25/8/19
 
 
Alexandra Duarte 11/02/2019
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

Crítico sapiens substitui o Homo sapiens

A nossa opção mais comum é a crítica gratuita, inúmeras vezes ouvida na boca de outros e facilmente reproduzida como uma verdade substancial, mas sem ser fruto do nosso pensamento

Mário Cordeiro deu uma entrevista que compila muitas das minhas preocupações enquanto mãe, mas também enquanto ser humano que sente uma inquietude interior permanente. As suas palavras exteriorizam emoções que o acompanharam durante a vida, deixando vislumbrar parte do que vai dentro de si e como chegou até às considerações que faz sobre o desenvolvimento das nossas crianças e da relação dos pais com os filhos. Está lá tudo e com a clareza que se impõe ao abordar temas tão complexos quanto a natureza humana ou o tempo.

Vivemos em modo automático, somos pais com respostas já formuladas, mesmo quando não sabemos responder, adotamos para nós e para as pessoas que nos são mais próximas comportamentos óbvios que nos são transmitidos por todos os outros que nos rodeiam, como se fôssemos contagiados por um vírus comportamental que determinasse como somos e as atitudes que devemos ter perante certas situações. Reagimos intuitivamente por imitação porque a toda a hora estamos com os olhos postos nos outros, e muito pouco em nós. E não se trata de altruísmo, mas de uma coscuvilhice doentia que nos priva de irmos ao encontro de quem somos na nossa essência e nos distrai de fazer o caminho da descoberta interior, que pode levar-nos ao desejo individual de aperfeiçoamento da nossa melhor versão.

O prestigiado pediatra chega a ser provocador para os pais quando adverte que estamos a educar as crianças para não pensarem. Ler esta afirmação incomoda, principalmente quando vivemos num tempo em que somos, ou pensamos ser, habilitados para consciencializar sobre tudo, uma vez que estamos na posse de informação ilimitada à distância de um clique. Já somos o produto final de uma história que começou há centenas de milhares de anos, de uma evolução natural no início, mais artificial no último século, de uma espécie designada como Homo sapiens, o homem sábio. Noah Harari, o historiador do momento, chega mesmo a vaticinar o fim desta espécie se nada se alterar no percurso que tem vindo a ser traçado. Mas, se somos o epílogo de uma construção humana que está potenciada e prestes a sofrer um upgrade, apontar o dedo e denunciar que aqueles que são o futuro poderão não estar capacitados para raciocinar por inabilidade dos educadores, responsáveis pela formação e desenvolvimento das gerações vindoiras, é responsabilizar-nos pela incúria imprudente de não impedirmos esta desgraça.

Se atentarmos verdadeiramente nos nossos reflexos do dia-a-dia, enquanto pais e até mesmo enquanto cidadãos, poderemos não ficar tão chocados com as palavras de alerta de Mário Cordeiro.

A nossa opção mais comum é a crítica gratuita, inúmeras vezes ouvida na boca de outros e facilmente reproduzida como uma verdade substancial, mas sem ser fruto do nosso pensamento. Trata-se da apropriação de valores, princípios e pensamentos que vamos somando, tal e qual uma manta de retalhos que, uma vez terminada, pode não ter um resultado que apreciemos ou sequer que reflita a nossa verdadeira natureza. E aqui entra a variável do tempo, aquele que não para sob circunstância alguma e que não volta para trás. Tomar consciência do que não fizemos e das decisões que tomámos só porque sim pode ter um efeito devastador sobre nós, se não for atempado. E sobre os que ainda se estão a formar, a desenvolver, a aprender connosco e a beber dos nossos exemplos.

Somos críticos profissionais, mas sem nos ser exigida a responsabilidade de sermos agentes da mudança. Se por acaso questionarmos um crítico douto sobre o que faria para alterar o que não funciona, ele responde que para isso estão lá outros, os mesmos nos quais não se revê nem reconhece legitimidade para o representar. Tornámo-nos individualistas e preguiçosos, descurando a nossa unicidade, só porque não queremos ser excluídos desta engrenagem que é oleada pela superficialidade e pelo imediato. Como podemos ensinar as nossas crianças a pensar se nós próprios nos demitimos de o fazer nos nossos dias, em nome da falta de tempo? O tal tempo que é nosso e o bem mais precioso que nos é concedido a partir do momento em que somos concebidos, o mesmo tempo que lutamos todos os segundos por prolongar, com visitas regulares ao médico, alimentações equilibradas, exercício físico, descanso… O tempo que nos mantém tão ocupados que nem damos por ele passar.

 

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