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Rosalía. A música pop regionaliza-se

Rosalía. A música pop regionaliza-se

Alba Ruperez Davide Pinheiro 31/01/2019 14:24

De África à América Latina, com cidades cosmopolitas como Lisboa ou Barcelona no mapa, a música pop está a emancipar-se da soberania anglo-saxónica. A catalã Rosalía encontrou um mundo só dela no diálogo flamenco-pop-moderno

Nos anos 80, músicos da linha da frente pop como David Byrne, Paul Simon e Peter Gabriel rasuraram fantasmas históricos como o colonialismo e o apartheid e aperceberam-se que África era, antes de mais, um tesouro cheio de histórias. Um baú rítmico e melódico por explorar e pôr em diálogo. Foi Peter Gabriel, através da sua editora Real World, a cunhar a “world music”. Durante anos, o termo serviu para engavetar tudo o que não viesse do eixo anglo-saxónico, de Johnny Halliday a Youssou N’Dour e Caetano Veloso A intenção era boa, mas à luz dos tempos, a expressão não podia ser mais discriminatória. As polícias atuais nunca deixariam passar a “world music” na alfândega do politicamente correto, mas era o mundo que tínhamos, subordinado a fronteiras e códigos tribais.

O mundo só começou a ficar mais pequenino quando uma primeira geração de produtores periféricos usou uma rede social, o MySpace, para encurtar distâncias e abolir fronteiras. Os Buraka Som Sistema, em Lisboa, os Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, no Brasil, formaram uma espécie de sindicato com M.I.A. e os The Very Best, a operar desde Londres, e Diplo, de Los Angeles, para conspirar a favor de uma música de dança global fora do eixo tradicional do house e do techno. Não só explorando as potencialidades locais de heranças rítmicas identitárias como o kuduro e o baile funk, como ferramentas de comunicação capazes de criar elos para qualquer ponto do globo a partir de uma cidade que não Londres, Berlim ou Nova Iorque.

Esta santa aliança compreendeu ainda a importância fulcral do ritmo para seduzir pistas e plateias. Para o mundo ficar mais pequeno, era necessário começar pelo corpo. E usar a linguagem como uma ferramenta rítmica, recorrendo a palavras-chave e expressões locais fortes, universalmente reconhecíveis além da literalidade.

Esta visão provocou tensões e divisões entre o público habituado aos códigos musicais da segunda metade do séc. xx, isto é o rock e os seus subgéneros, mas foi entrando lentamente no gosto coletivo. E quando Drake se apropriou do dancehall em “One Dance” ou da pop nigeriana em “Too Good”, uma geração educada através do YouTube e do Spotify não só não estranhou como dançou, abriu garrafas e alugou privados.

Derrubados os muros entre o primeiro mundo anglo-saxónico e outras geografias rítmicas, havia que descobrir o que está na base. J Balvin e Bad Bunny na América hispânica, Anitta no Brasil; Wizkid, Davido e Burna Boy na Nigéria personificam esta mudança do vento, mas são, sobretudo, fenómenos orgânicos, construídos nas redes sociais e só depois assimilados pelo mundo institucional (festivais, editoras, agentes, meios de comunicação tradicionais).

O caso da catalã Rosalía é especial, por isso. Pela aclamação global quase unânime de público e massa crítica, confirmada pelo convite de James Blake para um dueto em “Barefoot In The Park”, do novo álbum do compositor “Assume Form”. Em 2017, foi nomeada para os Grammy latinos pelo inaugural “Los Ángeles” mas, lá está, o reconhecimento era apenas o da sua comunidade.

Durante anos, esse era o perfil dos fenómenos locais. Cantores como o colombiano Juanes e o espanhol Alejandro Sanz conseguiram ser grandes, mas a falar para os seus, havendo também exceções como Shakira (Colômbia) ou Ricky Martin (Porto Rico) para confirmar esta regra. Mas o caso de Rosalía tem características mais parecidas com as de Björk que nos anos 1990 e já neste século, canalizou a vanguarda para a pop, nunca renegando os vulcões islandeses. Mas enquanto esta escolheu Londres para ser levada a sério pela indústria, é a partir de Barcelona que Rosalía Vila Tobella constrói o seu mundo de flamenco moderno e garrido, formado sobre uma ideia racional de modernismo autónomo e independente das correntes dominantes. “Conheço a tradição. Aprendi todas as regras”, defendia à “Rolling Stone”. José Miguel Vizcaya, ou “El Chiqui de la Línea”, foi o seu mestre enquanto estudava na Escola de Música da Catalunha. “Tenho de ser transparente com a forma como vejo o flamenco aqui e agora, com quem sou, as minhas referências, a minha idade, e o que estou a viver”, assumiu.

O single “Malamente”, do álbum “Mal Querer”, de final do ano passado, deu-lhe dois Grammy Latinos, superando J Balvin. Ao receber o segundo Grammy, de Melhor Performance Urbana de Fusão, expressou a gratidão para com algumas das referências: Kate Bush, Lauryn Hill, Missy Elliott e...Björk. O discurso de Rosalía é assumidamente feminista e tem no Instagram um importante elo visual. Ciente da sua importância, a Pull & Bear criou uma linha em parceria com a catalã. Assim como o corpo é o primeiro recetor do ritmo, os olhos são o primeiro foco da cultura digital. E em Rosalía tudo se funde, como a tradição e a contemporaneidade. A melodia e o ritmo. O pensamento e a voz.

A 8 de junho, o elevador da glória chega ao Porto quando for cabeça de cartaz do NOS Primavera Sound, dividindo o protagonismo da última noite do festival com Erykah Badu e Nina Kraviz.

 

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