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Eduardo Oliveira e Silva 06/02/2019
Eduardo Oliveira e Silva

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A realidade e o espetáculo

Na política, só pensar em sondagens é o mesmo que fazer defesas para a fotografia. É meio caminho andado para perder as eleições ou os jogos. Trabalhar para dar espetáculo não é nada. Cria o défice de verdade, um campo em que não há cativações para iludir

1. As sondagens políticas tendem a ser hipervalorizadas nos dias de hoje. E são--no mais especialmente em tudo o que é mediatizado e comentado, designadamente no incomensurável universo das redes sociais. Normalmente, nessas redes, as discussões fazem-se com base nos grandes números e por impulsos, não se esmiuçando os seus resultados parcelares. Há, portanto, erros crassos de interpretação da parte de muitos que os comentam. É verdade que é melhor ter boas sondagens do que más. Mas não é aceitável que o exercício da política seja feito em função de estudos de opinião, ainda por cima sabendo-se que muitos deles carecem de credibilidade. Não se ignora que há estudos ligados a grupos e interesses, pelo que a sua suposta isenção é uma ficção, além de não serem aferidos. As sondagens servem às vezes de alavancas para tentar melhorar posições de forma artificial. No entanto, acontecem regularmente fenómenos contrários quando a população se satura de certas coisas menos óbvias, mas mais profundas, gerando surpresas nos seus comportamentos de cidadania ou no voto. Regra geral, esses supostos desvios relativamente ao expectável até estão acessíveis a quem interprete os estudos disponíveis e os comportamentos das pessoas comuns. O exemplo típico tem a ver com a avaliação da seriedade de um político. Não é raro verificar que a imagem de um líder em termos de honestidade é superior à do seu próprio partido, o que é um primeiro passo para as citadas surpresas. Daí que, hoje em dia, uma imagem de rigor e seriedade seja um ativo absolutamente fundamental, como sucede, por exemplo, com o líder social-democrata, Rui Rio.

Veja-se, entretanto, o que está a suceder ao PCP. O rombo e os ataques que está a levar advêm de temas que remetem os seus dirigentes para questões de suposto enriquecimento pessoal e menor seriedade, o que praticamente nunca tinha acontecido. Ora, isso mina os alicerces do partido e a sua credibilidade, mesmo que essas práticas possam ter mais a ver com formas de financiamento da organização, o que também é gravíssimo embora seja diferente. O escrutínio severo do PCP resulta ainda de dois fatores: por um lado, o desenvolvimento de um jornalismo mais agressivo em algumas televisões e, por outro, a circunstância de o PCP estar no poder, através da geringonça. E aí dá-se aquela situação da política em que os inimigos são os que estão sentados ao lado, enquanto os que estão de frente são apenas adversários.

2. Governar de anúncio é o que se tem praticado nos últimos meses e cada vez mais se acentua com os partidos da coligação que suporta um governo inoperante. Veja-se as obras públicas virtuais proclamadas em catadupa pelo ministro Pedro Marques, que mais parece um daqueles guarda-redes frangueiros que só se exibem para a fotografia. O que está a acontecer é o desenrolar de um escandaloso e indecoroso guião de marketing a partir do qual o governo tenta alargar a sua base de apoio à conta de promessas demagógicas e impraticáveis. É o leilão das ilusões. Mas, na política, é preciso ter a coragem de ser coerente, realista e não prometer tudo a todos. Mais a mais, o escrutínio permanente a que os governantes estão hoje sujeitos faz com que a venda de gato por lebre acabe por dar mau resultado. Veja--se o caso de Macron em França, para não ir mais longe. Cá, os desencantos podem levar mais tempo a chegar, mas também acontecem.

Há, por isso, atitudes de frontalidade, de clareza, de realismo e de recusa das promessas fáceis e permanentes que devem ser mantidas sem desvios. Quem é coerente e realista acaba normalmente por ver reconhecida a sua seriedade. Nos tempos que se avizinham, ser rigoroso é a melhor estratégia para amanhã governar sem desiludir, sem frustrar os eleitores e sem gerar rejeições sociais, como está a suceder a António Costa de forma quase assustadora. A situação interna do país agrava-se. A conjuntura internacional degrada-se. Os problemas sociais multiplicam-se por todo o lado e em Portugal também. O exercício da cidadania pressupõe que cada um vá fazendo balanços do prometido e do acontecido. Quem o fizer irá verificar que, nesse campo, o governo de António Costa tem um défice enorme de verdade. E esse não se disfarça com cativações.

 

Escreve à quarta-feira
 

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