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O amor não é assim tão romântico

O amor não é assim tão romântico

Sofia Martins Santos 14/02/2019 14:55

Há muito tempo que se tenta entender tudo o que cabe dentro desta palavra e a ciência tem ajudado na tarefa: Mas de romântica esta história não tem nada

O que é o amor? O que nos faz? Há quem diga que é mestre em desencadear um efeito de “aqui me queres, aqui me tens”. Mas como acontece isto? Como justifica a ciência este poder todo? O que acontece de verdade no nosso corpo quando nos apaixonamos? Somam-se estudos sobre o tema, criam-se soluções para testar compatibilidades e proliferam negócios em torno disto. Mas o melhor é ir por partes.  

Tudo tem um início. A maioria dos especialistas parece entender-se quanto ao facto de ser um assunto que precisa de ser tratado com base em dois pressupostos importantes: o sistema de crenças e a ‘bioquímica’. É na mistura destes dois fatores que se explica que alguém se apaixone por determinada pessoa e não por outra qualquer. Ciara Molina, psicóloga espanhola, chamou a atenção de muitos quando, em 2015, sublinhou que “uma coisa é a reação instintiva (química) sobre a qual não temos controlo, e outra é a parte mais reflexiva e analítica que identifica se a pessoa pela qual nos sentimos atraídos nos complementa”. É exatamente esta relação entre os efeitos biológicos e químicos que “produz a sensação agradável que conhecemos”: o amor. 

Estar perante alguém de quem gostamos ou pensar sobre essa pessoa implica que várias regiões do nosso cérebro sejam ativadas, principalmente as que estão mais relacionadas com a recompensa e com a motivação. Entre elas, o hipocampo, o hipotálamo e o córtex cingulado anterior. É este o gatilho para inibir qualquer comportamento defensivo e aumentar a confiança no par romântico. É isto que justifica a frase “aqui me queres, aqui me tens”. Em simultâneo, são desativadas áreas como a amígdala e o córtex frontal, o que permite reduzir emoções negativas. Importa referir que o grau de ativação cerebral, durante as primeiras fases de uma relação, tem tanta importância em nós como o facto de a relação estar a correr bem ou mal. De romântica esta história não tem nada. Vários estudos feitos ao longo do tempo mostram que o amor é o resultado de um conjunto de reações químicas e o objetivo é apenas um: propagar a espécie. Por exemplo, assim como nos vícios, a oxitocina e a dopamina têm mais a dizer do que aquilo que muitos imaginam. A dopamina, por exemplo, é um neurotransmissor que tem mais responsabilidade na forma como funcionamos do que muitos pensam. “É responsável por sentimentos como amor, luxúria e vícios (...) É a mediadora do prazer. Aquela que nos faz agir, motivando-nos para determinados objetivos”, explicou há pouco tempo, a propósito de relações, a psicóloga Júlia Machado. A isto somam-se outros atores. A oxitocina, por exemplo, é mesmo conhecida como a hormona do amor. Tem outras funções, mas está muito ligada à criação de vínculos, por exemplo. Pode achar que entrou no paraíso ao beijar a pessoa de quem gosta mas, mais do que ter de agradecer aos céus, pode agradecer a esta hormona porque é a verdadeira responsável pela sensação de recompensa. 

Chave da felicidade Um estudo da Michigan State University (MSU) publicado este mês, no Journal of Research in Personality, explica que para uma relação feliz é preciso algo muito mais simples do que encontrar grande compatibilidade entre duas pessoas. Em “Why Mr. Nice could be Mr. Right”, os especialistas salientam que, ao contrário do que muitos julgam, encontrar alguém com uma personalidade parecida não é importante como parece. O motivo também não está ligado à máxima de que os opostos se atraem. 

“As pessoas investem muito na procura que fazem por alguém que seja compatível”, diz Bill Chopik, professor associado de psicologia e diretor do Close Relationships Lab da MSU. Mas, em vez disso, as pessoas devem perguntar-se: “É boa pessoa? É muito ansiosa? Estas coisas importam muito mais do que o facto de duas pessoas introvertidas terem acabado juntas”. De acordo com Chopik, esta nova análise veio provar que ter personalidades semelhantes quase não tem efeito na forma como os casais se sentem ou não satisfeitos. Aliás, este novo estudo vem provar que, apesar da popularidade, a tendência de formar casais através de testes de compatibilidade não tem base. “Não sabemos o motivo que leva o coração a fazer as escolhas que faz mas, com esta pesquisa, podemos descartar a compatibilidade como fator único”.

O estudo reveste-se de particular importância porque foram analisados praticamente todos os aspetos da vida dos casais, tornando-se assim um dos mais abrangentes. A análise permitiu medir os efeitos da personalidade no bem-estar de mais de 2 500 casais, com 20 anos de casamento. Mesmo entre os que apresentavam personalidades semelhantes, os investigadores perceberam que havia  bases a pesar mais do que esse fator. Ter alguém consciencioso e agradável provoca níveis muito mais altos de satisfação. Já, por outro lado, ter uma relação com alguém neurótico ou emocionalmente instável resulta em níveis muito baixos de satisfação. 

No entanto, apesar de ficar preto no branco que a compatibilidade pode interessar bem menos do que pensamos, proliferam mecanismos que prometem ajudar a encontrar ou validar o parceiro através deste fator. Muitos chamam-lhe moda, mas é bem mais do que isso. Falamos de um negócio de milhões, onde há cada vez mais motivos para entrar e não o contrário. Um estudo de 2015 apontava um público-alvo de 511 milhões de pessoas na América do Norte e Europa, dispostos a utilizar tecnologia para encontrar alguém. 

O amor e uma cabana A verdade é que muitos acreditam que o “coração tem razões que a razão desconhece”. A complexidade do tema sempre despertou a atenção de muitos. Há uma indústria disposta a ajudar na procura, há quem prometa ajudar a conservá-lo, há quem dedique uma vida a expressá-lo. É um sentimento universal e vem quase sempre associado à ideia de relacionamento. No entanto, estas duas palavras não andam sempre de mãos dadas. Muito pelo contrário. Um estudo divulgado ontem mostra que  muitas vezes é o dinheiro (ou a falta dele) quem tem a palavra final na tomada de decisões. A provar que os problemas financeiros são capazes de levar os casais a prolongar os relacionamentos está o facto de 37% dos portugueses ficarem presos a uma relação indesejada apenas por este motivo. Nos resultados do European Consumer Payment Report 2018, a Intrum demonstra que 37% dos inquiridos portugueses afirmam que a sua situação financeira tem sido um fator decisivo para não terminar um relacionamento e, consequentemente, ficar preso a uma relação indesejada. Uma média superior a 2017, em que o valor registado foi de 32%. 

Para Luís Salvaterra, Diretor-Geral da Intrum, “as circunstâncias financeiras podem assumir-se como fatores negativos nas relações pessoais. Os problemas financeiros influenciam o adiamento do fim das relações. Grande parte dos casais tem créditos bancários que não conseguem liquidar e, em caso de separação, cada um continua a ser responsável pelas dívidas existentes. Assumir a responsabilidade pelas finanças pessoais, juntamente com a plena noção das consequências de uma dívida, são questões que têm um peso muito grande no momento da separação”. 

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