21/5/19
 
 
Marta F. Reis 18/01/2019
Marta F. Reis
Sociedade

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Olha a banda filarmónica a tocar na minha rua

O país tem mais de 700 bandas filarmónicas, cem fanfarras, 1200 escolas de música de amadores. É obra

Passei a semana com aquela música do “fon fon fon” dos Deolinda na cabeça, um retrato bem apanhado, como outras das canções do grupo que há uns anos trouxe uma lufada de ar fresco à música em português. Guardo aquela imagem resiliente da banda a tocar nas procissões da terra: a solenidade das marchas debaixo de um sol impossível de aguentar, quanto mais a tocar o que quer que seja, e eles todos aprumados nas camisas brancas e sapatos fechados, a cumprir o alinhamento, dos mais velhos aos miúdos, a tocar instrumentos às vezes maiores do que eles.

Cresci na periferia de Lisboa e nunca foi uma realidade de que estivesse muito próxima mas, no passado fim de semana – daí a cantiga –, calhou ir assistir ao concerto de Ano Novo da Sociedade Filarmónica Comércio e Indústria da Amadora. Se fosse um clarinete, um saxofone ou uns ferrinhos, ainda me safava, mas o grande protagonista do espetáculo era o eufónio. Tive de ir de socapa à Wikipédia ver o que era antes de desligar o telemóvel e poder dar uns ares de entendida com um “vem de euphonium, em latim, som bonito, o timbre é mais suave e redondo do que o trombone e também é conhecido por bombardino ou tuba tenor”.

Nunca tinha reparado na existência do eufónio e, se calhar, se agora me pusessem um à frente continuava sem o distinguir da tuba, mas o mais estranho é que nunca tinha visto atuar a sociedade filarmónica da cidade onde cresci. Nunca nos tínhamos cruzado. Nunca tinha entrado no auditório na Damaia onde foi o concerto, o Cine Teatro D. João v, uma sala enorme enfiada num prédio onde não imaginaríamos que pudesse haver um espaço com tão boas condições. Já o tinha escrito aqui, mas há tanto por descobrir nos subúrbios, se nos libertarmos daquela ideia de pensar que são meros dormitórios e que a agenda das cidades é que é forte, que nunca deixamos de nos surpreender.

Esta sociedade filarmónica, a SFCIA, completa seis décadas este ano e diria que foi um bom arranque. Pelo concerto em si. mas também pela mensagem que transmitiram. O espetáculo contou com dois solistas de eufónio, aluno e professor. Alfredo Leitão começou a tocar na banda da SFCIA e estuda hoje música clássica na Universidade de Berna – tem dado cartas, no ano passado ganhou o 2.o prémio no Concurso de Eufónio em Lieksa, Finlândia. Num almoço, desafiou o seu mestre de eufónio a vir a Portugal tocar com a SFCIA e Thomas Rüedi alinhou sem pensar duas vezes. Tocaram os dois com a banda, dirigidos pelo maestro Hélder Gonçalves, diretor artístico da SFCIA desde 2014, professor no Conservatório de Música de Sintra e também solista da Banda Sinfónica e Orquestra de Câmara da GNR. Além de peças mais populares, foi a primeira vez que foi tocado em Portugal um concerto para eufónio e banda de Oliver Waespi, o que exigiu um esforço redobrado ao coletivo composto essencialmente por jovens amadores.

Entre peças, partilharam com o público que nas bandas têm nascido muitos músicos profissionais, mas nem todos fazem questão de se manter próximos das suas raízes, quanto mais trazer ao grupo um músico internacional – crescer mas não se esquecer de onde se vem. Alfredo e os colegas organizaram uma masterclass com Thomas Rüedi para outros eufonistas do país – Alfredo não é o primeiro a ir estudar eufónio para Berna – e houve até quem viesse de Espanha. Estavam emocionados com o que tinham alcançado e com o que se pode alcançar quando se trabalha, se unem esforços e há uma família de amigos a apoiar. A banda não tem todas as condições, um dos instrumentos é emprestado pelo maestro. As edilidades falaram, mostraram-se empenhadas – um dos projetos da banda passa por levar música às escolas do município – e pediram também o envolvimento da sociedade civil nestes projetos comunitários, maior participação das empresas em iniciativas que promovem cultura mas também ajudam a dinamizar a cidade, e isso é bom para todos. Lembrou-se a certa altura, e se calhar é preciso lembrar mais vezes, que as bandas, com o seu lado mais pitoresco da mancha de tinto na camisa mas décadas de tradição, são parte da alma portuguesa e fatores de coesão no território, espaços intergeracionais onde se aprende e aprecia música, mas também onde se cresce em cidadania. Gostei de ver tocar a banda da minha rua, mudando um pouco os versos aos Deolinda. Bem sei que a “cena é eletroacústica e a moda a experimental”, ou outra que tal, mas, segundo dados da Confederação Musical Portuguesa, o país tem mais de 700 bandas filarmónicas, cem fanfarras e 1200 escolas de música de amadores. É obra.

Jornalista

Escreve à sexta-feira

 

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