18/8/19
 
 
Carlos Zorrinho 06/02/2019
Carlos Zorrinho
opiniao

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Fake news – as raposas no galinheiro

As próximas eleições para o Parlamento Europeu estão a constituir-se num estudo de caso. Os manipuladores, desejosos de espoletar uma implosão populista do projeto europeu, usarão todos os seus recursos de desinformação, enquanto a Comissão Europeia pôs em marcha uma estratégia transversal que inclui o lançamento de um sistema de alertas rápidos para detetar notícias falsas

Escreveu o poeta popular algarvio António Aleixo que “a mentira para ser segura/ e atingir profundidade/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade”. Esta quadra singela expõe a grande complexidade dos desafios com que nos confrontamos quando tratamos da epidemia de notícias falsas (fake news) na internet. Mentiras puras ou verdades absolutas são uma minoria do que circula nas redes virtuais. Os verificadores de factos, humanos ou automatizados, terão de se confrontar com questões difíceis sobre destrinça entre verdade e mentira a que só um código ético muito sólido poderá ajudar a responder.

Depois da manipulação massiva da vontade democrática praticada através das redes sociais em eleições recentes, como aquelas que determinaram a vitória da administração Trump nos EUA, de Bolsonaro no Brasil ou a saída do Reino Unido da União Europeia, os alarmes acenderam-se nas instituições, nos centros de conhecimento, na opinião pública mais informada e até nas próprias empresas-veículo, temerosas de que o seu uso como fábricas de vontade quebre a reputação e a confiança dos utilizadores para continuarem a utilizá-las e abastecê-las de dados frescos e abundantes.

As próximas eleições para o Parlamento Europeu, que decorrem de 23 a 26 de maio (26 de maio em Portugal), estão a constituir-se num estudo de caso em que todos os dados vão ser lançados. Os manipuladores, desejosos de espoletar uma implosão populista do projeto europeu, usarão todos os seus recursos de desinformação, enquanto a Comissão Europeia pôs em marcha uma estratégia transversal que inclui o lançamento de um sistema de alertas rápidos para detetar notícias falsas. Enquanto isto, o Facebook anunciou o lançamento de um conjunto de ferramentas para tentar evitar que a rede social volte a ser usada para interferências eleitorais externas durante a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu.

A estratégia europeia inclui, além do sistema de alerta, a criação de uma plataforma digital segura que servirá de base a uma rede de verificadores de factos que terão de atuar tendo por referência um código de conduta robusto.

Não será fácil desenhar esse código. Por exemplo, qual a percentagem de dúvida que uma notícia pode conter para ser considerada verdadeira ou falsa? Falamos de dúvida decorrente da inclusão intencional de elementos falsos numa notícia maioritariamente verdadeira e de elementos verdadeiros numa notícia estruturalmente falsa, mas não podemos também esquecer-nos da dúvida que decorre sempre da subjetividade das apreciações e leituras.

Dito isto, o que podemos fazer de efetivo para combater as notícias falsas e a manipulação populista? São positivos os esforços feitos para tentar minimizar as interferências nas escolhas dos eleitores por via da manipulação de informação nas redes sociais. É também positivo que as grandes empresas sejam envolvidas na regulação do sistema com todos os cuidados que devemos ter quando convidamos raposas, ainda que bem-intencionadas, para colaborar no galinheiro. No entanto, a chave mestra para lidarmos com sucesso com as notícias falsas está em cada um de nós. Não podemos colaborar com a difusão de notícias duvidosas e temos de esforçar-nos para promover uma pedagogia de verdade na sociedade digital. Quem não quiser ser galinha que não cacareje sempre que os galos cantam.

 

Eurodeputado

 

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