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André Barata. Um tempo sem travão

André Barata. Um tempo sem travão

João Oliveira Duarte 13/02/2019 16:07

Professor na Universidade da Beira Interior, André Barata dá-nos conta, com este livro, dos problemas que se colocam à volta de uma das questões maiores dos nossos dias: a aceleração do tempo. Evitando os protocolos da escrita académica, as múltiplas dimensões deste problema são devolvidas ao espaço público    

 

Quem comparar a produção teórica dos diversos departamentos portugueses de filosofia com os seus congéneres de outras latitudes - e não é preciso ir muito longe - verifica que, no meio de trabalhos mais ou menos meritórios de história da filosofia, teses de doutoramento sem trabalho de edição que se transformam rapidamente em livro e a mera junção de artigos díspares em coletâneas, há uma atenção ao atual que pura e simplesmente não existe. O atual, claro, não é equivalente à atualidade, às aflições de alma mensais, semanais ou mesmo diárias que tomam de assalto os meios de comunicação ou as famosas redes sociais; também não significa que não se deva interrogar e combater essa “injunção” que nos obriga a ter opinião sobre todo e qualquer assunto ou que não se pode ser profundamente intempestivo fazendo apelo a outros tempos e lugares - bem pelo contrário, há bastante de atual em certos gestos de recusa. Significa, no entanto, que há um certo conjunto de questões - do antropoceno à aceleração, da museificação das cidades contemporâneas ao pós-humano - que permitem interrogar o nosso tempo mas cujo eco, nos diversos departamentos de filosofia, é bastante escasso, senão mesmo inexistente.

Passando por uma série de assuntos que, de forma mais ou menos mediática, se encontram na ordem do dia - da eutanásia às noções equívocas de pós-verdade e pós-democracia, do rendimento básico incondicional ao impacto das redes sociais -, o recente livro de André Barata, professor de filosofia da Universidade da Beira Interior - “E se parássemos de sobreviver? Pequeno livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo” - vem contribuir para que um muito discutido tópico, a aceleração do tempo, não fique confinado a discussões e publicações académicas - retirando-lhe o jargão e os protocolos de escrita académica e devolvendo-o à cidade, onde deve ser discutido.

Tal como um recente livro editado entre nós, e hoje já um clássico - “24/7. O Capitalismo Tardio e os fins do sono”, de Jonathan Crary -, também este livro de André Barata encontra nos efeitos do capitalismo sobre a temporalidade um dos momentos em que aquele demonstra todo a sua capacidade de penetrar nos mais ínfimos pormenores da vida comum e privada. 

“São três as conformações impostas ao tempo. Uma conceção do tempo sócio-económico como uma continuidade férrea e sem falhas, materializada por uma juridificação das nossas relações com o passado e com o futuro. Uma aceleração da vivência do tempo para a qual somos compelidos. (...) Uma concepção do tempo de vida como mercadoria, que faz da atividade social e individualmente realizadora que o trabalho deveria ser para as pessoas uma redução delas à categoria abstracta de seres mais ou menos produtivos”.

 Se a aceleração do tempo não é um tópico novo, tendo-se tornado uma marca de água da modernidade - e poderíamos juntar, para estabelecer uma espécie de estado da arte sobre o assunto, os trabalhos de Harmut Rosa, sociólogo alemão, e um famoso manifesto aceleracionista, escrito por Alex Williams e Nick Srnicek, que pretendia combater o capitalismo com mais capitalismo -, parece relativamente consensual, no entanto, que esta aceleração vertiginosa encontrou, nos últimos anos, um novo patamar de penetração no tecido da vida. De facto, como defende André Barata - não se distinguindo nisso de Crary e outros teóricos -, a aceleração não significa que os relógios começaram a andar mais rapidamente, mas que a nossa relação ao tempo, que não é natural, mas técnica, social e politicamente construída, se transformou de tal forma nos últimos decénios que, atualmente, “medimos muito mais o que nos acontece, que tornámos tudo mais contável, mais objectivamente mensurável e, por isso, também mais comunicável”. Há, digamos assim, uma subsunção do tempo a uma lógica extrativa, em que cada segundo sente a pressão para se tornar produtivo e em que aqueles momentos singulares, irredutíveis a uma lógica produtiva - o pensamento, prodigioso na arte de perder tempo, surge como um dos exemplos maiores -, se tornam cada vez mais marginais. 

No entanto, esta aceleração facilmente constatável - uma pequena correção a André Barata: um estudo efetuado pela Deutsche Grammaphon defende que as interpretações de Bach estão, efetivamente, mais rápidas - não é politicamente neutra. Pelo contrário, é devedora de uma lógica em que tempo social, tempo da vida e trabalho se tornam quase indiscerníveis.

“o tempo livre dispõe-se a tornar-se tempo produtivo, como se a contrapartida fosse o tempo de trabalho ser tempo de lazer e como se a mobilização dos tempos todos da pessoa fosse a demonstração do seu empenho no cumprimento das metas antes acordadas, dos objetivos que o próprio há-de auto-avaliar, responsabilizando-se por qualquer fracasso.”

Não é difícil perceber, de facto, que o tempo de lazer, claramente separado do trabalho até determinada altura, tem vindo a desaparecer sem deixar rasto, substituído por um tempo, ainda biológico, em que o que se encontra em causa é a mera recuperação de energia laboral. Ou, por outro lado, é o próprio trabalho que se torna imanente ao tempo de lazer e os gestos mais banais - vestir, comer - estão desde logo mobilizados para uma lógica de produção de lucro, tornando a vida, nos seus mais ínfimos detalhes, um empreendimento comercial. 

Mas não é apenas nesta indistinção entre trabalho e vida que a «aceleração do tempo social» se deixa ler. Acarretando consequências relativamente aos marcadores temporais - passado, presente e futuro - que coordenam a vida, a aceleração transforma o passado ou em objecto de museu ou em conteúdo traumático - a discussão em torno do passado colonial português não tem escapado a este dilema -, cria representações do futuro desprovidas de qualquer desejo, de qualquer criação de possíveis, e cria, naquilo que o historiador francês François Hartog chamou de «presentismo», isto é, um modo de compreensão do tempo em que o presente impera, um “presente expandido” cujo contraponto é o imaginário contemporâneo da catástrofe - segundo a conhecida frase do teórico americano Frederic Jameson, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

“Não será um futuro de desejo, projeto e esperanças depositadas, em que aguardamos a nossa própria realização e nos tornamos de alguma maneira melhores, mais felizes, em suma, um futuro de fins, mas, diversamente, um de causas e efeitos, tomado como material manipulável ao serviço de uma construção (...). O imperativo deste futuro imediato, na certeza de uma cadeia causal produtiva, por ordem de um tempo que mostre resultados, é na verdade um futuro que não é futuro, mas presente expandido”.

Mas esta aceleração do tempo social, segundo André Barata, não se limita a esbater a distinção entre passado, presente e futuro num mesmo imaginário, ou a estabelecer um limiar de indistinção entre trabalho e vida. Na sua declinação nas redes sociais - como defende Jonathan Crary, atualmente não nos desligamos, no máximo entramos em “modo pausa” -, é a própria democracia que se encontra em causa. De facto, aquelas obedecem a uma “discussão de trincheiras, schmittiana, de amigo versus inimigo” e o espaço público, reconfigurado a partir delas como indistinto do espaço privado, perde o seu lugar como espaço de concretização do projeto democrático. 

“A discussão pública baseada em razões que servia, até então, de modelo de comunicação nas democracias maduras é substituída nas redes sociais por uma discussão de trincheiras, schmittiana, de amigo versus inimigo. Uma comunicação intimidatória, que mais se assemelha a condutas de bullying, impõe-se, sem filtro, à discussão estruturada argumentativamente a partir de uma base comunicacional de civilidade”.

Seria preciso interrogar demoradamente esta ideia de espaço público no que ela pressupõe relativamente à linguagem - que terá de ser transparente, cheia de boa vontade, segundo protocolos de escrita e de elocução que nada têm de natural -, mas também enquanto mecanismo de exclusão que, nas suas concretizações históricas, nunca deixou de o ser. Em todo o caso, esta república avançada dos espíritos parece ter demasiada pressa em recobrir com um manto de civilidade as dissensões tantas vezes violentas que se fazem ouvir.

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