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“As crianças estão a ser habituadas a não pensar”

“As crianças estão a ser habituadas a não pensar”

Mafalda Gomes Marta F. Reis 08/02/2019 11:46

Para Mário Cordeiro, o tempo que ganhámos com a evolução tecnológica é subaproveitado e faz falta uma dimensão mais introspetiva da vida. Os jovens hoje não são desafiados pelas suas figuras de referência: pais e mestres.

O pediatra Mário Cordeiro fazia anos de casado, estava a pensar num restaurante simpático para ir jantar com a mulher. De repente sentiu como que um elefante a esmagar-lhe o peito, tudo o que um professor da faculdade lhe tinha explicado um dia sobre os sintomas de enfarte. “Espero que nunca passem por isso”, ouviu nos bancos do curso de Medicina. Aconteceu-lhe no final de 2017. Acredita que a vida se desperdiça nas correrias em que cada vez mais se vai vivendo, ao ponto de se perguntar à pressa aos outros “está tudo bem?”, porque perguntar “como te sentes?” implica ter e querer ter tempo para ouvir. Já tinha bem adiantado o projeto do livro sobre pais apressados mas passou a fazer-lhe ainda mais sentido.

Para Mário Cordeiro, o tempo que ganhámos com a evolução tecnológica é subaproveitado e faz falta uma dimensão mais introspetiva da vida. Os jovens hoje não são desafiados pelas suas figuras de referência: pais e mestres.

O pediatra considera que as crianças estão a ser habituadas a não pensar e que esse hábito se reflete nas salas de aula.

Falta perceber mais do nosso lado animal para gerir um pouco melhor o dia a dia?

Penso que sim. Devíamos dividir a vida numa parte empreendedora e noutra calma, estar cientes de que necessitamos de cultivar o nosso lado mais frágil e vulnerável. A tecnologia surge com estes dois grandes objetivos: o empreendimento e esse lado mais introspetivo. Muitos animais, as formigas ou os lobos, têm sociedades altamente organizadas, com hierarquias, com regras. Isto nunca mudou. O ser humano tem uma capacidade de leitura do momento e de mudar. A tecnologia começou com a oponência do polegar, a manipulação de objetos. Como somos fracos e ao mesmo tempo preguiçosos, permite-nos ganhar tempo. Mas esse tempo devia ser usado para desenvolver a outra dimensão. Começou a ser desenvolvida no Neolítico: quando aparece o armazenamento de cereais, as pessoas passaram a ter mais tempo e começaram a desenvolver-se a arte, ideias, filosofia.

Com mais tecnologia, teoricamente mais tempo, devíamos ter mais arte e filosofia?

Muito mais. E é espantoso que há mais de meio século não se produza uma ideia filosófica. O homem do Paleolítico, ao contrário do que pensamos, não andava todo o santo dia a caçar e lutar. Claro que mal escurecia acabava o dia, mas entretinha-se já com alguma parte artística e alguma parte de diálogo, que não era maior porque ainda era muito rudimentar a linguagem. A linguagem evoluiu extraordinariamente. Ninguém está à espera que exista uma evolução perfeita, mas haverá aqui um subaproveitamento.

Começa em criança?

As crianças estão a ser habituadas a não pensar. A Universidade do Porto fez há pouco tempo um estudo, creio que no secundário, em que chegou à conclusão de que a média de perguntas por aula era duas. Fazendo uma pool de todas as perguntas, em 60% dos casos a pergunta era “setor, posso ir à casa de banho?”.

Leia a entrevista na íntegra na edição de fim de semana do i, já nas bancas

 

O novo livro de Mário Cordeiro “Pais Apressados, Filhos Stressados” chega às livrarias na próxima semana, com dicas para ajudar os pais a acalmar o ritmo em que vivem e reduzirem o clima de crispação na família. Uma aceleração que tem estado a aprisionar cada vez mais crianças e adultos. Aos 63 anos, o pediatra não se cansa de insistir: o tempo não estica, é melhor mudar de estratégia

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