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João Miguel Fernandes Jorge. A Grécia que sobra

João Miguel Fernandes Jorge. A Grécia que sobra

João Oliveira Duarte 29/01/2019 13:04

Em “Fuck The Polis”, João Miguel Fernandes Jorge retoma um gesto clássico da poesia, um retorno à Grécia. Conferindo-lhe um tom político e fazendo uso do cruzamento de tempos diversos e antagónicos, esse retorno à Grécia torna impossível qualquer forma de mitificação da herança clássica

Num campo poético em que a fragmentação é diretamente proporcional ao afunilamento em certos gestos, temas ou mesmo vocábulos, a poesia de João Miguel Fernandes Jorge permanece como uma daquelas raras, e com cada vez menos espaço editorial e crítico, onde se dá a ler uma ligeira intempestividade, uma recusa oblíqua e não declarada dos protocolos do campo em que se insere. Seja pelo facto de permanecer num diálogo com outras formas artísticas - em “Fuck The Polis”, tal como no anterior “Mirleos”, é a escultura que predomina -, pela liberdade narrativa de tantos destes poemas - o segundo, “Na Terra Negra”, é a esse título exemplar: “Afastou-se para o altar/ nos confins/ da cidade. Ergueu a taça/ murmurou a libação” - ou pela preocupação com aquilo a que poderemos chamar problemática da imagem, a poesia de JMFJ é dos poucos gestos onde a História e a palavra poética se encontram, num terreno incógnito apenas por si explorado.

Um dos momentos maiores de “Fuck The Polis”, que segue, aliás, uma experimentação bastante comum na obra de JMFJ, é a sobreposição de tempos diferentes. Já na nota colocada no 6.o volume da “Obra Poética” é para esta que alerta, colocando a sua poesia sob o duplo signo do anacrónico e do sonho: “Os versos andam muito próximo dos sonhos e constituem, como eles, não sei se um saudável se um doentio anacronismo. Crescem dentro e fora dos seus termos singulares e vão, como Aquiles, à procura de vingança ou, como Príamo, à procura de palavras capazes de o conduzirem a uma eterna noite.”

Índice de contaminação pela imagem, que surge neste livro em locais estratégicos - “agora// a imagem voltou, por instantes, de outro jeito/ cobra grossa que/ aperta e estrangula” ou “Enquanto durou a sua imagem/ o café grego que bebia deixou-me o/ sabor doce e terroso do fim.” -, é o anacronismo, isto é, nesta poesia em concreto, a junção de tempos díspares, distantes e inconciliáveis, que vem tornar complexa uma tendência para a mera descrição, fazendo com que aquilo de que parte adquira horizontes de sentido insuspeitados, que se abra para “o insólito de poder viver milénios”. Mas é igualmente este anacronismo que vem conferir à imagem um caráter de deriva e a esta poesia um tom de divagação - rigorosa, no entanto. 

“Sombras errantes, os corvos/ marinhos pousam no frontão que/ restou, erguem e descem o voo/ negro sobre o Templo de Apolo Pítio/ na Acrópole de Rodes - grasnam/ a obscuridade do oráculo// Dos pinheiros caem uma e outra/ pinha, flores/ de petrificadas pétalas, dardos/ palavras do deus/ aquele que conhece/ o que permanece inalterado// O gato, no calor das pedras -/ parece um sardão - seus olhos/ amarelos, fulgurante servidor do deus”.

No entanto, este anacronismo, este entrelaçamento entre tempos divergentes - no poema acima, o nosso tempo, o tempo do “frontão/ que restou”, e aquele outro, já desaparecido, onde o deus é ainda “aquele que conhece/ o que permanece inalterado” - não dá lugar a qualquer mitificação da Grécia Antiga, a qualquer ideia de pátria espiritual ou de lugar originário - pelo contrário, tudo quanto se refere a esta é entendido a partir de um campo determinado, a História, onde o que subsiste permanece irremediavelmente perdido para nós, e só a partir disso é que pode, por fim, entrar numa relação tensa com o nosso tempo, cruzá-lo à maneira de um sonho ou fantasma, fazendo com que o gato se transforme num “fulgurante servidor do deus”.

A este anacronismo como mecanismo de criação poética que transforma a viagem à Grécia, outrora lugar de encontro com o nascimento de algo que ainda seria nosso, em errância - Míconos, Delos, Atenas, Istambul ou Creta são alguns dos locais que estes poemas sinalizam -, poderíamos juntar o conteúdo político para que o título imediatamente aponta, que, lido a partir da sua língua de origem, cria uma homofonia entre “polis” e “police”. No entanto, é necessário compreender que este elemento não segue os mecanismos tradicionais através dos quais a poesia se reveste de um conteúdo político. Não encontramos, portanto, nem um tom de intervenção, ou abertamente politizado, nem mesmo essa vertigem sentida por certos movimentos do séc. xx de transformação da palavra poética em mecanismo de denúncia ou de ação sobre o real - que, para parafrasear Merleau-Ponty, filósofo francês ligado a uma corrente maior da filosofia, não deu nem boa poesia nem boa política. Talvez aquele poema onde mais visível se torna a entrada de acontecimentos políticos recentes (a crise grega) no campo poético seja “Entre Agia Marina e Kerameikos” - mas, mesmo aí, é sempre de forma mediata e oblíqua que a política deixa a sua marca.

“Entrou na carruagem, ficou de pé/ e fez uma voz pausada, tocada por/ vezes de emoção, um longo/ discurso. Perguntei ao meu amigo/ - É um sofista ou um poeta?/ - Um mendigo. Que a mãe/ está a morrer no hospital, mas falou/ De Sólon e da escravatura da dívida.” 

De facto, espalhadas ao longo destes poemas, encontramos estas ligações mediatas à política que nunca chegam a cair numa politização apressada - um dos melhores exemplos é o último poema, onde surge o título do livro: “Alexia, Anna e também Maria/ aguardam nas suas casinhas de prazer/ fantasias de qualquer realista -/ na parede, a negro - Fuck the polis”. 

No entanto, a este conteúdo político que comparece em diversos destes poemas poderíamos juntar um outro, visível na relação que mantêm com a História. Não se trata propriamente de uma forma de a equacionar - que não cabe à poesia - ou mesmo de uma linha temática que permitisse conferir uma unidade tal que transformasse os poemas numa derivação de uma qualquer teoria da História. É possível, no entanto, equacionar que este retorno à Grécia, que de resto segue um gesto já clássico e bastante presente na poesia portuguesa, não vai sem uma referência, mais ou menos pronunciada, mais ou menos imediata, a turbulências de ordem política ou social. Não conseguindo escapar a um erotismo demasiado evidente, no poema “Duplo Vaso”, por exemplo, JMFJ entrelaça a guerra com esta ideia de «perdidas ânforas», isto é, com a ideia de que esta poesia trabalha, para usar uma imagem de Walter Benjamin, como uma varinha de vedor, batendo no chão, na “cor crua da terra”, para encontrar esse “sopro impassível”, tantas vezes soterrado sob camadas e camadas de poeira. 

“Não passavam de um vaso siamês/ Os dois hoplitas. Irão morrer na Guerra/ - soberana de sangue e membros podres -/ do Peloponeso. Lykeas e Chairedemos/ sabiam que seriam tocados/ pela fatalidade. Enquanto guerreiros,/ amante e amado, como esse duplo vaso/ para sempre ligados, seriam/ louvados pelo que houvesse/ nos seus corpos ardentes e feridos, à/ vez amado e amante/ num erótico espelho.”

Este entrelaçamento entre guerra e arte, como se nesta se deixasse ouvir o “ruído de sangrentos combates”, surge em diversos momentos nestes poemas e, de certa forma, marca o tom deste retorno à Grécia que JMFJ esboça - e quem se arriscaria hoje, depois de uma história tão saturada onde começam por comparecer Hölderlin ou Byron, a tomar a Grécia Antiga por objeto e, ainda mais, fazendo-o sem cair em qualquer mitificação e evitando, tantas vezes, o lugar-comum? 

Como no poema “O Imperador Teodósio”, onde sobre a destruição de Olímpia, Roma e Constantinopla são colocadas duas pequenas anotações - “ainda não pediram perdão” e, no fim do poema, “de que vale pedir perdão” -, também estes poemas surgem como um conjunto de pequenas variações livres que não redimem nem salvam nada - nem isso é pretendido -, pequenas anotações à margem de uma história que, para parafrasear Brecht, é apenas uma desordem onde “não há nada nos céus/ acima de nós/ a não ser a ave de rapina”. E é talvez esta a forma como JMFJ estabelece um singular retorno à Grécia: não através de uma mitificação, do esplendor do início ou do originário, nem de uma sobrevivência da herança clássica, que permaneceria incólume apesar de tudo, mas de uma poesia que, por vezes, não sabe “compor um corpo/ a esses pés” e onde esta herança, mais do que sobreviver a esse “fuck the polis” escrito a negro numa parede onde se guardam e aguardam “fantasias de qualquer realista”, é trazida por ela; na esperança ou no pesadelo de talvez se dar “o insólito de poder viver milénios”. 

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