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Goleadas. Quando o corpo quer mas a cabeça deixa de responder...

Goleadas. Quando o corpo quer mas a cabeça deixa de responder...

DR Bruno Venâncio 13/02/2019 16:19

O 10-0 do Benfica ao Nacional vai perdurar na memória coletiva, mas o futebol português (e mundial) é cheio de muitos outros resultados bem mais desnivelados

A estrondosa goleada aplicada pelo Benfica ao Nacional (10-0), no passado domingo, entrou para o imaginário dos seguidores do futebol nacional. Foi, de resto, a maior goleada conseguida pelas águias no campeonato desde 1964, quando conseguira outro triunfo com os mesmos números numa receção ao Seixal – no historial encarnado, ainda assim, encontram-se vários triunfos ainda mais dilatados, com os 14-1 ao Atlético Riachense, na Taça de Portugal de 1988/89, no topo.

O resultado de domingo, que assume contornos de escandaloso – Costinha, o técnico dos madeirenses, admitiu após o apito final ter sofrido “uma humilhação” –, não é ainda assim nem de perto um dos resultados mais volumosos já registados no futebol mundial... e nem sequer em Portugal. Essa “honra” pertence ao Sporting, que a 23 de maio de 1971, nos oitavos-de-final da Taça de Portugal, massacrou autenticamente o Mindelense, campeão de Cabo Verde (na altura as equipas das colónias ultramarinas participavam na prova rainha nacional): 21-0 foi o resultado final.

Fernando Peres, falecido no passado domingo, foi a grande figura da partida, com sete golos apontados. Lourenço marcou seis e vários outros jogadores fizeram também o gosto ao pé. Um deles foi Fernando Tomé, que marcou dois: ao i, recorda essa tarde no antigo Estádio José Alvalade que não mais se voltaria a repetir. “Aquela equipa nunca tinha jogado em relva, nunca tinha visto um estádio assim, com um ambiente daqueles. Notou-se que havia um grande deslumbramento naqueles jogadores em estar ali a jogar contra o Sporting, uma equipa com jogadores internacionais. Antes do jogo começar pediram-nos para tirar uma fotografia em conjunto, algo que nunca acontecia. Depois, com o decorrer da partida, o resultado foi-se avolumando e a coisa descambou, via-se que aqueles jogadores não tinham os predicados necessários para defrontar uma equipa como o Sporting. Até substituíram o guarda-redes ao intervalo [com o resultado em 13-0], mas depois viu-se claramente que o problema não estava na baliza”, lembra o antigo médio leonino.

Para o avolumar do marcador muito contribuiu também uma “disputa individual” entre dois jogadores dos leões. “O Peres e o Lourenço começaram a ver quem marcava mais golos. Nós éramos altamente profissionalizados, enquanto eles eram rapazes que vieram cá em passeio turístico. Mas não ficaram muito desanimados; estavam como que deslumbrados a ver-nos jogar”, salienta Fernando Tomé, deixando ainda uma ressalva: “Se tivéssemos ido jogar ao campo deles, a Cabo Verde, num campo pelado, se calhar o desfecho tinha sido um bocadinho diferente.”

A impotência do treinador Os tempos são outros, evidentemente, e o contexto em que aconteceu o Benfica-Nacional de domingo também. Ainda assim, Fernando Tomé considera que “ninguém pode cuspir para o ar” no que toca a goleadas históricas. “Todos os clubes do mundo, mesmo os maiores, já sofreram grandes goleadas. Num jogo destes, quando os golos se começam a suceder, uma equipa vai ficando cada vez mais motivada e a outra vai inibir-se e desanimar. Pelo Sporting, em Belfast, cheguei a levar 6-1 [frente ao Hibernian, em 1972/73, na primeira ronda da Taça das Taças]; no Leiria, perdemos um jogo por 7-1 [com o Espinho, em 1978/79]. É muito complicado, os jogadores querem reagir mas não conseguem, entra a descrença. Por muito que um treinador berre para o campo... Os jogadores ali já não ouvem nada. Isto pode acontecer a qualquer equipa”, realça o antigo internacional luso, que discorda totalmente de quem defende que o Benfica devia ter abrandado a partir de um determinado momento: “Isso, sim, seria desrespeitar o adversário. O senhor Fernando Vaz dizia: ‘Prefiro ganhar por quatro que por três, ou por cinco que por quatro.’ O golo é o sal e a pimenta do futebol, é para isso que as pessoas pagam bilhete. Ninguém tem de facilitar nada a ninguém, os jogadores de futebol não são coitadinhos, são profissionais e têm de jogar com naturalidade. Os olés nas bancadas, isso sim é enxovalhar o adversário. Agora em campo, nenhuma equipa tem de tirar o pé em função do resultado.”

Sim, há tareias bem piores Em Portugal, as maiores goleadas aconteceram principalmente na Taça de Portugal. Em novembro de 1982, o Belenenses arrasou o Vila Franca por 17-0, com um hat-trick de... José Mourinho (ou José Mário, como era conhecido nos tempos de jogador). O mesmo resultado aconteceu há dez anos, aí a contar para a extinta III divisão, com o Portosantense a bater o Rio Maior.

Cingindo a procura à primeira divisão, o resultado mais desnivelado é dividido entre o Sporting, que a 22 de fevereiro de 1942 trucidou o Leça por 14-0, e o Unidos de Lisboa, que na época seguinte bateu o Vitória de Guimarães pelo mesmo resultado. Os leões, de resto, são ainda hoje os donos da maior goleada das competições europeias: um portentoso 16-1 aos cipriotas do APOEL, em novembro de 1963, na época em que o Sporting venceu a Taça das Taças.

No que respeita a embates entre os três “grandes”, é o Benfica que detém o recorde: 12-2 ao FC Porto, na quinta jornada da época 1942/43. Os dragões têm um 10-1 ao Sporting, na ainda mais longínqua época 1935/36.

Nos registos da seleção nacional entra também um destes pisões. A 25 de maio de 1947, no Jamor, Portugal sucumbiu perante o poderio de Inglaterra, perdendo precisamente por 10-0.

A nível mundial, a maior goleada de sempre aconteceu em 2002 no campeonato de Madagáscar: o AS Adema bateu o SOE Antananarivo por... 149-0. Este resultado, todavia, aconteceu devido a uma revolta dos jogadores do SOE contra a arbitragem – nomeadamente um penálti contra que lhes fora assinalado na partida anterior. Por essa razão, os atletas passaram todo o encontro a marcar golos... na própria baliza. A FIFA acabaria por não reconhecer o resultado.

O segundo resultado mais volumoso da história data de 2016 e aconteceu na terceira divisão do Equador – aqui sem registo de qualquer protesto: o Pelileo SC goleou o Indii Native por 44-1. Em 1979, duas partidas na Jugoslávia terminaram com resultados igualmente incríveis (o Ilinden FC venceu o Mladost por 134-1, depois de o próprio Mladost ter batido o Sloven por 88-0), mas ambos acabariam por ser anulados após se comprovar que existiu corrupção entre os clubes e as equipas de arbitragem.

Na Europa, as maiores goleadas já registadas aconteceram curiosamente no mesmo dia mas já no século XIX, em dois jogos da Taça da Escócia na época 1885/86: o Arbroath venceu o Bon Accord por 36-0, com o Dundee Harp a marcar menos um frente ao Aberdeen Rovers.

Em competições de seleções, o placar mais desnivelado de sempre registou-se na qualificação para o Mundial 2002, quando a Austrália bateu a Samoa Americana por 31-0 – só o avançado Archie Thompson marcou 13 golos. Esta partida viria a inspirar o documentário “Next Goal Wins”, obrigatório para os amantes da modalidade. Em Mundiais, várias foram as goleadas de 9, 8 ou 7-0 (Portugal à Coreia do Norte em 2010, por exemplo), mas só por uma vez uma equipa chegou aos dois dígitos: aconteceu em 1982, em Espanha, com a Hungria a vencer El Salvador por 10-1. Mais recentemente, em 2013, Espanha bateu o Taiti por 10-0 na fase de grupos da Taça das Confederações, outra prova com o selo FIFA.

 

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