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O que se passa com o polo norte magnético da Terra?

O que se passa com o polo norte magnético da Terra?

DR Marta F. Reis 17/01/2019 23:02

Desvio mais rápido do que o esperado obriga peritos a rever modelo em vigor desde 2015. Atualização estava prevista para dia 9 mas foi adiada devido ao impasse orçamental nos Estados Unidos 

“A paralisia orçamental nos Estados Unidos está a interferir com o norte”. A notícia surgiu nos últimos dias e, exageros à parte, há uma explicação: o polo norte magnético da Terra está a mover-se mais depressa do que era esperado e os investigadores contavam ter apresentado uma atualização do modelo que incorpora estas oscilações no início no ano, para evitar descalibrações nos sistemas de navegação. Um dos organismos responsáveis pelo processo é a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), que não escapou à paralisação orçamental nos Estados Unidos. Com a maioria dos funcionários de licença, a apresentação foi adiada para o final do mês.

O efeito do shutdown é assumido. Ontem não era possível abrir a página da NOAA dedicada ao chamado Modelo Magnético Global (WMM na sigla em inglês), que é usado para calibrar GPS ou softwares como o google maps, com a agência a garantir apenas projetos em que esteja em causa a proteção de vidas e bens. “O website a que está a tentar aceder não está disponível devido a uma falha na afetação de verbas”, podia ler-se. 

Se do lado da instituição não tem havido comunicados, um dos investigadores do projeto fez o ponto de situação à revista “Nature”. Não há razões para preocupações, mas o fenómeno tem estado a gerar curiosidade entre os cientistas que estudam o geomagnetismo da Terra. 

O planeta tem um campo magnético que funciona como um casulo que protege a Terra de radiação cósmica. Grande parte desta força é gerada pelo movimento de ferro fundido no núcleo do planeta. Comporta-se como um íman, com dois polos. Há mais de 200 anos os cientistas detetaram que o polo norte tende a movimentar-se, mas em 1900 o desvio começou a ser maior e nas últimas décadas intensificou-se, passando de 15 km/ano em 1900 para 55 km/ano na atualidade, numa deslocação de mais de mil quilómetros nos últimos 150 anos. Tem avançado do Canadá para a Sibéria, o que implica novas calibrações nos sistemas que recorrem a esta informação. É preciso saber com rigor onde está o norte magnético para que seja calculado o seu desvio em relação ao chamado norte geográfico da Terra, ou norte verdadeiro. 

Um dos mecanismos criado para acompanhar o fenómeno foi o Modelo Magnético Global. Os cálculos são revistos com intervalos de cinco anos e a última atualização aconteceu em 2015. Esperava-se que fosse válida até 2020 mas os investigadores perceberam nos últimos meses que teriam de fazê-la mais cedo.

“O erro está sempre a aumentar”, resumiu à “Nature” Arnaut Chulliat, da NOAA. Os investigadores ainda não perceberam exatamente o que se está a passar para a deslocação estar a acontecer mais depressa, mas admitem dois fatores para o atual modelo ter perdido viabilidade tão cedo. Por um lado, acreditam que ficou desatualizado pouco depois de ser lançado devido a um pulso magnético registado em 2016 debaixo da América do Sul. Por outro lado, a rapidez do desvio do norte baralha os cálculos. “A localização do polo norte magnético parece ser governada por duas grandes áreas do campo magnético, uma abaixo do Canadá e outra abaixo da Sibéria. A mancha da Sibéria está a ganhar a competição”, explica Phil Livermore, investigador da Universidade de Leeds, citado pela “Nature”.

Que impacto esperar? À “Nature”, Chulliat admitiu que a região do Polo Norte é a que acaba por estar mais vulnerável a erros. Já no blogue da British Geological Survey, organismo que colabora na revisão do modelo, o investigador Will Brown explicou há dias o trabalho que esteve em curso nos últimos meses. “Os polos movem-se, o campo fortalece e enfraquece, e o imenso campo magnético do Sol, carregado pelo vento solar, bate constantemente nele do lado de fora. O efeito de todas essas mudanças varia dependendo de quando e onde se está, abaixo ou acima da superfície. Os nossos modelos dissecam o campo que medimos nas suas diferentes partes, ou fontes, e fornecem um mapa que varia no tempo, até mesmo prevendo o futuro de algumas partes”, sintetizou. 

Num tempo em que dependêssemos apenas de bússolas, os efeitos de não saber ao certo onde está o norte magnético seriam maiores. Mas Brown explica que esta informação é algo que manuseamos diariamente, daí a importância de manter o modelo atualizado. “O WMM é o modelo magnético padrão usado para navegação por organizações como a NATO, o Ministério da Defesa e o departamento de defesa dos EUA, mas também por sistemas operacionais para smartphones como Android e iOS. Ao abrir uma app de mapas, pode ver uma seta a apontar para onde está a ir e há algo muito inteligente a acontecer. O seu telefone contém um magnetómetro que mede o campo magnético da Terra. Para ler essa informação é necessário um modelo de referência como o WMM para corrigir as medidas do norte magnético feitas pelo seu telefone para o norte verdadeiro”, exemplificou. A versão do modelo esperada este mês deve manter-se válida até dezembro, quando os investigadores esperam lançar uma nova revisão do modelo até 2025.

Um tema ciclicamente debatido é o cenário de inversão dos polos, fenómeno que terá acontecido pela última vez há 780 mil anos e que significaria maior vulnerabilidade do planeta a radiação, com efeitos drásticos na saúde e perturbação de comunicações. Um estudo divulgado em 2018 que analisou fenómenos de quase inversão nos últimos 50 mil anos concluiu que embora haja sinais de enfraquecimento do campo magnético, não se assemelham aos que precederam esses eventos, descartando assim uma inversão iminente dos polos.
 

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