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Carlos Carreiras 06/02/2019
Carlos Carreiras

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A religião e a cidade terrestre

A liberdade religiosa é uma das âncoras da democracia e dos direitos humanos. Anda de mãos dadas com a diversidade e com a prosperidade. Sustentam-se num ciclo de reciprocidade mútua

Portugal é estruturalmente um país tolerante, capaz de estabelecer pontes e abrir canais de diálogo mesmo onde eles parecem uma impossibilidade. Essa forma de ser e de estar, essa predisposição histórica de abertura é um tremendo ativo do país. Faz parte do poder suave da nação. É um apelo constante ao mundo que tem tradução económica (com o crescimento avassalador do turismo), social (com a crescente captação e fixação de empresários, empreendedores e artistas de todos os cantos do planeta) e cultural (com infusões globais nas dinâmicas sociais e projeção da identidade portuguesa).

Como povo, somos excecionais na gestão da diversidade. Repare-se que é na ação externa portuguesa que encontramos, muito provavelmente, o mais bem-sucedido e competente domínio de atuação do Estado, independentemente da cor dos governos.

Este espírito geral da nação é profundamente moldado pelas suas cidades – em especial por aquelas que têm uma tradição atlântica e mercantil. Quando a globalização colocou a gestão da diversidade como um dos principais desafios das cidades, isso nem sequer foi um problema para o municipalismo nacional. Sempre o fizemos. O que para os outros foi uma habituação, para nós era uma maneira natural de agir e fazer política.

Com o ressurgimento do radicalismo e dos discursos extremados em várias latitudes, a gestão da diversidade volta a ganhar nova preponderância em muitas urbes. Portugal tem, neste contexto, uma hipótese para fazer da sua atmosfera tolerante e pacífica, da sua abertura genuína e da sua aversão a radicalismos, uma variável distintiva na intensa competição pelo capital humano. O país precisa de escala – científica, educacional e empresarial – e o aumento da base demográfica qualificada é uma oportunidade histórica para o conseguir.

Mais uma vez, a estratégia das cidades será instrumental para atingir esse objetivo.

Há muito tempo que alguns autarcas perceberam que as cidades têm ganhos tremendos assentes na promoção e atração da diversidade. E, por isso, trataram de definir as políticas públicas com as lentes do pluralismo.

Um trabalho que não escapa às organizações internacionais. Quando olhamos para a lista de cidades interculturais distinguidas pelo Conselho da Europa, estão lá mais de 12 concelhos nacionais – incluindo Cascais.

A liberdade religiosa é uma das âncoras da democracia e dos direitos humanos. Anda de mãos dadas com a diversidade e com a prosperidade. Sustentam-se num ciclo de reciprocidade mútua.

Quando o ar do tempo parece glorificar a intolerância tribal, em Cascais seguimos o caminho oposto. Acreditamos que o nosso território será tão mais próspero, vibrante e capaz de ultrapassar os desafios do mundo globalizado quanto maiores forem as redes sociais cerzidas na diferença de pontos de vista.

Alguns dos projetos que temos em andamento visam, precisamente, reforçar o posicionamento de Cascais como uma cosmopolita casa de família para os cidadãos do mundo que, na diversidade cultural e também da vivência da fé, prezem a democracia, defendam a liberdade e promovam os direitos humanos.

Recebemos, há um par de meses, as Scholas Occurrentes, um extraordinário projeto cristão que pretende ser um ponto de encontro para crianças e jovens de todo o mundo, de diferentes culturas e religiões. Mas queremos ir mais longe e tentaremos, junto da Fundação do Papa Francisco, sediar de forma permanente as “Escolas” em Cascais e em Portugal. As Jornadas Mundiais da Juventude na vizinha Lisboa só tenderão a reforçar a centralidade de Portugal na comunidade católica.

Em simultâneo, é no nosso país e neste concelho atlântico que está a nascer um dos mais importantes centros culturais judaicos na Europa. Dedicado à educação, abrindo à comunidade com um jardim sensorial e uma valiosíssima biblioteca que reúne um espólio único e desconhecido do grande público, no qual se relata boa parte da nossa história na Idade Média, o centro da Costa da Guia está já transformado num farol para muitos europeus que, depois da aprovação da lei que concede a nacionalidade aos descendentes de judeus sefarditas, olham cada vez mais para Portugal como parte do seu plano de felicidade. Reciprocamente, Portugal olha para este movimento como uma reafirmação da nossa identidade judaico-cristã.

Com a Igreja Ortodoxa, com quem mantemos relações excelentes, também estamos a trabalhar em projetos comuns.

A mensagem de Cascais bem podia ser a do Papa Francisco na histórica visita à península Arábica, berço do islão: “Não há alternativa: ou construímos o futuro juntos ou não há futuro.” Nestas margens do Atlântico, já escolhemos o lado em que estamos. É o da fraternidade e do ecumenismo. O lado do futuro.

Costumo dizer que as leis dos homens e a lei de Deus não se misturam. Mas também não acredito em cidades e nações sem fé. E se, de facto, há duas cidades – a terrestre e a celeste –, aos homens é exigido que, na sua variedade de crenças e valores, façam da primeira o melhor lugar para um dia almejarem viver na segunda.

 

Escreve à quarta-feira

com vista para o atlântico

 

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