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Banks. De Wembley a Toronto, entre penaltis, pastilhas elásticas e um adeus à chuva

Banks. De Wembley a Toronto, entre penaltis, pastilhas elásticas e um adeus à chuva

DR Afonso de Melo 20/02/2019 23:15

Agora juntos sobre o relvado da eterna saudade, Gordon Banks e Eusébio estiveram frente a frente ao longo de mais de 15 anos, nas mais diversas circunstâncias, sempre com o inglês atento aos movimentos da Pantera Negra

João Guimarães Rosa, médico, diplomata, escritor, gostava de futebol como todos os brasileiros. Talvez tenha assistido pela televisão ao Campeonao do Mundo de 1966, apesar de toda a desilusão canarinha, de Pelé a Garrincha e a Tostão. Afinal morreu em Novembro de 1967, depois de ter escrito sobre a própria morte, ele que afirmava: “As pessoas não morrem, ficam encantadas... a gente morre é para provar que viveu”.

Este mês de Fevereiro foi o mês em que Gordon Banks se encantou. Talvez Guimarães Rosa tenha assistido ao penalti de Eusébio, em Wembley, na meia-final. O primeiro golo que Banks sofreu na prova.

“Ele percebeu que eu fiquei triste”, disse Gordon no fim. “Tanto que nem comemorou. Só me cumprimentou”.

Banks Nasceu em Sheffield, no dia 30 de Dezembro de 1937, e ficou para o encantamento de Rosa como um dos inesquecíveis divinos. Chamavam-lhe “Banks of England”, num trocadilho que tinha que ver com a sua reconhecida segurança. Dele disse Pelé, no Mundial de 1970: “Foi o único guarda-redes que eu vi defender um golo”. Jogou no Chesterfield (1955 a 1959), no Leicester (1959 a 1967) e no Stoke City (1967 a 1972), antes de rumar aos Estados Unidos para o Fort Lauderdale.

Não cabe aqui um epitáfio. Seria tardio e fastidioso. Mas vem a propósito de outro encantado, chamado Eusébio da Silva Ferreira. Porque Eusébio e Banks cruzaram-se desde o primeiro ao último minuto das suas carreiras imensas. Não reduzam Banks e Eusébio àquele pontapé de Wembley aos 82 minutos que conseguiu emudecer cem mil almas aflitas, inquietas, amedrontadas. Eusébio e Banks têm uma história para lá das lágrimas numa camisola cor de sangue e da alegria de um sorriso torto, quase de gnomo de um dia 26 de Julho.

A tristeza de Eusébio e felicidade de Banks. Juntos, hoje, no relvado da saudade eterna.

Três anos antes: Wembley na mesma. 100º aniversário da The Football Federation. A Inglaterra, a orgulhosa Inglaterra, que inventou o futebol, contra o resto do mundo. O resto do mundo era uma equipa da FIFA.

Banks estava na baliza de Inglaterra.

Eusébio estava do outro lado, com Di Stéfano, Dennis Law, Raymond Kopa, Francisco Gento, dito Paco.

Eusébio contou-me. Tinha um jeito especial para contar histórias, Cheias de pormenores. “Na quarta-feira de manhã, após o pequeno almoço, descansámos. A seguir ao almoço, o sr. Riera deu-nos a prelecção, confirmando todas as suas indicações anteriores. Enchi-me de nervos à medida que se aproximava a hora do jogo. Tinha medo de falhar. Na cabina, equipei-me em silêncio. Era o menos experiente e o mais jovem de todos. Os meus colegas de equipa animaram-me e eu fiquei mais calmo. Minutos depois de o jogo começar já estava sereno e a jogar sem preocupações. Recebia a bola e entregava-a. Não a retinha muito nem driblava. Tentava passá-la sempre bem para ganhar confiança. E veio a primeira oportunidade de golo numa tabela com Di Stéfano. Arranquei, vi a baliza e o golo. Norman carregou-me com dureza, mas com lealdade. Senti a perna direita presa e a dor a voltar. Rematei com o pé esquerdo, mas à figura de Banks. O sr. Riera gritou-me e eu apontei para a perna. Veio outra oportunidade numa tabela com Kopa. Ele meteu-me a bola à frente, tentei arrancar mas não consegui. Kopa olhou para mim e compreendeu. Entristeci-me, pois marcaria se estivesse bom. Dois golos. Estou convencido de que sim”.

Eusébio: 21 anos; Banks: 25.

Continuariam frente a frente até ao infinito.

9 de Outubro de 1972. Londres nunca sai da vida de Eusébio. Uma colecção de fotografias ligadas ao futebol, com grandes vedetas internacionais para embrulhar pastilhas elásticas. Eusébio não faltou. Vinha embrulhado na “World Cup Footbal Stickers”, juntamente com Gordon Banks. A BBC organizou uma promoção – Eusébio frente a frente com Banks, como no Mundial de 1966. Numa das balizas de Loftus Road, Banks dispunha-se a defender 10 penaltis de Eusébio, vestido com a camisola do Queens Park Rangers. Eusébio chutou dez vezes, marcou nove. Banks defendeu um. No final, o jornalista inglês questionou-o: “Quantos “penaltis falhou na vida?” E Eusébio: “Acho que três, e porque quis marcá-los de forma bonita”.

Dias depois, num desastre de automóvel, Banks perdeu a vista direita. Teimaria em jogar. Com um olho só. Melhor do que tantos com todos eles.

Stoke-on-Trent, cidade de Stanley Matthews. Chove sem piedade sobre o Victoria Ground no dia 12 de Dezembro de 1973. Jogo de homenagem a Banks: Manchester United-Stoke City. Desta vez estão do mesmo lado. Eusébio veste a camisola do Stoke. Ele e Bobby Charlton. Nas fileiras do amigo. Estão nos seus postos!

1978, Canadá: Eusébio e Gordon Banks frente a frente como num “flashback”. Convidados para uma partida de exibição de futebol “indoor” em Toronto, na companhia de Bobby Moore, Jair, Jackie Charlton, Sekularac, Jimmy Greaves. 20.000 dólares por um jogo de 50 minutos. Marcou dois golos a Banks – valeram 120 contos. “Nada mau”, comentou. Encolheu os ombros e foi embora.

A caixa registadora do futebol da América. E Banks. E Eusébio. E Eusébio. E Banks.

 

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