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Vidas Privadas. A reincidência do amor

Vidas Privadas. A reincidência do amor

Mariana Madrinha 08/02/2019 19:27

Suzana Borges traduziu e encenou, Coward escreveu há quase cem anos esta comédia de costumes sobre a “impossibilidade, ou não, do amor”

As peripécias dos protagonistas contam-se num ápice: uma mulher e um homem casam-se, depois divorciam-se. Cada um refaz a sua vida ao lado de novos parceiros, e cinco anos depois do divórcio, encontram-se por acaso no mesmo hotel, na segunda lua de mel, cada um com o seu novo companheiro. Qual Lázaro, o encanto ressuscita, e com uma força tal que fogem juntos, deixando os atuais parceiros, que por sua vez os perseguem. Para bom entendedor este périplo basta para perceber que estamos perante uma comédia, ou uma “alta comédia”, define a encenadora Suzana Borges. “Private Lives, Vidas Privadas” foi escrita na década de trinta do século passado e, quase cem anos depois, continua a ser uma sátira certeira das relações.

Foi este o texto de Noël Coward que Suzana Borges levou até ao auditório do Casino Estoril, onde a peça estreou ontem à noite. Para lá de encenadora, Suzana Borges é uma das atrizes, ao lado de Maria Dias, Guilherme Barroso e Martinho Silva. Os quatro dão vida aos dois pares de casais cuja sórdida reunião se dará num hotel em Deauville, França, de onde o casal reincidente acabará por fugir para Paris. “É um texto que, para lá de continuar atual, é sobre a impossibilidade, ou não, do amor”, resume a encenadora.

Não passou um século desde que o texto de Coward caiu nas mãos de Suzana Borges, mas passaram sete anos, o tempo que a encenadora e atriz demorou a arranjar forma de pôr em palco este projeto. “Tem acontecido um fenómeno agora em Portugal muitíssimo desagradável: não temos resposta. Tornou-se num hábito muito mal-educado, para dizer o mínimo. Propomos trabalhos [às instituições] e não temos qualquer tipo de reação, nem positiva nem negativa”, conta Suzana Borges.

Depois de algumas dessas tentativas, veio no ano passado, o final do silêncio: a Fundação D. Luís I apoiou o projeto, juntamente como Estoril Sol, e assim chegamos ao pós-dia de estreia.

Traduzir para aproximar O envolvimento da encenadora com “Vidas Privadas” não se mede só na luta para levar a palco este trabalho, mas também na própria forma com foi tornando seu o projeto.

Não é a primeira vez que Suzana Borges chama para si própria o labor da tradução das peças – já o fez, por exemplo, “Gioconda e Si-Ya-U”, uma versão teatral do poema de Nâzim Hikmet –, e repetiu-o agora em “Vidas Privadas”, até porque precisou de tempo para encontrar o “tom peculiar” de Coward . “Tento fazer sempre as traduções porque acho que se parte sempre mais à frente para os trabalhos. Neste caso, o texto era difícil, a linguagem muito ritmada, musical, cheia de advérbios de modo”, enumera. Depois, foi preciso ter em conta os sentidos – Coward usa por “vezes três verbos” para a mesma ação –, “jogar com a ligeireza” que perpassa este texto em específico e respeitar a “métrica e a musicalidade”. “Como o texto é tão peculiar, é um desafio chegar ao tom certo”.

Feito isto, só o momento em que o texto ressoa da boca dos atores que interpretarão as diferentes personagens é que dará o selo final de qualidade. “Neste caso os ajustes foram mínimos”, afirma.

“Vidas Privadas” conta com cenografia e figurinos de Ana Paula Rocha, desenho de luz de Paulo Santos, assistência de Carolina Furtado e produção executiva de Patrícia Carreira, e a equipa que não era estranha entre si. “Há no teatro a mesma coisa que às vezes acontece no cinema, as pessoas reencontram-se em equipa”, diz a encenadora.

A equipa permanece unida até 3 de março, última data para assistir à peça. Até lá, “Vidas Privadas” está em cena de quinta a domingo, em dois horários: 17h00 e 21h30.

Noël Coward (1899-1973) achava que o teatro devia ser entretenimento quase sem exceção, e esta peça faz jus a essa sua visão, sendo efetivamente entretenimento do início ao fim, diz-nos Suzana Borges já em fim de conversa. Ou não fosse o amor, para lá de um lugar estranho, um lugar onde o potencial da comédia tem espaço para se rebolar à vontade.

 

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