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Salvaguardar a imagem de uma criança é “uma questão de bom senso”

Salvaguardar a imagem de uma criança é “uma questão de bom senso”

Dreamstime Rita Pereira Carvalho 22/01/2019 21:06

A propósito da divulgação das imagens dos filhos de Manuel Maria Carrilho, os especialistas garantem que “não é na pólis que assuntos que metem crianças têm de ser julgados ou comentados”

A partir do momento em que uma imagem é divulgada nos media, e sobretudo se forem de pessoas conhecidas, é quase impossível reverter a situação. Ou seja, uma vez na internet, a imagem poderá ser revisitada daqui a vinte, ou mais anos. E nem sempre os vídeos ou as fotografias são de situações positivas. Cada vez é mais comum ver situações de violência expostas nas redes sociais, sendo que quando envolvem crianças, a situação torna-se ainda mais sensível. O assunto voltou a estar esta semana debaixo de todos os holofotes com a divulgação de gravações dos momentos tensos em que Manuel Maria Carrilho entregava os filhos a Bárbara Guimarães.

O i falou com dois especialistas na área da psicologia infantil e, neste contexto, as ideias não divergem muito. Como explica a pedopsicóloga Ana Vasconcelos, os pais devem ser os primeiros responsáveis pelo bem estar das crianças e jovens e “há que responsabilizar os adultos”. Na mesma linha, o pediatra Luís Miguel Neves garante que “são os próprios pais que têm a obrigação e o dever, perante a criança e perante o seu futuro, de a salvaguardar”, e justifica que “mais tarde, essas imagens podem, de certa forma, condicionar a vida da criança no futuro de adulto”.

Mesmo quem não acompanha o caso mediático entre Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães, conhece, pelo menos, as suas linhas principais. Na última semana, a exibição de um vídeo que mostra os filhos do antigo ministro da Cultura a assistir a uma discussão entre os pais, expõe sobretudo a sua intimidade das crianças. 

E mesmo as crianças aparecendo com a cara desfocada, neste contexto, são facilmente identificadas, já que os pais são figuras conhecidas do público. Isto apesar de a lei prever que os órgãos de comunicação social “não podem identificar, nem transmitir elementos, sons ou imagens que permitam a sua identificação”.

“Há que perguntar a estes dois senhores o que é que eles pretendem”, esclarece Ana Vasconcelos e acrescenta: “Não somos nós técnicos que vamos buscar evidências científicas para explicar uma questão de bom senso que implica que esses pais interditem esse tipo de imagens e eles têm esse poder pela lei”. Feito o mal, e ainda em relação à lei, a pedopsicóloga admite que “neste momento não há lei que possa ajudar, porque [a sociedade] fica com uma consciência moral extremamente perturbada, porque há coisas que são da intimidade das pessoas”.

Impacto no futuro das crianças A partir do momento em que imagens em contexto de violência são exibidas, estas podem ser revisitadas mais tarde, sobretudo por essas crianças quando adultos. E, nessa altura, o impacto é semelhante ao “impacto que existe quando veem fotografias num álbum de família”, diz a pedopsicóloga. Esta perceção e as memórias podem divergir, até porque é difícil prever o futuro. No entanto, “tudo depende da maneira como os pais se portarem a partir de agora, é o resto da vida deles como progenitores que vai ditar como é que é”, explica Ana Vasconcelos. Uma vez divulgadas as imagens, é necessário que os pais se recolham e mantenham aquilo que é pessoal dentro da esfera da intimidade: “Se derem uma boa inserção dos miúdos na sociedade, com certeza que, eventualmente, eles poderão ter a compaixão e a clemência de dizer ‘olha que o meu pai e a minha mãe estavam mesmo maluquinhos de todo’”. 

Ao contrário, se as situações se repetirem, as crianças poderão “crescer com ressentimentos e com maus sentimentos de filiação face aos seus progenitores”. Neste ponto, é importante esclarecer que enquanto crianças, estão a desenvolver relações de vinculação, “e as relações de apego são postas em causa e deixam nas suas memórias marcas que podem vir a levantar imensos problemas”, diz Ana Vasconcelos. Ou seja, existe a hipótese de o jovem, ou o adulto, procurar formas de se defender quando se sente agredido pelos outros, da mesma forma que foi agredido quando criança. E aqui fala-se de qualquer forma de agressão – verbal, física ou psicológica. “Crianças batidas são pais que batem, crianças que foram violadas ou mal tratadas sexualmente, são adultos que podem vir a ser mal tratantes sexuais”, explica Ana Vasconcelos.  

O caso da semana passada, em que foram divulgadas imagens de crianças expostas a violência, sobretudo verbal, não é isolado. E coloca em causa o normal desenvolvimento da criança. No ano passado, um programa polémico chamado “Super Nanny” levantou questões idênticas. A divulgação da intimidade de várias crianças, supostamente pelo seu mau comportamento, teve o consentimento dos pais. E aqui, o esquema repete-se. No futuro, as crianças podem voltar a ver estas imagens e, nessa altura, “a criança não tem como reverter essa situação”, diz Luís Miguel Neves. O pediatra considera que “são situações muito delicadas que não têm como salvaguardar a consciência futura da criança, porque a criança ainda está numa fase de desenvolvimento, de crescimento e de construção da sua identidade”. Nesta linha, a criança pode confrontar o pai ou a mãe dizendo “que aquela situação acabou por trazer dissabores na sua vida em função das imagens e da sua mediatização”.

No fundo, como explica Luís Miguel Neves, “aquilo que é mediático hoje, terá os seus reflexos no presente e no futuro”. E, não sendo salvaguardada a intimidade das crianças, em qualquer que seja o caso Ana Vasconcelos diz que “se pode ir buscar a canção de Sérgio Godinho ‘é o primeiro dia do resto das nossas vidas’”. “Têm a vida toda à frente, a partir de agora, para se portarem bem”, conclui.

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