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Vaticano. Papa pede que se oiçam as vítimas “que pedem justiça”

Vaticano. Papa pede que se oiçam as vítimas “que pedem justiça”

AFP João Campos Rodrigues 22/02/2019 08:42

Francisco pediu “medidas concretas” aos bispos, reunidos com vítimas de abusos sexuais por padres. Papa quer romper com a cultura de encobrimento e silêncio do Vaticano   

Na abertura da cimeira de proteção das crianças na Igreja, o papa Francisco reconheceu a crescente pressão sobre a Igreja Católica por causa dos sucessivos escândalos de abusos sexuais e mostrou-se determinado a enfrentar o problema. “Esperam de nós, não apenas uma simples condenação”, afirmou o papa, considerando necessárias “medidas concretas e eficientes”. E pediu aos prelados de todo o mundo que oiçam as vítimas “que pedem justiça”.

Apesar dos apelos, o papa foi criticado ainda não tinha começado a cimeira, por não ter estado presente, na quarta-feira, numa reunião com várias vítimas de abusos por padres. “Precisamos de falar com o homem que dita as regras e que tem poder nesta instituição, e esse é o papa Francisco”, declarou Peter Isely, um dos fundadores da SNAP (Rede de Sobreviventes de Abusos por Padres). “Se ele se pode reunir com todos aqueles bispos que ali estão, também se pode reunir connosco”

A SNAP, juntamente com vários outros grupos de vítimas, defendem “tolerância zero” para abusos, com o afastamento imediato do sacerdócio, tanto dos padres condenados por crimes sexuais, como dos superiores hierárquicos que os encobrem. 

Esta cimeira é um encontro histórico que pela primeira vez reúne quase 200 bispos de todo o mundo com vítimas de abusos sexuais por sacerdotes. O Vaticano reconhece com esta iniciativa que não se trata de incidentes locais e isolados, mas de uma questão global de silêncio da Igreja em relação a esses crimes. Necessitando-se de “um guião prático, com passos específicos” a cumprir pelas autoridades religiosas, “sempre que surja um novo caso”, como se lê nos pontos pontos de reflexão do papa para a cimeira, divulgados esta quinta-feira. 

Francisco sugeriu “protocolos específicos” para “acusações contra bispos”, propondo “avaliações psicológicas” a candidatos ao seminário e que seja facilitada “a participação de peritos leigos nas investigações”. 

O encontro “não vai resolver todos os problemas”, como afirmou monsenhor Charles Scicluna, arcebispo de Malta e um dos principais investigadores de abusos sexuais do Vaticano. Frisando, no entanto, a importância de tomar medidas que alterem a cultura de silêncio dentro do clero católico. “Dar seguimento” ao trabalho da cimeira “será essencial”, acrescentou. 

Apesar dos avanços, o Vaticano tem dificuldade em transformar a sua forma de atuar. “Enquanto a obsessão pelo secretismo e pela proteção da reputação continuar no âmago da Igreja, por parte de quem tem o poder de fazer as mudanças necessárias, essa mudança não acontecerá”, avisa Marie Collins, sobrevivente de abusos sexuais, em declarações à “The Atlantic”.

Collins demitiu-se da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, estabelecida pelo papa em 2015, em protesto contra a rejeição da proposta de um tribunal especial do Vaticano, para julgar bispos que encubram denúncias. A proposta está de novo em cima da mesa nesta cimeira. Collins alertou, numa carta de recomendações às associações de vítimas, que “a lei canónica é vaga no que toca a abusos, impedindo que os tribunais canónicos condenem casos em que a maioria das pessoas veria que houve abusos sexuais”. 

Nos últimos tempos, o papa tem tentado enfrentar os escândalos, afirmando até, na reunião de Natal deste ano da Cúria Romana, que “o maior escândalo neste assunto é esconder a verdade”. O papa revelou este ano, pela primeira vez, a existência de casos de abusos de freiras por sacerdotes, e expulsou da Igreja o antigo arcebispo de Washington, Theodore McCarrick - a mais alta figura do Vaticano a ser demitida em décadas -, após este ser condenado por abusar de crianças e adultos e solicitar sexo durante as confissões.

São posições muito diferentes da que teve o ano passado, quando apoiou o bispo chileno Juan Barros, acusado de esconder os crimes do mais famoso padre pedófilo do Chile, Fernando Karadima. À altura, o papa Francisco apelidou as acusações contra o bispo de “calúnias”. O sumo pontífice acabaria por aceitar a demissão de Barros, juntamente com a de outros três bispos, tendo reconhecido que tinha cometido um “erro grave”, pedindo perdão às vítimas.

Quando questionado sobre evolução da posição do papa, o arcebispo Scicluna respondeu: “Eu concentrar-me-ia na sua posição agora”. O arcebispo de Malta diz estar “impressionado” com a capacidade de Francisco de dizer “eu errei” e “não voltará a acontecer” ou “nós acertámos nisto”. Algo que dá ao investigador do Vaticano uma “grande esperança”.

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