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Aurora. O corpo feito manifesto

Aurora. O corpo feito manifesto

Cláudia Sobral 03/02/2019 11:07

Iniciou há dois anos o processo de transição do sexo masculino para o feminino. A aguardar pelo parecer da Ordem dos Médicos obrigatório para a cirurgia de reatribuição sexual, o problema de Aurora Pinho não é só esse: são os 9 mil euros que não tem e de que precisa para fugir às imprevisíveis listas de espera no SNS. Para isso, lançou, com outros artistas, um crowdfunding

Quando há dois anos Aurora deixou Travanca, a “aldeia” onde nasceu em Santa Maria da Feira e se mudou para Lisboa, fê-lo porque não era Aurora ainda, e porque aquele não era o melhor lugar para passar a ser. O processo, iniciava-o já tarde. “Muito tarde”, segundo diz. “Podia ter feito isto muito mais cedo. Estava decidida, então quando cheguei fui à clínica, já de forma prática e objetiva.” Uma clínica privada especializada em que seria acompanhada por um psicólogo, um sexólogo e um psiquiatra – os três especialistas obrigatórios num processo de transição. Nesse lugar, nunca teve outro nome: Aurora. Apresentou-se assim, mesmo que no cartão do cidadão viesse ainda outro nome – Flávio, o nome com que continuava a apresentar-se ao mundo.

Lisboa era a cidade onde tinha apresentado a primeira performance da sua autoria, “ligada à Judith Butler e às questões de género”. Isto em 2015, no Lux Frágil. “Usei sempre o meu trabalho para pesquisar sobre estas questões, mas num processo interior, não era uma coisa que passava para o exterior”, conta num paralelo com o hábito de vestir a roupa da mãe desde criança. “Os meus pais chegaram a ir ver performances e concertos meus. E eu usava sempre saltos, roupas super justas, vestidos, maquilhava-me – mesmo a minha avó chegou a ir ver uma performance, portanto eles já tinham essa imagem.”

Nos primeiros tempos, fora do refúgio daquela clínica, Aurora continuava a ser Flávio, apesar da imagem. No cartão do cidadão, onde o nome e o sexo não tinham sido ainda alterados, era como se a fotografia fosse já a de Aurora. “Já era muito feminina… já era eu. Tinha o cabelo enorme, roxo, já tinha a franja.” Pouco depois das primeiras consultas, tornou público o processo que iniciava. “Primeiro aos meus familiares, depois entre amigos e no meio.”

Nessa altura, Aurora era uma das performers que integravam o elenco de “Palhaço Rico Fode Palhaço Pobre”, um espetáculo que João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira estrearam na primeira edição da BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas, em Lisboa. A primeira vez que o i se cruzou com Aurora foi num dos ensaios, no dia em que pela primeira vez se apresentou com a nova identidade. Semanas depois, quem a visse no Bairro Alto notava que o corpo já se transformava, com o início do tratamento hormonal. Era o início do “caos” – palavra mais simples para o que aí vinha, que a avó lhe tinha resumido num suspiro: “Ai filha, vais sofrer tanto”.

 

“Entende-se isto desde que se nasce”

Não é uma decisão fácil. “Dizer ‘vou iniciar este processo porque sei o que sou e o que quero para a minha vida’, isto é fácil, para nós. Entendemos isto desde que nascemos. Mas avançar e ter o confronto com a realidade não é fácil”, explica. “Eu sou uma privilegiada pela minha aparência de mulher cisgénero, mas há pessoas que não a têm, para quem acaba por ser um processo ainda mais caótico, porque têm que lidar com coisas na rua. Tenho amigas que passam por um massacre. Eu neste momento não lido com nada. Lido com o que lida qualquer outra mulher que sai à rua. Com a dita normalidade.”

Mas os obstáculos não vêm só do confronto com o exterior. “É muito complicado. Há pessoas que não conseguem aguentar a intensidade do processo e que desistem. É caótico e super doloroso quando começas a sentir, por exemplo, os seios a crescer, as ancas a alargar... Ficamos muito frágeis a nível físico. Estou a acompanhar uma trans que me disse que parou o tratamento hormonal, porque não estava a aguentar a intensidade”, conta ao i.

No caso de Aurora, mesmo com o privilégio de que fala no que toca à imagem, mesmo com o privilégio de ser artista, as coisas não são fáceis. Estudou dança, no Balleteatro, fez-se performer, começou a apresentar espetáculos seus, depois a cantar. É disso que vive e é nesse mundo que se protege.

Mas nem estabilidade emocional nem compreensão do exterior são tudo, e vamos ao assunto que nos trouxe à conversa com ela, na sua casa, numa manhã de janeiro. Quando tomou a decisão de iniciar o processo numa clínica privada, fê-lo depois de ouvir os relatos de quem já passou pelo mesmo: das consultas que demoram, das listas de espera para as operações, da confusão gerada pela falta de informação. “Esta clínica em que estou a ser acompanhada, trata basicamente dos relatórios. Quando expus a minha questão, fui submetida a uma série de testes: uma espécie de questionários de, sei lá, 500 perguntas, às quais tens que responder sim ou não, uma coisa de cruz, para eles decidirem se estava apta a iniciar o processo, para avaliarem se é mesmo só esta questão de ter que passar por toda esta transição de disforia de género ou se pode haver outras questões envolvidas.”

Depois do tratamento hormonal vem, no seu caso, a cirurgia de reatribuição sexual. Para que o “caos” – como descreve os últimos dois anos – não se prolongue por mais tempo ainda do que o sempre necessário, decidiu submeter-se ao procedimento num hospital privado – o Hospital de Jesus, o único onde opera, depois de se ter reformado, o mais reputado cirurgião português em cirurgias de reatribuição sexual: João Décio Ferreira. “No público não pagas nada, daí a demora. E acho que demora porque cada vez somos mais e porque com isso eles acabam por barrar um bocado, como se houvesse uma indicação qualquer para não estarem sempre a autorizar tudo. O Estado parece não querer financiar isto, até porque é das últimas coisas em que os governantes alguma vez falam.”

 

O dia em que acordou num hospital

Antes de se ter mudado para Lisboa, antes de tudo, Aurora tentou suicidar-se. Correu mal, o corpo rejeitou-lhe os comprimidos. A conversa vai longa quando o i pergunta se se lembra de que a conversa está a ser gravada, responde que sim. Que é importante que também isto seja dito. “Entre as várias trans que acompanho, o suicídio é um tema recorrente”. Não é só Aurora que o diz. São associações, relatórios, especialistas. “Isto não é uma brincadeira, daí haver casos de suicídios, quer quando ainda não se iniciou o processo, quer depois.” Primeiro porque, pelo que tem visto à sua volta, “é muito raro as famílias apoiarem”. Depois por se tratar de um processo longo: “No público, então, é um período super extenso de incertezas e sem respostas. Estou a acompanhar alguns trans que tentam o público e que desistem por não aguentarem.”

Foi ao acordar no hospital que percebeu a mensagem de que aquela não seria a saída. Foi a sua wake up call. A partir daí, foi dar os passos necessários para fazer o que diz sempre ter sabido que tinha de ser feito.

Depois das consultas iniciais no privado, que serviram para agilizar o início do tratamento, tem optado, como outros transexuais, por um sistema misto no que respeita às consultas necessárias para obter as receitas para as hormonas:  “Vamos disparando para vários lados. Acabo por estar ligada ao sistema público e ao privado, às vezes vou aos dois, vou marcando. Porque, mesmo não pagando a totalidade, através deste sistema, gasto ainda assim uns 50 euros por mês com o tratamento hormonal.”

Desde que iniciou o processo, diz ter gasto perto de 3 mil euros neste sistema que lhe tem parecido o mais equilibrado entre economias de gastos e de tempo. “Não ter o corpo, não reconhecer o próprio reflexo no espelho durante todos estes anos, é muito doloroso. Não é uma coisa que consigas abafar para fingir que nada se passa. E uma coisa é um transexual que não vai tirar o órgão genital, que passa por todo o processo hormonal e acaba aí; outra coisa é alguém que não se reconhece com o órgão genital que tem. Teres um órgão genital biológico que não reconheces até terminares o processo é teres um fantasma que te acompanha todos os dias”, explica.

Um fantasma que assombra também tudo em volta: “Eu tenho esta fisionomia feminina, mas mesmo assim é sempre confuso, e vejo isso pelas relações que tive pessoais, com homens heterossexuais, porque desde que comecei o tratamento hormonal estive quase só com homens heterossexuais. Num processo de transição em que ainda não se está operada, ter um órgão genital que não corresponde, é estranho para a outra pessoa também.”

 

Dinheiro é tempo

Com a fase do tratamento hormonal a chegar ao fim, o dia em que essa barreira desaparecerá por fim vai-se tornando mais próximo. A “finalização do processo” – no seu caso, a cirurgia de reatribuição sexual – está agora dependente do parecer da Ordem dos Médicos, sem o qual não pode ser realizada. E, para que a espera não se prolongue por tempo “indeterminado”, depende também do dinheiro que lhe falta para realizar essa cirurgia no Hospital de Jesus:_9 mil euros.

Para isso, lançou em outubro, com o apoio de um conjunto de amigos entre os quais ou músico Filipe Sambado, a atriz Cecília Henriques e o ator Manuel Moreira, uma campanha de crowdfunding (cargocollective.com/aurorapinho/Crowdfunding) para a realização da cirurgia de redesignação sexual. “Anunciámos o crowdfunding em outubro, dei uma entrevista ao ‘Diário de Notícias’, e a partir de novembro começou a estagnar. Vai havendo uma ou duas transferências pequenas… esses três mil euros foram reunidos praticamente no início, quando lançámos a campanha”, diz.

No final do ano, fez um post nas redes sociais em que aproveitava o “dia festivo” para voltar a chamar atenção para um problema que não é seu apenas, mas de todos os transexuais portugueses. “Neste momento não vivo, sobrevivo”, escrevia, alertando para a urgência da realização da cirurgia. “Sem a vossa ajuda parece-me impossível terminar o processo. Quanto mais o tempo passar, mais o corpo apodrece”.

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