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Joana Mortágua 24/01/2019
Joana Mortágua
Cronista

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Rosa para as meninas, azul para os meninos

Por todo o mundo, os ultras unem-se para fazer guerra à igualdade de género. A extrema-direita tem uma agenda que varia de acordo com as coordenadas geográficas, mas há coisas de que nunca abdica. Exigir a reversão das leis que garantem direitos às mulheres é uma delas

A frase é de Damares Alves, ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos. Num vídeo divulgado nas redes sociais, a ministra de Jair Bolsonaro anuncia “uma nova era no Brasil” em que “menino veste azul e menina veste rosa”. Mais tarde, a pastora evangélica veio esclarecer que pretendia apenas fazer “uma metáfora contra a ideologia de género”.

Também foi a dita “ideologia de género” que levou o partido de extrema--direita Vox a exigir ao Partido Popular o fim da lei de combate à violência de género como condição para apoiar o novo governo da Andaluzia. “Los españoles tenemos sexo, no género”, explicou o porta-voz Francisco Serrano. Na sequência veio a exigência de revogação da lei “para garantir os direitos, a igualdade de tratamento e a não discriminação das pessoas LGBTI” e de escolas segregadas por sexo. Exigências que o PP acabou por aceitar em versão suavizada.

Por todo o mundo, os ultras unem-se para fazer guerra à igualdade de género. A extrema-direita tem uma agenda que varia de acordo com as coordenadas geográficas, mas há coisas de que nunca abdica. Exigir a reversão das leis que garantem direitos às mulheres é uma delas. Porquê?

Desmontar a expressão “ideologia de género” ajuda-nos a encontrar uma resposta. Quando o ultra andaluz diz que os espanhóis têm “sexo mas não género” está a seguir a mesma doutrina que a Confederação dos Bispos do Brasil segundo a qual “as expressões género ou orientação sexual referem-se a uma ideologia que procura encobrir o facto de que os seres humanos se dividem em dois sexos”.

Para estes setores conservadores, os dois sexos representam a ordem natural, biologicamente determinada, hierarquicamente definida, que dita uma ordem social em que o sexo feminino é subordinado. Daí decorre a ideia de que a família é uma unidade social supra-História com papéis naturalmente atribuídos. As “meninas vestem rosa e os meninos azul” é a antecâmara de “as mulheres para a cozinha e os homens para o espaço público”. 

A compreensão dos papéis feminino e masculino como uma construção social que interage com os outros sistemas de poder, de dominação social e de exploração, seja o capitalismo, o colonialismo ou o racismo, foi essencial para desnaturalizar a desigualdade de género. Ao querer eliminar a expressão “género”, os ultras querem arrasar um século e meio de avanços lentos e sofridos no sentido da igualdade. 

É por isso que a igualdade de género enquanto desígnio civilizacional está hoje no epicentro da disputa com a extrema-direita. Para isso, é preciso não ceder na exigência de participação das mulheres em todos os campos institucionais e de representação política. Não aceitando que metade da população esteja sub-representada nos parlamentos, governos, administrações das empresas, academia. As alianças para esta agenda feminista são vastas e é desejável que assim seja - as políticas de quotas são apenas trincheiras de democracia.

Mas se acharmos que a igualdade se constrói apenas no campo formal da representação estaremos a corrigir uma das consequências sem ir às ramificações do patriarcado. E estaremos a deixar uma maioria de mulheres para trás. Todas as mulheres para quem, por serem pobres, negras, ciganas, trabalhadoras, estão reservados os piores empregos, os piores salários, a pior educação, os piores cuidados de saúde e todo o peso do trabalho doméstico. A igualdade material impõe um projeto de emancipação social que é incompatível com estados mínimos vergados à dominação financeira.

Fechando a porta à ideia da “fada do lar responsável pelas tarefas domésticas”, a igualdade de género tem de garantir que o conservadorismo não chega pela janela numa versão disfarçada de apoios do Estado social para manter as mulheres em casa. Não haverá igualdade sem a emancipação feminina, com direitos por inteiro.

Podemos preferir olhar para o lado, mas esta batalha com a extrema-direita está a ser disputada agora. E uma coisa é certa: se a perdermos, as primeiras a sofrer são todas as vítimas de agressões, violações e assédio sexual. Sem o reconhecimento da desigualdade de género não há vítimas nem agressores de violência de género, apenas pessoas que se envolvem em “conflitos”.

O desafio está aí, em criar um movimento feminista que resista à ofensiva dos ultras. Com uma certeza. Se não for amplo, plural e socialmente ancorado, não será suficiente.

Deputada do Bloco de Esquerda

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