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Por fim uma homenagem: “Ode Triunfal” censurada em manual de Português

Por fim uma homenagem: “Ode Triunfal” censurada em manual de Português

Diogo Vaz Pinto 14/01/2019 18:07

Alunos do 12.º ano chibaram-se depois de se darem conta de que o manual da Porto Editora lhes tinha sonegado alguns versos do poema de Álvaro de Campos

Faz mais de um século, o número inaugural de Orpheu deu para o incómodo, algum estardalhaço e suspeitas, mas falar num escandâlo seria ter para referência medidas um tanto provincianas, quando o que houve mais foi chacota nos jornais de Lisboa. A Fernando Pessoa ou a Álvaro de Campos, e aos outros, chamaram-lhes degenerados, paranóicos, maluquinhos, destinando-os a Rilhafoles. Isto em março de 1915, quando a “Ode Triunfal” esteve entre os gritos nesse espantoso coro que da Orpheu fez um decisivo passo das vanguardas. Hoje, quando os mesmos versos são entoados como um enfebrecido “Pai Nosso” nas missas escolares, com tantos palmos de terra em cima, e depois da canonização literária, se lidos em sociedade, alguns continuam a apresentar as unhas um pouco grandes, e é natural a tentação de ir lá com um corta-unhas. Chega-se ali ao verso 153 e damos com “automóveis apinhados de pândegos e de putas”, mas, se isso ainda escapa, o que dizer, um pouco mais abaixo, dos versos 169 e 170, quando o poeta tem o descaramento de ver as filhas de gente ordinária e suja, que, aos oito anos (credo!), “masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”. E se tal indecência ainda fosse só uma constatação... mas pelo meio o javardola ainda o exalta, dizendo-nos que o acha belo e que o ama. Raios o partam!

Assim se justifica que, ao reproduzir o célebre poema num dos manuais escolares de Português do 12.º ano, da Porto Editora, prudentemente, os autores – Noémia Jorge, Cecília Aguiar, Miguel Magalhães – tenham optado por rasurar os três versos da versão dirigida aos alunos, mantendo-os na versão do professor, para que este decida se deve abordar na sala de aula estas passagens que “têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia”. Isto lê-se no comunicado em que a Porto Editora vem explicar os critérios usados na edição do manual “Encontros”, depois da notícia do “Expresso”, que no domingo avançava a perplexidade de uma turma de 12.º ano – e sublinhe-se que é miudagem que entrou já na maioridade ou está à beira disso – ao identificar a omissão dos versos no manual quando escutou uma versão áudio da “Ode Triunfal”. Expoliados, parece que os putos não se contiveram, deram com a boca no trombone. Na versão higienizada do poema não havia direito a ver passar os automóveis apinhados de pândegos e de putas, e no que toca a mexer com pedofilia é o que se sabe.

Agora, abra-se o livro no capítulo da ingenuidade dos educadores. Seja que livro for, desde que instruído nas coisas do mundo, e vamos saber o que é que miúdos de 18 anos têm a aprender dos professores, ou a ensinar-lhes, no que toca ao género de coisas sórdidas que não deixam de colorir e perturbar a ordem. Impôs-se a “preocupação didático-pedagógica” ao respeito pela integridade do poema. Porquê? No seu comunicado, a Porto Editora diz que “a diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”. E ainda adianta: “Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.”

Aí está, preto no branco, o perigo: a possibilidade de o poema ser fator de desestabilização ou raptar a atenção dos alunos. E mais, com as palavras do poeta, poderíamos exclamar: Se a obscenidade não o fosse! E se o poeta não houvesse mandado às malvas tão grandes cuidados, mas se tivesse ficado pela cauta sentença que acena de longe às coisas do mundo, ao invés de ir investigar com os sentidos úteis e mais à flor do idioma, talvez houvesse sido só mais outro funcionário, entregando-se diligentemente ao pecado, o verdadeiro, diz Valéry, que é escrever para um público, então não haveria nem Pessoa nem Campos para ninguém, nem o do colapso nervoso, e da existência absurda que de um fio puxa e faz desabar toda esta tão recta e sensaborona existência, e nem o depravado, que podia encher a boca, e ficar-se por essa “noite abolida onde, ferido, o assassino conversa com o seu crime”. 

Ao i, Vasco Silva, editor dos quatro costados, “nome indissociável da edição de Fernando Pessoa”, disse que considerava tudo isto um “disparate”. Que se queriam aquele poema, não lhe viessem cortar as unhas, e se era demais o desconforto que podia causar na sala de aula, então que fossem buscar outro. Lembrou que na edição das “Poesias de Álvaro de Campos”, da Ática, que saiu em 1944, e possivelmente com o fundado receio de que fosse apreendida, também as “putas” passaram em pontas, percebendo-se o que lá estava, mas limando a garra. Já o verso 170 foi todo ele à vida, à semelhança do que agora se fez. E aproveitando a aberta, o editor chamou-nos a atenção para uma passagem das “Páginas de Estética e de Teoria Literárias”, que incluiu na recente edição que preparou para a E-Primatur – “Não Cites Pessoa em Vão” –, em que o poeta lembra que “a arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais”. E, para que não subsistam dúvidas, remata: “A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo.”

Mas se, por uma vez, e ainda que involuntariamente, Pessoa foi alvo de uma homenagem sentida e honesta, já que, sem reais constrangimentos que a isso obrigassem, se viu censurado, decidiram fazer-lhe as unhas para não causar perturbação da ordem nas salas de aula do país, talvez valha a pena pensar numa alternativa à “Ode Triunfal”. A “Saudação a Wal Whitman” seria uma hipótese, pela forma como exalta o predecessor: “De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,/ Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,/ Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,/ Concubina fogosa do universo disperso,/ Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas/ Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,/ Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,/ Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,/ Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,/ E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus! (...)”

 

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