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Casa Pia. “Rúben Amorim está a ser alvo de um ataque pessoal”

Casa Pia. “Rúben Amorim está a ser alvo de um ataque pessoal”

Bruno Venâncio 24/01/2019 18:53

Bruno Simão é um dos nomes fortes do plantel e amigo de infância do ex-internacional português, que abandonou o clube de Pina Manique na sequência dos castigos aplicados pela FPF

As sanções ao Casa Pia, a José da Paz, treinador principal, e Rúben Amorim, treinador estagiário, decretadas pelo conselho de disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), estão suspensas desde o dia 18 por ordem do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), na sequência do recurso apresentado pelo clube lisboeta. Ainda assim, tanto o antigo internacional português como José da Paz acabaram por, nesta segunda-feira, optar por se separar do Casa Pia, no sentido de devolver a tranquilidade ao clube, que se encontra em plena luta pelo acesso ao playoff de subida à ii Liga.

O CD da FPF, recorde-se, considerou como provado que Rúben Amorim (que ainda não concluiu o nível 1 do curso de treinador) desempenhou funções como técnico principal em dois jogos do Campeonato de Portugal, com a conivência de José da Paz e da direção do Casa Pia. Entendeu, por isso, castigar o clube com a perda de seis pontos, além de cinco jogos à porta fechada e uma multa de 14 mil euros. Rúben Amorim foi condenado a pagar 2600 euros de multa e a cumprir uma suspensão de três meses, ficando ainda impedido de ser inscrito como treinador durante um ano, enquanto José da Paz foi suspenso por quatro meses e condenado a pagar 1200 euros de multa.

De imediato, várias foram as vozes que se insurgiram com esta decisão do CD, considerando a pena demasiado elevada e apontando outras situações semelhantes e que mereceram castigos bem mais leves. O Casa Pia, por seu lado, defendeu sempre que a versão do CD não correspondia à verdade, garantindo que Rúben Amorim teve sempre, desde que chegou ao clube, no início da época, o papel como treinador estagiário bem definido e que o técnico principal foi sempre José da Paz. Por essa razão, entendeu por bem recorrer ao TAD, acreditando que a decisão final deste órgão lhe será favorável.

Reencontro com o amigo de sempre Uma situação bastante complicada para o plantel do Casa Pia, que vinha a fazer um campeonato muito positivo até este episódio, tendo estado praticamente toda a época num dos lugares de acesso ao playoff final. No domingo, Rúben Amorim já não marcou presença no banco, ao contrário de José da Paz, que ainda liderou a equipa de Pina Manique no triunfo caseiro sobre o Louletano (2-1), um dia antes de anunciar o adeus.

Num plantel que mescla jogadores bastante experientes com outros mais jovens, toda esta realidade foi acolhida “com muita tristeza e revolta”. As palavras são de Bruno Simão, lateral esquerdo de 33 anos e um dos nomes fortes da equipa. Formado maioritariamente entre Benfica e Belenenses, passou por vários clubes no estrangeiro (entre os quais o Dínamo Bucareste, na Roménia; o Slovan Bratislava, na Eslováquia, onde conquistou uma Taça e jogou na Liga dos Campeões; ou o Milsami, da Moldávia, pelo qual venceu uma Taça e uma Supertaça) e esta época decidiu aceitar o convite do Casa Pia - ou, mais propriamente, de Rúben Amorim. “Somos amigos de infância, começámos juntos no Benfica com oito anos. Nos juvenis, eu fui para o Belenenses e fui buscá-lo para a minha equipa quando ele estava no Corroios. É também padrinho da minha filha Carolina. Quando ele chegou ao Casa Pia pediu a minha contratação - o que não impedia de termos uma relação inteiramente profissional. Aliás, ele exigia-me ainda mais compromisso e profissionalismo por isso”, explica Bruno Simão ao i para contextualizar a relação entre ambos - que envolve ainda uma história deliciosa... e dolorosa (para Amorim): “Quando tínhamos 12 anos, peguei numa pressão de ar do meu pai e apontei para o Rúben a gritar: ‘Mãos ao ar, no chão já!’ (risos) Ele não se atirou ao chão e eu disparei! Depois caiu a chorar baba e ranho e eu a dizer-lhe: ‘Levanta-te, deixa de ser maricas, isso foi só ar’, porque eu pensava que não tinha chumbo. Afinal tinha e ele ficou ferido, com um chumbo na bacia durante anos, nem ressonâncias podia fazer. Um autêntico filme de terror!” (risos)

Agora, 15 anos depois de terem partilhado pela última vez o balneário, no Restelo, Bruno Simão reencontrou o amigo no papel de treinador estagiário. Um cenário que lhe foi apresentado desde o primeiro momento, como faz questão de frisar. “Quando cheguei, o Rúben apresentou-me ao míster José da Paz e disse-me: ‘Este será o teu treinador este ano e eu estarei cá para vos ajudar.’ Estas foram as palavras dele, lembro-me como se fosse hoje. Para o plantel, isso esteve sempre muito bem definido: o José da Paz era o treinador principal e o Rúben estava a estagiar com ele, era um colaborador - muito respeitado por todos pelo seu trajeto e história no futebol, claro”, garante Bruno Simão, justificando o facto de Rúben Amorim se ter levantado do banco para dar indicações aos jogadores nas ocasiões referidas pelo processo do CD com “a emoção do jogo”. “O Rúben ainda ‘ontem’ era jogador - tanto assim é que era dessa forma que lidávamos com ele nos treinos - e vive o futebol com uma paixão com que, se calhar, muitos não vivem”, salienta, considerando mesmo que o antigo jogador de Belenenses, Benfica e Braga está “claramente a ser alvo de um ataque pessoal”.

“De uma coisa eu tenho a certeza: o Rúben não vai ficar por aqui, estão a apenas a adiar o sucesso garantido que ele terá como treinador. Mesmo sendo, para já, estagiário, é muito culto futebolisticamente: a filosofia de jogo, a cultura tática e os processos de treino que tem são de um grande treinador. A experiência que ele passava para a equipa nos treinos, os conhecimentos... Quem não queria ter um estagiário como o Rúben Amorim?”, questiona Bruno Simão, frisando também o que considera ser uma diferença de tratamento das entidades que regulam o futebol nacional em relação a treinadores dos escalões profissionais. “Lembro-me, por exemplo, de quando o Paulo Bento estava no Sporting sem ter as habilitações necessárias. E tantos outros casos que acontecem ainda hoje: quantos treinadores da i e ii Ligas estão nos bancos sem as habilitações exigidas e se levantam e dão indicações aos jogadores? E quais são as punições para esses treinadores? Nenhumas! A nossa questão é esta: porquê este tratamento para com um estagiário no Campeonato de Portugal? O Rúben estava a finalizar o curso com este estágio. Onde está aqui a coerência e a igualdade, o respeito e consideração por um internacional português que participou em campeonatos da Europa e do Mundo? Aceito que há leis e regras, mas será motivo para isto? Será justo manchar o início de carreira de um jovem treinador que tanto deu ao futebol português por se levantar nos jogos? O Rúben não merecia isto, o José da Paz também não, e nós, jogadores, também não”, atira.

O tudo por tudo para a subida Por agora, o Casa Pia segue no segundo posto da Série D do Campeonato de Portugal, a três pontos do líder Praiense e com cinco de vantagem sobre Real e Oriental. Descontando os seis pontos retirados pelo CD, cairia para quarto, um ponto atrás dos conjuntos de Massamá e Marvila. Ainda assim, o plantel continua com uma crença férrea na chegada aos playoffs, de acordo com Bruno Simão. “Além de nos tirarem os treinadores, querem tirar-nos seis pontos que ganhámos no terreno de jogo, com muito suor e mérito. Os jogadores, que são o diamante do futebol, os atores principais do filme, não podem ser prejudicados por situações destas. Obviamente, tudo isto mexe com o grupo, mas demos a melhor resposta no domingo, com mais uma vitória - que dedicamos ao Rúben e ao Zé da Paz, que fizeram um trabalho fantástico aqui. Nós continuaremos a trabalhar e a dar a vida a cada domingo para vencer jogo após jogo e alcançar o objetivo traçado no início da temporada. O grupo é muito forte, recheado de grandes jogadores e, acima de tudo, grandes homens. Eu sou o segundo mais velho - ao que cheguei (risos) -, este é o meu 17.o clube, e a família que encontrei aqui foi das melhores que já tive no futebol. Assumimos um compromisso a 100 por cento com o clube e queremos retribuir com a subida de divisão, não queremos ser mais uma equipa do Casa Pia que esteve quase a subir (com o máximo respeito pelas anteriores)”, promete o defesa lisboeta.

Bruno Simão, de resto, lembra que vários elementos do plantel “não vivem apenas do futebol”. “Todos temos família, filhos, mulher, compromissos na vida, e uma situação destas pode deitar por terra todo um trabalho feito e planos de futuro para melhorias de vida. A retirada dos pontos é como se estivessem a tirar-nos dinheiro do bolso e sonhos, para alguns jovens jogadores com muito talento, de chegar a uma liga profissional. Tocaram-nos no orgulho e agora o grupo está e estará ainda mais forte até final do campeonato”, garante, revelando a promessa da direção: “Ainda não nos disseram quem será o novo treinador, mas disseram para estarmos descansados porque é alguém muito competente e rigoroso no trabalho e com experiência de ligas profissionais.”
 

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