18/2/19
 
 
Pedro Ferros 07/02/2019
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre a resiliência dos vampiros

Há em Portugal um fenómeno que subalterniza os interesses de todos às vantagens de um grupo de eleitos que se comporta em defesa dos seus afastando os demais das oportunidades que deviam ser de todos

“Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada”.

                                           (José Afonso, “Os Vampiros”)

Foi preciso que muita coisa mudasse para que tudo, enfim, ficasse na mesma: é esta a triste história das quatro décadas passadas da revolução do Zeca Afonso.

Na semana passada, sem ter previsto a abundância de matéria que uma simples semana nos traria, tive oportunidade de referir, neste espaço (além da questão da cor da pele que dificilmente se pode dar por explicada na referência à acrimónia gerada pela referência de Cristas ao carácter do PM, quando da entrevista de terça-feira à SIC), que há em Portugal um fenómeno que subalterniza os interesses de todos às vantagens de um grupo de eleitos que se comporta em defesa dos seus afastando os demais (a quem esbulha fiscalmente) das oportunidades que deviam ser de todos.

Fi-lo na esteira, entre o mais, de dois casos de ajustes directos que deram, inclusivamente, lugar a apoios improváveis de um ministro a uma candidata à presidência de uma juventude partidária em fim de prazo – e de invejáveis rendimentos anuais – ou de um familiar do secretário-geral de um partido que foi agraciado com inúmeros ajustes directos (vários, afinal, sem concursos nem consultas), o que deu azo a um, aparentemente extemporâneo, rasgar das vestes da oligarquia marxista-leninista relativamente à sua seriedade e à ortodoxia do partido e da sua práxis que os factos, pese embora, rapidamente desmentiram.

Falou-se também de um assessor de um partido da extrema-esquerda que não gosta de “bófias”, mas parece gostar de poder solicitar segurança policial...

En passant fez-se também uma referência às negociatas à volta da CGD, tudo numa referência de que os muitos pagam cada vez mais para as negociatas e vidas dos poucos satélites dos partidos que saqueiam o Orçamento e a coisa pública e passam a factura dos seus desmandos e dislates ao já esmagado contribuinte, normalmente da classe média.

Nunca como nestas poucas últimas semanas ficou tão evidente e claro o estado pútrido da partidocracia que sequestrou a democracia portuguesa, perante o generalizado silêncio cúmplice e comprometido dos partidos todos!

O mapa do assalto ao poder no BCP, ou da contra-OPA à PT, feito com o dinheiro da CGD e à custa do aforro dos pequenos accionistas do primeiro, e os subsequentes milhões de euros perdidos sem garantias nesta operação são pouco menos que um caso de polícia e dois dos muitos tumores malignos que minam de morte a democracia!

As revelações feitas, entretanto, à volta dos concursos para fornecimentos de serviços nas câmaras municipais do PCP – depois dos inflamados comunicados subsequentes às adjudicações de Loures – dão-nos a imagem de queda de mais um anjo, que vinha da alegada e propalada imagem do estado de ética absoluta das autarquias do PCP que, afinal, são iguaizinhas às outras só que, se calhar, piores, pelo menos perante esta amostra junta.

A este propósito, aliás, não é de menos referir que, perante aquilo que era evidente há tanto tempo e que os sucessivos votos do PS (e seus geringonços) quiseram ocultar inviabilizando as comissões parlamentares (mesmo perante a sua discutível utilidade), não deixa de ser um exercício de temerária bazófia dizer-se na entrevista à SIC que, pese embora tudo o que tentou esconder, este governo PS teria sido o único a pedir uma auditoria à gestão e a ter um relatório (pelo menos preliminar). O que, sendo verdade, só é invocado porque aconteceu o grande azar de não ter conseguido enterrá-lo, como é costume com o que não interessa (ou já alguém viu publicar o último capítulo do relatório dos incêndios ou os famosos SMS para o António Domingues?).

A putrefação generalizada do sistema político exposta pela grande corrupção e compadrio da CGD (mas podia ser BPN, SLN ou BPP) e da (relativamente pequena) teia das adjudicações directas às clientelas partidárias é a versão actual do mesmo saque generalizado que foi feito aos dinheiros da Europa dos fundos de coesão, que foram malbaratados e roubados pelas mesmas clientelas e que, ao longo do tempo, com tentativas cada vez menos subtis de criar clientelas e gerar novas fontes para alimentá-las, volta agora com as descentralizações e estruturas quejandas, para substituir a chumbada regionalização.

Já não podendo recorrer-se indefinidamente da dívida até ao limite do esbulho total dos rendimentos alheios, os partidos perpetrarão a sua sede de apropriação e de crescimento da coisa pública para alimentar as clientelas e sufocarão a sociedade civil, porque é essa a matriz da sua função principal, que já há muito deixou de ser o bem comum. Como os factos deixam entrever, caminhamos para um Estado máximo, capturado pelas lógicas partidárias e alinhado para a responsabilização mínima dos seus agentes, que permite que todos os muitos responsáveis olhem para o fenómeno sem qualquer admissão de culpa e mantenham a mesma apetência para aceder cada vez mais, por si e para os seus, ao parco pote das moedas.

Como prova de que a captura é total releva o facto de tanto PS como PSD terem chumbado liminarmente a ideia de uma reforma (qualquer que seja) do sistema eleitoral e parecerem, ao invés, absolutamente alinhados nessas ideias para fazer engordar a estrutura do Estado.

Seria, pois, como referi acima, difícil encontrar, num intervalo tão curto, uma viagem tão clara e panorâmica sobre o pântano em que nos tornámos e onde nos querem manter, e de onde teimamos conscientemente em não sair votando em mais do mesmo e nas mesmas receitas, esperando, milagrosamente, resultados diferentes, ou, pior ainda, nem sequer indo votar e entregando aos outros as nossas decisões. São eles a comer tudo outra vez…

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt

Escreve à quinta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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