23/1/19
 
 
Rodrigo Alves Taxa 11/01/2019
Rodrigo Alves Taxa

opiniao@newsplex.pt

Me liga, vai!

Um político não tem de ser, nem a sociedade atual o deixa ser, um intocável. Não pode ser um qualquer eremita enclausurado no seu palácio de cristalde onde ninguém possa sequer ousar aproximar-se

Na semana passada escrevia eu neste mesmo espaço de opinião que aos políticos mais se exigia neste 2019 que agora entra e que dentro destes igualmente se encontrava o Presidente da República. De resto, confesso que quando o escrevi, embora convencido que já estou faz tempo que este tipo de Presidência se torna cansativa, nunca julguei possível assistir ao que se passou esta semana. Falo, naturalmente, do telefonema presidencial para um determinado programa televisivo que depois se repercutiu, ao que parece, num outro telefonema similar.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, dizer que pese embora não seja adepto deste tipo de Presidência, ou pelo menos naquilo que considero os seus excessos, nada tenho contra um Presidente da República poder telefonar a quem quer que seja por qualquer motivo que considere na sua ótica oportuno. É que não tenho mesmo. Assim sendo, não só não sou dos que bradam aos céus por Marcelo ligar a um apresentador de televisão a desejar sorte para o seu novo programa como nem sequer entro no jogo que se ouve agora de que, com isso, o próprio entra até no despique entre televisões pelo posto cimeiro de share. Parece-me exagerado. O meu problema é outro.

Chama-se banalização dos mais altos cargos da nação, o que, a meu ver e, admito, ao contrário de muitos, só banaliza as instituições e o próprio país. E, aqui, talvez me volte a repetir. Um político não tem de ser, nem a sociedade atual o deixa ser, um intocável. Não pode ser um qualquer eremita enclausurado no seu palácio de cristal de onde ninguém possa sequer ousar aproximar-se. Mas isso não significa que, no caso, um Presidente da República deva e, a meu ver possa, por tudo e mais alguma coisa, fazer notar a sua presença. Satura e, sobretudo, como digo, torna-se banal, quase corriqueiro. Neste caso concreto, dizendo eu o que já disse atrás, sou da opinião de que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ter feito na mesma os telefonemas que fez mas em privado.

Tenho para mim que se pode ser simpático, interventivo, atento e genuinamente bom homem sem que se tenha de andar constantemente a publicitar esses atributos. Não é preciso. E quando assim acontece, poderei estar a ser injusto, mas parece-me que o objetivo deixa de ser uma proximidade genuína com todos, mas, ao contrário, que todos sintam uma proximidade que é, em muitos casos, fabricada. Quer queiramos quer não, quer gostemos mais ou menos, as responsabilidades profissionais, neste caso institucionais, que determinadas pessoas possam ter, sendo verdade que não as devem limitar ou alterar em termos de personalidade, devem pelo menos fazê-las perceber que, em certas coisas, têm que reformular, na forma, as suas aparições públicas. Marcelo Rebelo de Sousa parece ainda não ter percebido que não deixou de ser quem sempre foi, mas que agora é também Presidente da República Portuguesa. E isso, repito, começa já a ser maçador!

 

Escreve à sexta-feira
 

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