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António Rodrigues 18/02/2019
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

“Morrer como um cão”

Vamos pensar duas vezes antes de apontar o dedo com tanta certeza para o canto onde julgamos que estão os culpados de tudo. É preciso ter cuidado com o algodão embebido na reinterpretação histórica dos acontecimentos na Venezuela

Era uma vez um presidente que comprou limpa-neves para uma universidade do seu país tropical. Tinha nacionalizado a principal indústria exportadora na altura do boom internacional dos preços e, em vez de amealhar para tempos mais difíceis ou redistribuir os ganhos por grande parte da população que vivia na miséria, quis antes transformar-se no grande caudilho latino-americano.

Por esse grande desejo de contribuir para guerras alheias, onde aparecia como generoso contribuidor internacional, não olhou a meios para iludir os controlos democráticos e garantir, com estratagemas ilegais, os milhões destinados a esse fim.

Tão intocável se julgava nesse papel de referência de um determinado progressismo democrático que acabou por ser preso e condenado por desvio de fundos públicos, tornando-se o primeiro presidente destituído da história do seu país. E depois de cumprida a pena de prisão, fugiu para os Estados Unidos com receio de que os outros processos que corriam contra ele nos tribunais resultassem em mais condenações. Morreu no exílio, paralisado do lado direito por causa de um acidente vascular cerebral.

Na altura da sua destituição do cargo, o país estava mergulhado no caos, numa grave crise económica e institucional, tal o grau de corrupção que se atingira. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos chegou à conclusão, analisando os números, que no primeiro mandato que exerceu como chefe de Estado gastou mais do que todos os outros governos juntos tinham gastado desde a independência.

Quando regressou ao poder, instaurou uma tal política de austeridade que a população se revoltou e quis nas ruas mostrar a sua repulsa por medidas tão draconianas. E a polícia e o exército reprimiram com sanha os protestos. Saldo da repressão: 276 mortos. Muitas organizações da sociedade civil falam ainda de mais de
2 mil pessoas desaparecidas.

Uma situação negra que deixou marcas e alimentou duas tentativas de golpe de Estado. Aquele presidente que chegara a ser um político venerado era agora um homem odiado, amante dos fatos caros, das viagens, do luxo e da ostentação. Ao mesmo tempo que as dificuldades económicas agravavam a vida da generalidade dos habitantes do seu país – já não só a dos pobres miseráveis, que assim como assim não se davam ao luxo da esperança, mas da classe média remediada, que sentia o seu poder de compra esboroar-se com a inflação.

Em apenas dois anos, de 1988 a 1990, esse presidente conseguiu o triste feito de fazer com que a percentagem de população abaixo do limiar de pobreza passasse de 18% para 45%. Um feito para ser bem lembrado 30 anos depois. Claro que não foi ele sozinho: o seu antecessor na presidência ajudou e muito à derrocada, num conluio de erros e fracassos alternados dos dois principais partidos que se haviam ido substituindo no poder durante mais de 30 anos.

O país com o quarto PIB per capita do mundo em 1950 e ainda com as maiores reservas de petróleo não chegou a este estado nos últimos anos. Sem bloqueio económico e humanitário, sem contas congeladas no estrangeiro, com privatizações, a inflação chegou a 81% em 1990.

Esse mesmo presidente que agora é lembrado pela oposição nas ruas da Venezuela como símbolo, o social--democrata Carlos Andrés Pérez, ou simplesmente CAP, tal foi o seu impacto na história do país, foi aquele que inaugurou os períodos de grande inflação num país que a conhecia pouco até então.

O presidente que nacionalizou o petróleo e criou a PDVSA triplicou a inflação no seu primeiro mandato, acabando com 9,86%. Comparada com a hiperinflação de hoje, isso não é nada, nem sequer com os 81% que iria alcançar no seu segundo mandato, anos mais tarde. Mesmo assim, se é preciso encontrar um homem no portão aberto para a desgraça, Carlos Andrés Pérez lá está na História, com a chave na mão.

A seguir vieram Luis Herrera Campins e Jaime Lusinchi, que mesmo com todo o dinheiro do petróleo conseguiram empobrecer milhões de venezuelanos, nomeadamente os da classe média, presos aos seus salários que não acompanhavam a subida de preços. Lusinchi conseguiu manter uma média de 31% de inflação no seu mandato. Nessa altura começava a espiral inflacionária que Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera viriam a confirmar com os seus mandatos na presidência.

A 2 de fevereiro passaram-se exatamente 30 anos da tomada de posse de CAP para o seu segundo mandato, que acabou por ser mais curto, por causa da sua destituição, mas cujos resultados ainda se sentem, apesar da tentativa da oposição venezuelana de passar pela memória o algodão cheio de álcool da reinterpretação histórica: os pacotes de austeridade, os empréstimos marcados pela receita única do Fundo Monetário Internacional e o empobrecimento generalizado não são de Chávez e do chavismo.

Ninguém nega os erros acumulados da revolução bolivariana, do próprio Chávez e mais ainda de Nicolás Maduro, mas negar as décadas de corrupção, compadrio económico e político dos dois principais partidos da iv República, a Ação Democrática de Pérez e o social-cristão COPEI, que tornaram possível a aclamação popular do chavismo, é apenas um exercício de reinterpretação histórica.

A democracia da iv República fica bem definida pelas palavras que Carlos Andrés Pérez chegou a pronunciar a partir do exílio dourado de Miami: “Estou a trabalhar para tirar Chávez do poder. A via da violência permitirá fazê-lo. É a única que temos”, disse, antes de acrescentar: “Chávez deve morrer como um cão, merece isso, que me perdoem esses nobres animais.” E era um democrata.


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