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Al Berto. Um movimento de farol com o cigarro

Al Berto. Um movimento de farol com o cigarro

Diogo Vaz Pinto 21/02/2019 12:34

A publicação em Itália do último livro de Al Berto, “Horto de Incêndio”, originou uma exposição coletiva em Roma, com 26 artistas portugueses de diferentes gerações desafiados a criar um cerco visual à obra do poeta

Ainda é visto a passar, vincando as esquinas das cidades que melhor conheceu, e mostra-se interessado como dantes, ainda que só o corpo persista, e, aberto à sedução como sempre, repita os gestos daquele que se ausentou, avisando: “se fizeres um movimento de farol com o cigarro/ eu - que vou a passar - tudo verei/ mas nada será meu”. E um pouco depois: “gesticulo como aquele que já não sou e/ outro não serei”. São versos do poema “engate”, que integra o último livro de Al Berto, “Horto de Incêndio”, publicado no ano da sua morte, em 1997. O poema termina assim: “mantenho-me de pé e fumo/ dentro deste túmulo de incertezas onde/ nos encostámos de mãos enlaçadas à espera/ que uma qualquer cesura nos agonie e sejamos/ obrigados a vender o corpo já usado/ aos insuspeitos violadores de poemas”.

Federico Bertolazzi, um leitor italiano, desses cujo nome bastaria como cartão de visita, ficando a soar como um enigma, entusiasmou-se com a obra de Al Berto. Professor de literatura portuguesa na Universidade de Roma Tor Vergata, partilhou com os alunos esse entusiasmo, e isto levou a que acabasse a traduzir com um deles - Claudio Trognoni - o último livro do poeta. Faltava depois conseguir que alguma editora estivesse disposta a arriscar num poeta desconhecido para os leitores italianos, e foi ainda preciso esperar, passou um longo tempo até a Passigli ter decidido avançar. Bertolazzi ainda fez mais, num esforço para que o lançamento da tradução não fosse uma falsa partida. O instinto ter-lhe-á sugerido que se fizesse valer da ligação de Al Berto às artes plásticas, que estudou nos anos que passou fora de Portugal, e praticou mesmo depois de ter voltado de Bruxelas, essa inclinação que lhe dota os versos de um rasgo promíscuo, vibrando de influências, de envolventes e insinuantes contornos partilhados com as artes plásticas. Assim, o tradutor convidou Ana Natividade, que dirige a oficina de gravura da MArt, em Lisboa, para fazer uma exposição por ocasião do lançamento do livro. A ideia, como explicou ao “Público” Bertolazzi, era que a mostra em torno da edição italiana de “Horto de Incêndio”, fosse concebida “não em termos de ilustração, mas de elaboração estética sobre o universo de Al Berto”. 

Daí nasceu a exposição coletiva “Orto di Incendio: 26 Artisti Portoghesi su Al Berto”, que inaugurou há uma semana no museu do Istituto Centrale per la Grafica, na capital italiana, herdeiro da antiga oficina papal de impressão e gravura, e que conta com um bando de olhares pairando a diferentes níveis de altura sobre aquela obra poética, com os vários trabalhos a usarem a técnica da gravura. São 26 os artistas convidados por Ana Natividade, nomes já estabelecidos, incluindo outros professores da MArt, como Paulo Brighenti, André Almeida e Sousa, mas também alunos. Assim, a oficina - instalada na Escola Básica Manuel da Maia, em Campo de Ourique - tornou-se um ponto de convergência e diálogo dos artistas convidados e dos alunos, à medida que as séries iam despontando.

A proposta de Ana Natividade foi que, usando a gravura, se desenvolvessem séries de dez obras. E se a técnica é a mesma, houve quem optasse por múltiplos, e outros se dispersassem tendo como ancoragem uma mesma matriz. Havendo artistas que recorrem de forma regular à gravura e outros que nunca o haviam feito, os diferentes percursos produzem um cerco à obra do poeta. É bem notório em algumas destas séries, incluindo as de João Jacinto e André Almeida e Sousa, a pujança dos versos, uma beleza peregrina, que do esplendor faz a sua doença, e se reveste de chagas, um corpo num inacabável processo de metamorfose, tornando-se “suficientemente ágil para poder lambê-las, como fazem os cães”.

Sendo um poeta para quem o fôlego era tudo, se lhe faltou a paciência, ou até a frieza que mais depressa nos convence da grandiosidade de uma obra, Al Berto parecia escrever por múltiplos, ensaiar incessantemente, num desabafo atravessado de tudo. Escrevia como quem se expusesse, radiografando-se, pintando por cima, compondo um gesto em incessantes gravuras, sem a preocupação depois de assertoar tudo numa composição minuciosa. Essa receita, esse passar a limpo,  os modos de aclarar a garganta, buscar uma firmeza clássica, não foram os seus modos. Os melhores garantes do génio não eram a prioridade do autor de “A Secreta Vida das Imagens”. Um certo desleixo com algo de tocante canta nos seus versos. No fim, este “luminoso afogado”, permitiu-se sucumbir a um desejo extremo de beleza que tantas vezes carregou a sua obra de tentativas algo desesperadas, que ressoam em nós, e soube ser uma dessas personalidades vitais, necessárias para dar o tom e o nível de uma época ou geração. Começa a ser claro, hoje, que a sua obra tem sabido resistido melhor do que outras, mais perfeitas, mais delicadas na afinação, à prova do tempo. Citando Luiz Pacheco no que disse a propósito de um outro poeta, com vagas semelhanças com Al Berto, “percebe-se que viveram desprendidos, que não contraíram (não quiseram ou não puderam contrair) consigo próprios, com a luz que lhes ia dentro, a disciplina exigida por uma criação deliberada e ambiciosa; que a frivolidade do carácter lhes adoçava, atenuando-a, a vontade criadora”.

Quantas vezes Al Berto reinventou a solidão, a insónia, esses e outros escalavrados lugares-comuns, quantas vezes se desgosta o amor nos seus versos, e se achou ele no fundo de um desânimo súbito? Foi ridiculamente sincero, e confessou-se como quem se coça até descobrir nisso uma forma de música, uma outra sensualidade. Não pudemos percorrer os percursos dos 26 artistas que, com as suas séries, reinterpretaram esta obra, e só foi possível vê-las em fotografias ainda na oficina ou, depois, no momento da inauguração da mostra. Se uma de cada série ficou com as instituições envolvidas, as restantes gravuras foram adquiridas pela Gulbenkian e pelo Instituto Camões, e, em novembro, chegará a vez de serem exibidas por cá, no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado.

No texto que Bertolazzi redigiu para a inauguração de Orto di Incendio em Roma,  diz que esta “é uma homenagem livre e apaixonada a um poeta que marcou fortemente a cena literária e artística do seu país”, e adianta que Al Berto “conseguiu dar corpo a uma inquietação partilhada por muitos, e as suas palavras encarnaram uma espécie de grito colectivo que, tendo partido das entranhas do ser, ousou erguer-se contra a morte”. Ao invés de optar por devolver esta obra aos artistas que trabalharam com ela em vida do poeta ou depois dela, Ana Natividade explicou ao i que preferiu convidar artistas de diferentes gerações. E se alguns já conheciam a obra e chegaram até a conhecer pessoalmente o poeta, outros conheciam-na mal, o que também diferenciou as abordagens. Fala num triplo desafio que foi lançado aos artistas, incluindo a si mesma: “Conjugar a sua obra e percurso individual com o ‘Horto de Incêndio’ e com a gravura, que é uma forma de pensamento e ferramenta técnica muito diferente do desenho, da pintura ou da escultura.” E fala ainda no impacto desta poesia na vida da escola: “O Al Berto tornou-se muito presente para todos e o trabalho dos artistas foi uma fonte de curiosidade e de interesse para alunos e artistas residentes. Como o projecto irá ter continuidade esta influência e, até perturbação da vida diária, irá continuar.”

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