece ser mais uma aplicação moderna destinada a superar a burocracia e as filas nas repartições públicas. Um avanço tecnológico para facilitar a vida dos cidadãos, como muitos outros hoje em dia, que lhes permitem, neste caso, pedir documentos online como o passaporte e recebê-los diretamente em casa sem delongas, nem dores de cabeça.

Só que a Absher não lida apenas com a burocracia, é também um instrumento que alarga a discriminação das mulheres e as agrilhoa digitalmente ao sistema tutorial que lhes está destinado do nascimento até à morte. A Arábia Saudita, esse país feudal sentado sobre grandes piscinas de petróleo, sabe dar passos sólidos para o desenvolvimento digital da sua sociedade solidamente ancorada num passado tribal de invisibilidade da mulher.

Com a Absher, criada pelo Ministério do Interior, disponível para download nas plataformas da Google e da Apple, os homens sauditas podem pedir passaportes, autorizar viagens, registar mulheres e menores sob a sua tutela, conceder autorização para estudar ou casar. A Absher facilita digitalmente ao homem o controlo do seu rebanho, sejam filhos, sejam mulheres. É uma questão de propriedade.

A Casa de Saud vem usando o seu abundante ouro negro para comprar a manutenção do seu regime do século XIX em pleno século XXI. Não apenas para garantir à sua corte a riqueza pornográfica a que está habituada, também para, no xadrez mundial, os sauditas continuarem a ser um permanente interesse ocidental. A Arábia Saudita vem adquirindo no Ocidente desde a sua criação o direito a violar direitos humanos todos os dias.

A Absher é só o reflexo na era digital desse direito ao feudalismo tão luxuosamente obtido. A mulher é propriedade do homem, tal como os camelos – assim se estabelece a identidade de género na Arábia Saudita. O camelo até goza de um maior grau de liberdade e se não há concurso de beleza para mulheres, por razões óbvias, o dos camelos atrai todos os anos milhares de espetadores e junta 30 mil especímenes na região de Al-Danah. O respeito pelo camelo não se estende até às mulheres na sociedade saudita.

A aplicação existe desde 2015, mas voltou a ser notícia este mês porque o senador norte-americano Ron Wyden pediu à Apple e à Google que a deixassem de disponibilizar para download por violar o direito das mulheres. As duas empresas prometeram que irão investigar se a aplicação viola as suas políticas, ao mesmo tempo que o governo saudita garantia tratar-se apenas de uma ferramenta que facilita a vida das pessoas. E está certo o executivo saudita na sua afirmação, porque o que está errado nesta história não é a ferramenta digital.

Quando a congressista Katherine Clark lhe chamou “arma patriarcal” definiu bem o que é a Absher, apenas uma de muitas armas de um regime patriarcal que subjuga a mulher e a limita à permanente dependência do homem, do senhor tribal, que a coloca ao nível ou abaixo de camelo. E isso não é nenhuma novidade.

A monarquia absolutista que se instalou na península arábica com o beneplácito dos colonos britânicos, sempre gozou do contacto privilegiado com os governos dos Estados Unidos e europeus para se manter “amigo” ao mesmo tempo que permanecia na idade das trevas e fomentava mundialmente um fundamentalismo religioso capaz de instigar o terror em todo o mundo.

Muitos dos grandes problemas internacionais, muitos dos crimes cometidos em nome de uma interpretação radical do Corão, muito do jihadismo e do terrorismo internacional foram patrocinados pela Arábia Saudita. Sem o apoio da Casa de Saud, o wahabismo não andava por aí a recrutar mártires para se fazerem explodir por uma ideologia religiosa antiprogresso que pretende fazer renascer a Idade Média em pleno século XXI.

É, por isso, que mesmo com a capacidade ocidental de descobrir armas de destruição maciça onde não existem para justificar uma guerra, o regime saudita tem conseguido safar-se lautamente por entre os pingos grossos da civilização – porque o seu fechar de torneiras na OPEP tem impacto nas economias ocidentais, porque a sua corte de príncipes ociosos esbanja dinheiro na indústria luxuosa do planeta, porque o seu regime é um comprador habitual do melhor e mais moderno armamento, porque a sua força permite conter a expansão iraniana (como se vê por essa guerra terrível que dizima o povo iemenita ao chumbo e à fome).

Vejam como desapareceu das notícias a morte do jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita de Istambul, tudo indica a mando do próprio príncipe regente, Mohammed bin Salman (que o regime tentou vender como um arauto da modernidade, a figura chave para trazer a sociedade do passado obscuro onde continua a viver no presente). Os cães ladram e a caravana (de camelos) passa.

É como diz o presidente Donald Trump, pode ter sido o príncipe Salman a mandar matar Khashoggi ou pode não ter sido. Quem sabe? No caso da Absher, pode ser que seja apenas uma ferramenta destinada a facilitar a vida aos sauditas ou uma aplicação discriminadora das mulheres. Quem sabe? Tanto progresso depois é estranho seguir ouvindo estas perguntas. Mas quando o vice-presidente dos Estados Unidos não pode estar sozinho com outra mulher numa sala por razões religiosas, damo-nos conta que podem vir a ser perguntas cada vez mais frequentes no futuro.

 


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