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Benfica-Sporting. O combate em quatro assaltos começou com um rififi

Benfica-Sporting. O combate em quatro assaltos começou com um rififi

DR Afonso de Melo 05/02/2019 23:14

Maio de 1954: quatro dérbis consecutivos no espaço de pouco mais de 15 dias. Um fartote! Primeiro para o campeonato, depois para a Taça de Portugal. Com um jogo extra de desempate como mandava o regulamento

Semana de Sporting-Benfica. E de Benfica-Sporting, já agora. Para todos os gostos. Campeonato e Taça de Portugal. Primeiro round: leões KO em Alvalade – 2-4. Segundo round: Estádio da Luz, amanhã pela noitinha.

Falemos então da Taça de Portugal. E do dérbi mais comprido de sempre. Duzentos e setenta minutos divididos por três. Isto em 1954.

Primeira dose a 23 de junho.

Nesse tempo, o campeonato disputava-se primeiro, todo de uma vez, e a Taça vinha a seguir, como sobremesa.

Logo na segunda eliminatória, o sorteio mandou: jogue-se um Sporting-Benfica. E assim foi.

Curiosamente, tal como agora, uma semana antes tinha havido um Sporting-Benfica, última jornada do nacional: 3-2 para o Sporting. Campeão.

Local: Estádio do Jamor.

Havia essa prática: grandes jogos para o Jamor. O Estádio Nacional era um orgulho da nação. De uma semana para a outra, tudo parecia um filme rebobinado. Novamente 3-2 para o Sporting. Bem menos definitivo porque se jogaria uma segunda mão, oito dias depois.

Ninguém enjoava de Benficas-Sportings.

Uma confusão tremenda no final. Rogério Lantres de Carvalho, o Rogério Pipi, ameaçava abandonar o futebol, tal o desalento: “Com árbitros assim, não dá gosto jogar. Já ando nisto há 12 anos e apetece-me ir embora. A questão da arbitragem é um assunto que precisa de ser revisto.” Essa agora!? Ontem como hoje?

Depois de um empate ao intervalo, com golos de Arsénio (Benfica) e Galileu (Sporting), as coisas aqueceram ao ponto da ebulição. Dois penáltis, um para cada lado, convertidos por Calado (Benfica) e Travassos (Sporting), desencadearam a tranquibérnia. Rogério e Travassos entram num rififi particular. Que até mete uns gestos ameaçadores. Rogério arrependeu-se: “Agora que estou calmo quero pedir desculpa a todos os jogadores adversários pela minha atitude, especialmente ao Travassos.” Um cavalheiro, um cavalheiro!

Calado também não escondia a revolta. Era Calado de nome, não de feitio: “O árbitro estragou o encontro com receio de ver o Sporting a ser derrotado. Se há castigos para jogadores, porque não se castigam também os árbitros? O encontro foi um dos piores Benficas-Sportings dos últimos tempos por causa do árbitro. E o grande auxiliar do juiz de campo foi o belo jogador que é Travassos!”

Travassos no centro do chinfrim.

Que pressionara o árbitro por tudo e por nada.

O jogo fora resolvido por Mendonça, a dois minutos do final, com uma finalização vistosa, batendo Bastos.

Travassos não alimentou polémicas: “O jogo foi dos mais fracos e muito pior do que disputámos a semana passada. Talvez por causa de estar muito vento. Mas o resultado é justo. O Sporting impôs o seu domínio.”

Protesto O presidente do Benfica, Joaquim Ferreira Bogalho, ponderava um protesto formal: “O penálti contra o Benfica foi um crime! Temos de estar revoltados com o trabalho do árbitro. Ainda assim, acho que merecíamos outro resultado. Não tivemos sorte. Estou convencido de que, no próximo fim de semana, iremos bater o Sporting na segunda mão.”

E o árbitro? Quem foi o árbitro?

Chamava-se Mário Garcia.

Carlos Gomes, guarda-redes do Sporting, veio em sua defesa: “O árbitro foi honesto. Não fez uma grande arbitragem, mas o penálti contra o Benfica existiu! Já contra o Sporting, nunca poderia ter sido penálti! É uma carga de ombro perfeitamente legal. É de lamentar que jogadores de nome tenham esquecido a boa ética desportiva. É nestes momentos que os verdadeiros desportistas se distinguem.”

Carlos Gomes nunca teve papas na língua. Conheci-o bem.

Com tudo isto de permeio, o Benfica- -Sporting da revanche prometia.

Marcado para o dia 30 de maio.

Outra vez no Jamor, pois então.

O presidente do Benfica tinha prometido uma vitória. Os jogadores quiseram cumprir. Lançaram-se ferozes em busca do único resultado que lhes permitisse continuar a sonhar com a presença na final.

Impassível, Martins deu avanço aos leões logo no primeiro minuto. A vantagem engordava. Ficaram na expetativa.

Os encarnados desenhavam movimentos rápidos, concertados, objetivos. Faltava a eficácia. Mas, de súbito, Palmeiro, José Águas e Salvador desenham uma triangulação perfeita. É este último que faz o empate. Trinta e seis minutos.

O público não apareceu, desta vez, em tão grande número. Provavelmente desiludidos com o mistifório que tiveram de suportar na primeira mão, os adeptos não estiveram pelos ajustes. Baldaram-se.

Menos entusiásticos os segundos 45 minutos. Benfica ao ataque; Sporting fechado nas suas tamanquinhas. Equilíbrio evidente. Golpe aqui, golpe ali. Para cá e para lá. As duas equipas respeitam--se e receiam-se. Não se dispõem a dar o flanco. Mas a águia precisa de risco. O empate condena-a à eliminação.

É Arsénio que marca o segundo golo do Benfica. A 20 minutos do final.

O leão ruge, mas o seu rugido é tardio. Encontra-se dominado, o opositor tem um entusiasmo transbordante que impede Travassos, Martins e Mendonça de levarem a cabo as suas iniciativas. Desta vez, o árbitro, Correia da Costa, vindo do Porto, não é foco de distrações nem de distúrbios. Tem a rédea dos acontecimentos bem presa, não permite badernas.

A vitória do Benfica obriga ao desempate. Os regulamentos impõem novo jogo dentro das 48 horas que se seguem. Quarto dérbi consecutivo em menos de 20 dias.

 

Continua na edição de amanhã

 

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