18/11/19
 
 
Alexandra Duarte 25/02/2019
Alexandra Duarte

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As teias de Lisboa

Um regulamento em vigor desde janeiro de 2016 previa a remoção dos cabos, fios e redes aéreas que desfiguram as ruas e prédios da cidade. Mas nada tem sido feito

António Costa chamou Duarte Cordeiro para perto de si. Talvez tenha sentido falta daquela garra que caracteriza o número dois da cidade de Lisboa, própria de quem é jovem e determinado, para desempoeirar os Passos Perdidos e voltar a ter perto de si alguém com quem já trabalhou quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. No mandato autárquico anterior, o mesmo aconteceu a Graça Fonseca, que ainda hoje se mantém como ministra da Cultura, não obstante as tropelias que se sucederam com alguma graça. Um colorido da vida política quotidiana.

As apostas faziam-se nos corredores do município. Havia quem colocasse todas as suas fichas em Fernando Medina, numa tentativa de António Costa vir em socorro do portuense emprestado a Lisboa, e o libertasse deste jugo que foi renovado nas últimas eleições por mais quatro anos. Já só faltam dois anos e meio para terminar este serviço para o qual ainda se estava a preparar. Houve quem estivesse mais atento e acertasse no homem que se seguiu.

Entre Fernando Medina ou Duarte Cordeiro era previsível que isto acontecesse. Bastava saber qual dos dois iria ser o escolhido, e interpretar o sinal que António Costa, enquanto secretário-geral do Partido Socialista, quereria dar para o futuro. A leitura é interessante e favorece mais um do que o outro, mas o que pretendo não é tanto enveredar por futurologia partidária e eleitoral, mas sim perspetivar o dia de amanhã desta cidade, com esta alteração cirúrgica.

A perspetiva não é animadora. Eu diria mesmo que vai ficar tudo na mesma. Aqueles que acusavam Duarte Cordeiro de desestabilizar o executivo, pressionando Fernando Medina e condicionando as suas prestações, pensam que vamos ter uma nova presidência, desenganem-se. Tudo indica que não haverá nada de novo, o que não abona a nosso favor, os cidadãos.

Um caso prático, para que percebamos o que vamos continuar a ter. Em dezembro de 2015, foi aprovado e publicado em Diário da República o Regulamento de Infraestruturas no Espaço Público do Município de Lisboa, no qual constam vários artigos referentes aos cabos, fios e redes aéreas que desfiguram as ruas e edifícios da cidade. Por muito distraídos que andemos nas nossas correrias, esta paisagem não nos passa despercebida, tal como seria desejável. Pelo contrário, as principais artérias da cidade são uma montra deste desleixo, onde se implantaram árvores, tal e qual próteses dentárias, e remodelaram praças, numa tentativa de escamotear a visão pouco estética que a cidade foi ganhando.

Em vigor desde 19 de janeiro de 2016, este regulamento municipal previa uma data específica para a remoção das redes aéreas e dos cabos instalados em fachadas de edifícios que não estivessem a ter utilização efetiva: 31 de maio de 2017. Até esta data, os proprietários e os operadores de comunicações eletrónicas, de energia elétrica e similares teriam que proceder em conformidade com a remoção, sob pena de serem instaurados processos sancionatórios ou de contra-ordenação.

Parada no trânsito do eixo-central, em jeito de contemplação, admirava a remodelação de um edifício que na sua esquina tinha uma florista e que hoje é um espaço de degustação de gastronomia italiana. Um investimento volumoso, esteticamente irrepreensível, que valorizou a Avenida da República e que faz as delícias dos apreciadores de uma boa pasta ou pizza. Ao fazer zoom consigo ver as caixas pretas pregadas nas fachadas, de onde saem fios e mais fios que se estendem e abraçam todo o edifício e seguem, como lianas, para o outro lado da rua, como se procurassem um caminho pela cidade fora.

Desde maio de 2017 que esta situação já deveria ter tido uma outra intervenção que restringisse a quantidade de fios, cabos e redes aéreas que abundam pela cidade. Ao invés, é só constatar que não tem havido fiscalização destas situações irregulares, como também os responsáveis não têm sido notificados para o efeito. Resultado: o regulamento municipal de nada serve se não houver vontade política para o aplicar.

Com a saída de Duarte Cordeiro, não se preveem alterações de fundo neste cenário. Continuaremos, pois, a assistir à multiplicação das trotinetas e das bicicletas, tornando Lisboa num quarto de brinquedos completamente desarrumado, depois das crianças terem “organizado” os carrinhos à sua maneira. Nos jornais, continuaremos a ler notícias sobre jovens esfaqueados à porta de discotecas e de “arrastões” à boa moda brasileira, mas perpetrados por cidadãos nacionais, envolvendo jovens que saíram para beber um copo. Os turistas continuarão a chegar, ainda que o seu perfil médio seja cada vez mais baixo, a avaliar pelas unidades hoteleiras em que se alojam e pelos valores máximos de consumo.

Nada de novo, portanto…

 

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