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15 de janeiro de 1955. Quinhentos pombos à espera na cervejaria

15 de janeiro de 1955. Quinhentos pombos à espera na cervejaria

Dreamstime Afonso de Melo 15/01/2019 21:26

Pombos-correio! Digníssimos! Primeiro numa exposição na Trindade, em seguida no Museu das Belas Artes. Havia um campeão dos campeões: fizera 1010 quilómetros em Valência. Um maratonista do céu!

Dizia a velha lengalenga: “Monsieur de La Palice est mort/ Il est mort devant Pavie/ Un quart d’heure avant ça mort/ Il était encore en vie!”

Ora, como diria o célebre monsieur, há pombos e pombos. Uns chateiam a gente, dependurados nas empenas, a tentarem atingir-nos com aquilo que têm mais à mão, e que por acaso até lhes fica nas traseiras; outros são gente fina, se a expressão me é permitida, pombos de exposição e de levar correio de cá para lá, alguns até heróis de guerra.

Dizia o cronista, combalido: “Estavam um pouco tristes quando os visitámos, hoje de manhã, aqueles quinhentos pombos-correios, aliás muito lindos. O amplo salão da Cervejaria Trindade não é lá muito quente, manda a verdade que se diga. Por isso os pombos estavam um poucos murchos nas suas gaiolazinhas de arame, silenciosos, calmos e discretos, como convém a um pombo-correio que se preza.” 

Essa agora! Quinhentos pombos, por extenso, na Cervejaria Trindade?

Tem que se lhe diga, não há dúvida.

A resposta não teria a simplicidade de uma frase de La Palice, mas também não se envolvia de nenhum mistério digno do Repórter x. 

Esperavam.

Eram pombos à espera.

Numa exposição columbófila do distrito de Lisboa - uma das exposições regionais que se tinham realizado por todo o país para apurar os selecionados para a Grande Exposição de Pombos-Correio do Palácio das Belas Artes, que deveria em seguida designar os que iriam estar presentes em representação de Portugal num certame internacional que iria ter lugar em Barcelona.

Eu não disse que há pombos e pombos? Uns a caírem de fraqueza nas pedras da calçada dos bairros da capital e outros entre a cervejaria e o museu.

Exigências Ah! Mas estes pombos privilegiados também tinham de passar pelas passas do Algarve, calma lá. A classificação era exigente e dividia-se em várias categorias: estética, cabeça, olhos e expressão geral (na gaiola); ossatura geral, forquilha, externo, traseira, asa, rabo e qualidade de plumagem. Uma passagem de modelos de pombos! E o júri que lhes olhasse para os rabos como costuma fazer, despudoradamente, nas passagens de modelos das misses de todos os lugares de todo o mundo.

Até havia um grande favorito, imaginem. Descrito assim: “Papo erguido, olho vivo, que quando nos aproximamos faz inchar a plumagem de um azul-metálico do papo e os tons negros do pescoço nervoso. Tem o maior recorde: 1010 quilómetros num voo iniciado em Barcelona, há três anos!”

Pois, pois... um pombo campeão!

Corria pela Sociedade Columbófila do Centro de Portugal. Orgulho nacional. Com penas...

Mas havia outros com registos impressionantes. Um deles assim para o pequenino, pardo, de tons plúmbeos nas asas, que tinha feito os 750 quilómetros de Valência del Cid, os 780 quilómetros de Saragoça e os 550 quilómetros da Corunha. Um pequeno pássaro para enormes distâncias. Como se fosse maratonista do céu.

Nada disto se fazia sem pompa (não confundir com sem pomba). A inauguração da exposição estava marcada para as 14 horas do dia 15 de janeiro de 1955. Presente, como convidado de honra, o governador civil de Lisboa. A seu lado, os comandantes da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana. Eram esperadas outras entidades igualmente garbosas, como o comandante da Polícia Marítima.

Os pombos, esses, queimavam o tempo nas gaiolas. E o tempo também queimava porque estava um inverno inusitadamente quente em Lisboa. Afinal, o local da exposição nem podia ter sido mais bem escolhido. O visitante chegava afobado, ia vendo as avezinhas, apostando nas que lhe pareciam em melhor forma, e de vez em quando pousava o cotovelo no balcão pedindo uma cerveja bem tirada.

Quinhentos pombos-correio e nem um convite ao diretor-geral dos CTT? Isso sim, parecia verdadeiramente estranho. Talvez porque os pombos não precisassem de selos.
 

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