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19 de fevereiro de 1933. O homem de Corfu fazia dançar o urso na ponta de um pau

19 de fevereiro de 1933. O homem de Corfu fazia dançar o urso na ponta de um pau

DR Afonso de Melo 20/02/2019 22:58

Grupos de polacos e de gregos acamparam na Quinta do Fole, às portas de Lisboa. “Pfff... ciganos”, cuspilham os saloios que descem da Malveira e lhes vendem fruta estragada. Não ficam muito tempo. É assim a transumância

Se o meu querido amigo Rui Veloso lhe apetecesse puxar da voz para dar um fundo musical a esta história, diria certamente: “Em baixo fogos trémulos nas tendas...” Uma ardência permanente como se fosse fogo de profeta. Nómadas vieram da Polónia até às portas de Lisboa e, por momentos, ficaram a ver ao longe uma cidade de promessas por cumprir. O povo, esse, quando vinha lá dos arredores saloios vender as couves, as cenouras, as batatas, as cebolas e as alfaces (as alfacinhas), cuspilhava para o chão com um desprezo que lhes vinha mais da alma do que das papilas salivares: “Pfff... ciganos...”

Ah! Os ciganos calcorreando a Europa como os velhos povos que puseram fim ao império dos romanos. Agora caminham sem armas. Traziam balalaicas e as mulheres de olhos negros que divulgam ao pormenor a “buena dicha”. Atravessaram a Alemanha e a Boémia, dobraram o Bojador das águas tormentosas do Ródano, deixaram a França através dos Alpes até chegarem à península que talvez vá tendo cada vez menos de ibérica.

Um grupo numeroso instalou-se na Quinta do Fole. Barracas quadradas, volumosas, de cores berrantes, cercadas por uma paliçada. Os homens trabalhavam ao ar livre do fevereiro fresco: faziam caldeiras. Um tocava guitarra em lamentos, os outros cadenciavam o ritmo como no coro de Verdi de “O Trovador”.

Ciganas belas.

“Chi del gitano i giorni abela? - La zingarella!”

La zingarella, claro; la zingarella.

Samovares de estanho fervem de chá.

Curvas graciosas e dolentes são espreitadas pelos olhos sem maldade dos velhos lúbricos, que puxam fumaradas dos cachimbos.

Não se misturam. Ficam lá no seu lugar, quase nos contrafortes da cidade, vigiados ao longe por grupos de guarda a cavalo, uma desconfiança gerada pelo desconhecimento. Há um ou outro que se atreve a entrar no acampamento para comprar uma panela de estanho ou, se calhar, na expetativa que os riscos da palma da sua mão direita saibam dizer às mulheres de xailes compridos o futuro que tem medo de adivinhar.

Um quilómetro Mais acima, na curva da colina, outro grupo surgiu. E ergueu tendas, por sua vez. Não, estes não vêm do norte da Europa, da Pomerânia, terra dos Grifos. Vêm do sul, das margens do Egeu, onde o azul tem o tom do impossível. Enfiam estacas no chão revolto, fazem nascer proteções cónicas, trazem consigo uma miséria extrema e trágica.

A fome alimenta-lhes a revolta. Diz quem viu nesse ano de 1933 que muitos comiam fruta e legumes podres, deixados no chão pelos vendilhões que demandavam o mercado de Lisboa pelos vislumbres do sol da manhã. “São gregos! Não falam nada de nada”, conta o sr. Antunes, merceeiro. “Fazem biscates. Ou pedem para fazê-los em troca das sobras que, no fim do dia, deito para o lixo. Não confio neles. Mas a fome fá-los voltar.”

Mais de 40 homens, mulheres, crianças.

Velhos. Muitos velhos sem bancos de jardim.

Mendigam a quem passa e quase ninguém passa. Desviam-se para os contornarem, sem vontade de contacto mais íntimo que o da vista.

Um Matusalém de barba pelo peito lamenta-se numa lengalenga absurda enquanto tosse a cavernosa expetoração dos pulmões destruídos pelo tabaco.

Miúdos nus, a despeito do frio, retouçam nos lagos de lama grossa que a chuva da véspera deixou.

Grita-se ao desbarato. Discute-se. Arrepelam-se cabelos no desespero da insânia. Para onde será agora o seu caminhos, depois de um Portugal sem mais estradas que não sejam as do mar? Trouxeram dos confins da Macedónia, da Capadócia, uma vontade férrea de nunca parar. Não ficam mais de um mês, às vezes dois. Em busca de algo que se calhar nem eles próprios sabem o que é se não uma volição de andar sempre, andar até ao fim dos tempos, até ao fim da existência, até ao fim dos mundos que parecem multiplicar-se um após o outro, a cada momento em que deveriam já se ter esgotado. Há quem lhe chame a transumância.

Ao contrário dos polacos, ali ao lado, não têm a arte dos materiais. Vivem do entretenimento alheio. Um homem forte, de peito ancho, vindo da ilha de Corfu, faz-se seguir por um urso e por um camelo. O urso tem um anel de ferro nas narinas. Ele prende um pau ao anel e obriga-o a dançar em troca de moedas. A indignidade do animal diverte a criançada mas aborrece o bicho, que se contorce com dores numa imitação grotesca de palhaço pobre. O camelo rincha, solidário. Aos domingos, contam, os saloios descem lá da serra da Malveira para ver o urso triste. Pegam em paus afiados e espetam-lhos nas carnes magras que ainda sobram sob o pelo que há muito perdeu o brilho. E entregam alegremente o seu dinheiro por uma voltinha enjoativa encaixado entre as bossas fétidas do camelo sujo.

Ao longe, o cenário alegre de Lisboa tem direito a fiapos de sol num inverno que, a pouco e pouco, vai fugindo por entre as folhas do calendário. Os ciganos irão partir. Partem sempre. São, como dizia o Torga, barcos que se recusam ao destino de ter cais...

 

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