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12 de fevereiro de 1951. As juras de amor do xá não eram para levar a sério

12 de fevereiro de 1951. As juras de amor do xá não eram para levar a sério

DR Afonso de Melo 12/02/2019 20:07

Ao segundo casamento do xá Reza Pahlevi seguir-se-ia um terceiro. Soraya Esfandiary foi trocada por Farah Diba. Como já fora moeda de troca por Fawzia Fuad do Egito. As mulheres não aqueciam o trono da Pérsia

Esplêndida! Esplêndida!

O esplendor de Soraya Esfandiary-Bakhtiari ofuscava os olhos dos milhares de convidados que tinham chegado a Teerão nos dias anteriores. Uma espécie de delegação das Mil e Uma Noites, com perdão de Sheherazade. A menos que Soraya fosse Sheherazade reencarnada, vinda das escarpas lendárias do rei Shariar, assassino da mulher que o enganava plebeiamente com um servo daqueles que, pelos vistos, se dedicavam a serviços especiais. Se não era, podia muito bem ser.

Não sabemos que histórias terá Soraya contado ao xá da Pérsia, Mohammed Reza. Ou se um simples piscar de olhos verdes, aveludados, de cílios enormes recurvos como ondas, o fascinaram ao ponto de se perder nos labirintos desse mistério ao qual alguns homens chamam amor.

Esquadrilhas de aviões percorriam os céus da capital do Irão. Um Rolls Royce dourado cruzava placidamente as avenidas largas da cidade, levando consigo o véu alvo e a respetiva consorte. E, com ela, Achraf Chams, irmã do xá.

Soraya tinha 19 anos. Pouco mais do que uma menina. Encantou o mundo. Pois, se era encantadora! Ou esplêndida!
Menina de família, está bem de ver. Filha mais velha do embaixador Khalil Esfandiary, um tipo aprumado e sisudo. Para Reza, um sogro bem diferente do primeiro, o sultão Fuad i do Egito e do Sudão, pai da infeliz Fawzia, despachada pelo xá de regresso às margens doNilo sob o pretexto de que o clima persa não lhe fazia bem à saúde. 

Os diamantes de Dior cintilaram ao sol frio da manhã dentro doRollsRoyce que conduziu Soraya ao seu “rendez-vous” com Reza, para o melhor e para o pior, até que a morte os separasse. “Os seus olhos ofuscam como se fossem cinzelados”, invejava-a Begun, a mulher de Aga Khan. Pobre imperatriz. Não foi a morte que os separou. Foi a ausência da vida. Ao riso sucederam-se as lágrimas. O cantor Françoise Mallet-Jorris fez uma música que se chamou: “Je veux pleurer comme Soraya”.

O choro de Soraya foi em vão. Sete anos depois, incapaz de engravidar, levou o mesmo caminho que a sua antecessora: o exílio. Desta vez, a Alemanha serviu de refúgio. E ela lamentou-se, quase em silêncio: “Sacrifico a minha felicidade pela felicidade de Mohammed e da Pérsia.” O xá queria um herdeiro e haveria de tê-lo.

Novos mundos Claro que na hora em que conheceu os olhos negros de Farah Diba, Reza tratou de esquecer os olhos verdes de Soraya. E não demorou muito a fazê-lo apesar de, pelo caminho, se ter embeiçado pela muito inconvenientemente católica Maria Gabriela de Saboia, filha do deposto rei Humberto ii. 

Doze de fevereiro de 1951: as cerimónias duraram até ao esgotamento físico dos comensais. Seria necessário um exército de empregados de limpeza para varrer as últimas pétalas das rosas que haviam entretanto murchado, como acontece com todas as rosas.

Soraya tinha cuidado com a sua figura elegante de imperatriz, tal como Reza fazia questão de caber sem vincos no seu uniforme espampanante de general. Mas nesse dia não tiveram queixais a medir. Nem fígados. O Palácio de Golestan, à porta do qual a nubente saltara graciosamente do seu Rolls Royce cor de ouro fino, transformara-se num cenário pantagruélico. Para lá da Sala dos Espelhos, na qual as convidadas davam toques clandestinos à cor das faces e dos lábios, foi posta uma mesa com 150 talheres no salão de festas. O rancho não era para brincadeiras. Em redor dos centros florais preparados com orquídeas vindas expressamente da Holanda brilhava a pele tostada dos faisões.

Espargos brancos e verdes da Bélgica; foie-gras de Estrasburgo; postas das melhores carnes alemãs; espécies de aves caçadas um pouco por toda a parte, capazes de satisfazer qualquer palato mais exigente. O champanhe corria a rodos. Por entre o tilintar dos copos podia ouvir-se o rugido dos leões que a seguir iriam servir de divertimento circense.

E, com certeza, o roncar de muitos estômagos. Água escorria pela boca das principescas figuras. A fome toca a todos...

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