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Ativistas. Quem são as crianças que querem mudar o mundo?
Greta Thunberg

Ativistas. Quem são as crianças que querem mudar o mundo?

Carolina Brás 10/02/2019 14:35

Começaram a lutar pelos seus direitos ainda crianças, defendem o ambiente, o direito à educação. O i conta-lhe algumas dessas histórias e o psicólogo Daniel Sampaio explica porque essas crianças parecem perceber melhor os problemas que enfrentamos que os adultos

“As crianças percebem mais facilmente que os adultos que problemas como as alterações climáticas lhes vão cair em cima”, explicou o psicólogo Daniel Sampaio ao i. São crianças com vontade de mudar o mundo que, com as suas palavras, deixam em silêncio todos os que as ouvem. Essa maior sensibilização, segundo o psicólogo, acontece pelo facto de ser uma criança a defender em “esfera pública” esse assunto.

Foi o caso de Genesis Butler, a menina  norte-americana de 12 anos que lançou um desafio ao Papa: Quaresma vegan. “Peço-lhe que se junte a mim e se abstenha de todos os produtos de origem animal durante a Quaresma e que apoie a campanha Million Dollar Vegan“, escreveu na carta, depois de agradecer a Francisco por alertar as pessoas para o problema do clima e da poluição. 

Católica desde sempre e vegan desde os seis anos, Genesis quis pôr o Papa, e todos os que iriam ler a sua carta, a pensar. “Imaginemos quantos povos famintos poderíamos alimentar caso nos afastássemos da produção de alimentos ineficientes”, disse. Na carta explica também a relação entre as alterações climáticas e a extinção da vida selvagem.

Caso Francisco aceite o desafio, será doado um milhão de dólares (875 mil euros) a uma qualquer instituição católica à sua escolha. Quanto à resposta do Papa, nada se sabe, mas em declarações ao Público Genesis mostrou-se confiante: “O Papa tem o poder de influenciar as pessoas em todo o mundo com a sua decisão, e eu acredito que fará a escolha certa”. 

Skolstrejk för klimatet “Greve escolar pelo clima” era o que se podia ler no cartaz que Greta Thunberg mostrava todas as sextas-feiras em que faltava às aulas frente ao parlamento sueco. A menina de 15 anos queria obrigar os políticos a pensar e travar as alterações climáticas, mas foi mais longe. Em novembro de 2018, foi uma das oradoras na TEDx em Estocolmo. Passado um mês marcou presença na Conferência da ONU sobre alterações climáticas, a COP24, na Polónia e deixou todos sem palavras. Direta e simples, a rapariga arrasou no discurso. “Amam os vossos filhos acima de tudo, mas estão a destruir-lhes o futuro”, disse Gretha que acusou os políticos de apenas se preocuparem com a economia e terem medo de perder popularidade. “Quero que sintam o mesmo medo que eu sinto todos os dias”, disse. 

Filha de um ator e de uma cantora de ópera, descobriu aos 11 anos que tinha síndrome de Asperger, uma doença do espetro do autismo que afeta a comunicação e as relações interpessoais, mas nem isso a faz perder a força para lutar. “Eu só falo quando é mesmo necessário e este é um desses momento”, explicou na palestra da TedEx.

“Trata-se da nossa casa que está a arder”. Foi com estas e muitas outras frases marcantes que Gretha voltou a mostrar a sua preocupação pelo clima, dessa vez no Fórum Económico Mundial, em Davos. “Há quem diga que devia estar na escola, mas porque é que me hei de preparar para um futuro que pode não existir?”, perguntou, culpando os políticos por não fazerem nada face à crise ambiental. Foi aplaudida por diversas pessoas como Will Smith ou Bono Vox. 

A luta de Gretha já se espalhou por todo o mundo e há já diversas crianças em vários países que fazem greve à escola em prol do ambiente, a denominada Geração Z.

Sobre a preocupação por parte das crianças com alguma causas que influenciam o corpo e o ambiente, Daniel Sampaio explicou que “é normal”. “Através do Estudo do Meio [disciplina] as crianças começam a ter consciência. São temas que lhes dizem muito”, explica. 

Cinco minutos a favor do planeta Há 27 anos, Severn Cullis-Suzuki emocionou todos os que se encontravam na reunião da ONU no Rio de Janeiro, onde o tema principal era o meio ambiente e o desenvolvimento. 

“Perder o meu futuro não é o mesmo que perder uma eleição ou pontos no mercado bolsista”, começou por dizer a menina de 12 anos que falava em nome da ECO, uma organização não governamental para crianças a favor do ambiente. O convite tinha sido feito pelas Nações Unidas, porque o grupo da ONG a que pertencia estava na altura no Brasil. Foi Severn a escolhida para falar frente aos chefes de Estado do mundo durante cinco minutos. O buraco na camada do ozono e a mudança de clima no Canadá foram os temas principais.

“Tenho medo de respirar porque não sei que produtos químicos estão a contaminar o ar”, afirmou, alertando a assistência para o facto de ninguém ter soluções para o que está a acontecer ao planeta. No entanto, deixou uma mensagem ainda mais forte: “Se não sabem como o arranjar [ambiente], então parem de o estragar”. 

A menina canadiana cresceu e formou-se Ecologia e Biologia e esteve no encontro Rio+20, em 2012, que marcou os 20 anos de uma  palestra que conta com mais de 600 mil visualizações num dos principais vídeos do discurso disponíveis no YouTube. 

Ao G1, Severn Cullis-Suzuki, hoje com 39 anos, afirmou que ainda recebe cartas sobre a palestra, no entanto, deixa a pergunta, tantos anos depois “o que mudou? Ainda procuro provas de que as minhas palavras fizeram diferença”.

Prémio Nobel da Paz Cullis-Suzuki é filha de uma escritora, Tara Elizabeth Cullis, e de um geneticista e ativista ambiental, e isso teve importância nas suas preocupações por causa do ambiente familiar. Como refere Daniel Sampaio, “o contexto familiar e social é importante” para estas crianças que lutam precocemente para mudar o curso do mundo.

Malala Yousafzai começou a defender o direito das mulheres à educação num blog para a BBC quando tinha 11 ou 12 anos. Uma luta que lhe valeu transformar-se em alvo das forças mais conservadoras do seu país, o Paquistão. Em 2012, Malala regressava a casa depois de mais um dia de escola quando o autocarro em que seguia foi atacado por um grupo de talibãs.

Baleada na cabeça, Malala escapou à morte porque a família real dos Emirados Árabes Unidos enviou um avião ambulância para a transportar para o Reino Unido. Passou três meses entre operações delicadas para extrair a bala e reconstituir o seu rosto. Quando saiu do hospital, em vez de se esconder com o medo, aproveitou a maior popularidade para intensificar a luta pela educação feminina. Cinco anos depois entrava na na faculdade. 

“Eles pensaram que a bala nos iria silenciar, mas falharam”, disse a paquistanesa no dia em que fez 16 anos e discursou na Assembleia de Jovens da ONU em 2013. Ano em que foi também capa da revista Time, prenúncio do que sucederia em 2014, quando se tornou na mais jovem a receber o Nobel, ao ser escolhida para o prémio Nobel da Paz, pela sua luta pelo direito de todas as crianças e mulheres à educação. Um prémio que foi dividido com o também ativista indiano Kailash Satyarthi. 

Malala recebeu também o prémio Sakharov do Parlamento Europeu, inaugurou a maior biblioteca pública da Europa em Inglaterra, teve encontros com o casal Obama na Casa Branca e com a rainha da Inglaterra, no palácio de Buckingham.
 

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