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A Rosa do Invisível

A Rosa do Invisível

Rui Lage 01/02/2019 12:56

Texto lido por Rui Lage na cerimónia de entrega dos Prémios Estoril Sol a 28 de Novembro de 2018, quando lhe foi entregue o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, que, na sua 10.ª edição, distinguiu, por unanimidade, o seu primeiro romance, "O Invisível", que propõe uma abordagem ficcional do lado mais oculto de Fernando Pessoa, e que acaba de ter uma segunda edição.

Vivemos na era do visível. Numa era hipervisível. Tudo é visto ou tudo pode ser visto, instantaneamente, simultaneamente. E o que não é visto, ou não está ainda visível, aspira à visibilidade – ou está já a caminho de se tornar visível, sob pena de resvalar para a irrelevância ou para a inexistência. O ecrã tornou-se o grande mediador, uma superfície por onde escorre infatigável o caudal das imagens, num débito prodigioso. De tanto olharmos, de tantos olharmos para fora de nós, julgo que estamos a perder o dom de olhar as imagens que há dentro de nós; o dom da evocação. Fazemos ricochete no visível. Num visível sem profundidade. Enganoso, manipulável. A pergunta colocada por Italo Calvino, em 1993, é por isso mais actual do que nunca: “A faculdade de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais submersa pelo dilúvio das imagens prefabricadas?”.

E no entanto somos feitos de invisível: de células e genes que não podemos ver a olho nu; de moléculas, átomos, partículas e subpartículas e o mais que compõe a matéria comum, a qual, diz-nos o modelo padrão, corresponde apenas a 5% de toda a matéria e energia que preenche o Universo. Existimos sujeitos a influências invisíveis: as das forças fundamentais da física: a força eletromagnética ou a força da gravidade. Toda a matéria, incluindo a dos nossos corpos, é constantemente atravessada por partículas invisíveis, de massa próxima do zero: os neutrinos. Segundo Adam Smith, a ordem social autoinstitui-se por obra de uma “mão invisível”. O nosso subconsciente é para nós como que uma região invisível. E os nossos mortos são invisíveis, porque afinal, como no verso de Pessoa, "morrer é só não ser visto".

Ao autor cumpre também tornar-se invisível, desaparecer no seu texto, num golpe de ilusionismo. E a um Prémio literário, especialmente um que, como este, não consagra, mas revela, compete tornar visível o autor.

Por outro lado, há pessoas e comunidades invisíveis, socialmente invisíveis: idosos invisíveis, trabalhadores invisíveis, famílias invisíveis. A tarefa da política é torná-las visíveis: transformar a invisibilidade em reciprocidade. Aí está um desígnio que a literatura pode partilhar com a política: resgatar o outro ao esquecimento e ao anonimato. Através de uma ética da atenção. Que tem raiz na comoção com o visível.

Mas estamos a perder de vista o invisível. Esse invisível que, como lembrou Almada Negreiros ‒ que esteve para ser uma personagem deste romance ‒ “não é só o que ainda não está visível, [mas] é também o que nunca será visível”. Estamos a desaprender o transcendente, o metafísico, o sagrado. Quando falo de sagrado, de transcendência, de metafísica, não os confundo com os discursos etno-religiosos, de substrato nacionalista, que estão a ressurgir em vários pontos do mundo; nem falo de misticismos bacocos, de espiritualidades híbridas ou ready-made; também não falo da sacralização da tradição, do apego a remanescências ritualísticas ligadas à violência e ao sacrifício, resquícios anacrónicos de um pensamento mágico-religioso; não, não falo de hierofanias tauromáquicas. Nem sequer falo de Deus. Falo de outra coisa: falo do invisível como esse algo que nos escapa e que nos mobiliza porque nos escapa. De que não se sabe o nome, e a que, na falta do nome, chamamos alma, ou outra coisa (Tao, como no Tao Te King); mas que também pode ser o “silêncio eterno dos espaços infinitos” que assustava Pascal; ou "a Mística gramática que reside no fundo de tudo", de Novalis; ou esse “grande vago que há na Lua”, de Sophia; ou o “extenuante legado de aspiração humana” de que a Germa de A Sibila, de Agustina, era relicário. Algo que talvez esteja fora da linguagem (a “casa do ser que lá não mora”, como dizia Vitorino Nemésio), ou que a linguagem não posa articular mas a que possa somente aludir; algo de que a linguagem nos separa, porque ela não basta, mas para que aponta.

O invisível é o infinito, é o desconhecido, é o futuro. É “a presença do mistério”, para usar uma expressão de Manuel António Pina que me é muito cara; ou, nas palavras do Fernando Pessoa que ficcionei, personagem central deste meu romance: “O que me importa não é tanto o carácter ilusório do mundo, algo que todos os sábios intuíram desde Parménides. O que me importa é o porquê de alguns indivíduos conseguirem sair dessa ilusão, mesmo que temporariamente. Na verdade, essa saída da ilusão é mais comum do que possamos pensar. Acontece, por exemplo, quando fitamos demoradamente um regato e nos deixamos hipnotizar pelo seu marulho, pelo seu fluir, a ponto de nos perdermos algures onde as suas águas e as da consciência se misturam. Penso que nesses instantes dissolventes, de estranhamento radical, de cancelamento do tempo e do espaço, a roçar a inexistência, ficamos no limiar da realidade oculta” (p. 200).

Para mim é também isso a escrita: um meio de obter um vislumbre do invisível. Escrever interessa-me sobretudo enquanto exercício de mediação entre o visível e o invisível. Para além do seu enredo, para além dos seus elementos rocambolescos, satíricos, policiais, este romance lida com a diluição das fronteiras entre o visível e o invisível, diluição que sugere a explicação para vários acontecimentos e episódios fundamentais. As intersecções entre o visível e o invisível, de que este livro trata, correspondem a intersecções entre o consciente e o inconsciente, entre razão e sensação, entre o finito e o infinito; e também a essa convergência entre a ciência e o esotérico que seduziu tantas figuras das vanguardas do séc. XX: Apollinaire, Picasso, Duchamp, os surrealistas, e, claro, Fernando Pessoa.

A Fernando Pessoa, “o taciturno fantasma do meio-dia português”, como lhe chamou Octavio Paz, fascinava-o ideia de uma realidade velada e inexplorada. Para ele, como bom platonista que era, o visível, aquilo que os nossos sentidos recebem, não é fiável; as imagens são miragens, um jogo de sombras projectadas no ecrã da caverna por uma realidade inacessível, invisível.

Na era da ciência que tudo explica e decifra, após o “desencantamento do mundo” de Max Weber, já não podemos confiar exclusivamente aos sistemas e crenças religiosas a tarefa de cuidar da dimensão transcendental ou metafísica do ser humano, sem a qual poderemos, eventualmente, prosseguir a nossa caminhada, mas desamparados do sentido do caminhar, alheados do ser, do “puro enigma do ser humano” (A Sibila). O que será uma existência de onde o mistério foi evacuado? O que poderá ser uma existência humana surda para a voz da sibila?

A presença do mistério não carece da filtragem e da mediação dos sistemas e crenças religiosas. A dimensão espiritual do ser humano não se esgota no apelo do religioso ou na adesão ao divino. O invisível pode ser interrogado “no caminho onde não há êxtase” de T. S. Eliot. Há, sempre houve, lugar para uma espiritualidade secular. Uma espiritualidade ética. Uma espiritualidade intelectual.

É por isso que a arte, e a literatura em particular, não se pode contentar em aderir ao vidro do visível. Ela pode continuar a ser a janela aberta para o mundo, de que falava Leon Battista Alberti, na Itália do quattrocento, mas não pode ser só isso: tem de ambicionar ser uma janela entreaberta ao invisível, entreaberta a outros mundos; uma janela infiltrada pela voz da sibila. A arte, lembra Agustina Bessa-Luís, no prefácio a Ternos Guerreiros, "(..) é uma constante das realidades invisíveis. Tudo o que está patente aos nossos sentidos e ao nosso intelecto desde o princípio do homem, vai-se desfazendo da bruma e aceitando comunicar-se-nos."

Perante a torrente avassaladora de imagens fragmentadas, padronizadas, falseadas, instantâneas, sem temporalidade, que marca a nossa época, haverá que enfatizar a importância das imagens da literatura, que são imagens de outra ordem: imagens que se revelam lentamente, sequencialmente. Imagens mentais, espessas, com profundidade. Porque as imagens não são só para serem vistas, mas também para serem pensadas (e nós pensamos com imagens, ou por imagens). O visível não é só para ser visto: é para ser pensado. Ver não é o mesmo que conhecer. Ver não é sequer o mesmo que contemplar. Contemplar é meditar. Refletir, especular, memorizar. Meditar é rever. Voltar a ver. Relembrar.

À literatura cabe também esta responsabilidade de contribuir para que a presença do mistério não dê lugar à ausência de mistério. A responsabilidade de velar para que a rosa do invisível, a rosa sem porquê, não seja obliterada pela rosa sintética, pela rosa explicada, pela rosa meramente visível.

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