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Leonor Teles. “Tenho de me sentir sempre implicada nos filmes”

Leonor Teles. “Tenho de me sentir sempre implicada nos filmes”

Mafalda Gomes Cláudia Sobral 11/01/2019 08:45

Depois de “Balada de Um Batráquio”, a estreia da realizadora nas longas faz-se com um documentário, “Terra Franca”, que chega hoje às salas 

Albertino, o pescador em torno do qual se vai desenrolando “Terra Franca”, o documentário que marca a estreia de Leonor Teles na longa-metragem, sempre esteve lá. Descoberta foi aquele dia em que, à boleia para uma praia ali na zona de Vila Franca de Xira, onde nasceu e cresceu a realizadora, Leonor Teles se meteu num barco com ele. Aí aparecia, ainda nem “Balada de Um Batráquio” ou “Rhoma Acans” sequer existiam, aquela imagem que faria não só o cartaz mas toda aquela sucessão de planos que percorre esta hora e 20 de filme. Este homem, sozinho, naquele barco. Um homem que a Leonor Teles não parece - e não será, seguramente - deste tempo. Um homem que pertence ao rio. Àquele rio, o Tejo, que atravessa Vila Franca de Xira. Se, em “Rhoma Acans”, o seu filme de escola, filmou um conjunto de raparigas ciganas questionando-se sobre a vida que poderia ter sido se o seu pai, cigano, não tivesse quebrado a tradição ao casar-se com uma mulher que não era, e em “Balada de Um Batráquio” desatou a partir sapos (símbolo do preconceito contra aquela minoria), também “Terra Franca” se relaciona com a história de vida da realizadora. É afinal dali, naquela terra partida por aquele rio, que vem.

O plano do Albertino que faz o cartaz é também um desses planos que fazem um filme, e que é recorrente neste. Aquele homem sozinho no seu barco, aquele homem no rio, à pesca, sozinho contra tudo. Esta imagem tem tanta força que dá a ideia de que também tu a tens contigo desde o primeiro momento de “Terra Franca”.

Desde a primeira vez que andei de barco com ele. Já conhecia o Albertino, andei com a filha dele na escola. Houve um dia em que tive de ir filmar uma coisa a este sítio, que se chama Praia dos Cavalos, isto já em 2010 ou 2011, e fui de barco com ele, foi o Albertino que me deu boleia, e desde então essa imagem não me saiu da cabeça. Porque quando andei de barco pela primeira vez com ele, quando ele me deu essa boleia, fiquei assim inebriada com essa figura quase heroica de alguém que está verdadeiramente no seu habitat natural. Senti mesmo que ele pertencia ao rio. 

E como é que essa imagem do Albertino no barco se transformou num filme?

Isso foi uma coisa que também surgiu naturalmente. A partir do momento em que comecei a ir à pesca com ele, todos os dias praticamente, muito rapidamente comecei a perceber que havia um outro lado do Albertino que também devia fazer parte do filme, que era a família. Então, de uma forma bastante natural e gradual, comecei a entrar também em casa deles. 

Dizes que começaste por o acompanhar todos os dias na pesca. Como foi o processo deste filme e durante quanto tempo filmaste?

Filmei durante dois anos. Houve muita coisa, que foi o dia-a-dia deles, que depois se organizou na montagem, e houve outras coisas que foram reencenadas com base em coisas que tinham acontecido em momentos em que eu não estava lá. E falávamos. Se era preciso filmar alguma coisa, falávamos sobre qual era o objetivo da cena, e a forma como eles lá chegavam era com eles. Quis manter sempre o máximo de naturalidade possível. 

E filmaste durante dois anos…

Sim. E depois, ao mesmo tempo que estava a montar, ia filmando algumas coisas que eram precisas. Por exemplo, era preciso uma pesca de inverno: se não tínhamos, íamos filmar. Para mim era importante também esta coisa da passagem do tempo. 

O tempo, e o passar do tempo, é algo muito presente em “Terra Franca”. Damos a volta a um ano completo ao mesmo tempo que quase não damos por esse ano a passar, exceto pelos detalhes. Parece-te que isto vem um pouco da forma como filmaste, dessa imersão que fizeste na vida daquela família?

A ideia era essa, era fazer as coisas tal como elas são, como elas acontecem naturalmente. Nós vamos mudando de roupa ao longo do ano. 

Porque era importante para ti que o filme tivesse este tempo?

Uma hora e 20?

[Risos] Um ano.

[Risos] Foi aquilo a que me propus, e que lhes propus a eles, porque acho que um ano na vida de uma pessoa é o mínimo que podemos ter para sentir algumas mudanças. Um ano era um ciclo: o que acontece num ano numa família? Um ano permitia-nos assistir às transformações físicas que existem no espaço, como a mudança de roupa, a mudança da vegetação, a mudança da luz, a mudança da fauna, e achei que era o tempo certo para vivermos isto e entrarmos na vida deles. E isto também em termos de fatores psicológicos: quais são os acontecimentos que ocorrem que podem mudar aquilo que achávamos que seria sempre assim?

O que a certa altura acontece na vida do Albertino acaba por trazer a este filme um lado político também. “Terra Franca” funciona também como retrato de um país e da forma como não só a crise mas as medidas que foram sendo tomadas ao longo dos anos afetam a vida das pessoas. Essa alteração a que assistimos aconteceu realmente enquanto estavas a filmar?

Sim. Aconteceu mesmo tudo. 

Esse problema na vida do Albertino, e desta família, consequentemente, que entra literalmente pelo filme e ajuda a fazê-lo, de certa forma, ao acrescentar--lhe uma outra camada ainda de realidade absolutamente avassaladora.

Mas isso é a magia do documentário: quando acontecem coisas que são muito melhores do que aquelas que tínhamos imaginado.

Queres falar um pouco sobre o que o que foi acontecendo que não estava de todo previsto veio acrescentar à história que estavas a contar?

Acho que é uma coisa que está lá. Não a um nível tão presente como no meu filme anterior, no “Balada [de Um Batráquio”] mas obviamente que está lá. E que fala de uma classe média que está a ficar cada vez mais pobre. Mas esse não é propriamente o primeiro plano do filme: isso são leituras que veem de camadas que as pessoas podem ler ou não ler. Aí deixo ao critério de cada um. 

Levanto esta questão porque, a partir do momento em que o Albertino recebe aquela notícia, isso é um peso que está sempre latente, um peso que ele carrega e que carrega até ao final. A partir daí é como se nada do resto pudesse voltar a ser como antes. A realidade muda o Albertino e é impossível ignorarmos isso. 

É o que acontece quando de repente nos tiram o nosso ofício, aquilo que mais gostamos de fazer, uma coisa que é essencial ao nosso equilíbrio. Ficamos um bocadinho perdidos. 

Mas estarmos a ver isto acontecer num documentário tem um poder muito diferente de estarmos a assistir à mesma coisa numa ficção, por mais que também na ficção as histórias possam estar ancoradas numa realidade muito concreta. “Terra Franca” é a vida deste homem a acontecer no momento em que estás a filmá-lo. 

Foi uma sorte, no ano em que fui filmar, terem acontecido uma data de coisas que nunca pensei que pudessem acontecer.

Como o casamento de uma das filhas, também. 

Sim, o casamento também. Quando comecei a filmar não sabia que eles se iam casar. 

Sente-se que há uma proximidade muito grande entre ti, que os filmaste, e aquela família. De qual das filhas do Albertino és amiga?

Da mais nova. 

Optaste por fazer um documentário como primeira longa porque te interessou fazer esta história em particular ou porque à partida pode ser mais fácil financiar um documentário do que uma longa como primeira obra?

Isso de as pessoas acharem que para se fazer um documentário é preciso menos dinheiro é uma falácia. É mentira. Se for filmar uma longa de ficção, dão-me dinheiro e posso filmá-la em seis meses. No “Terra Franca” estive três anos e meio a trabalhar, dois deles em rodagem. Porque é que isto implica menos dinheiro? Se calhar implica menos meios, mas não implica menos dinheiro. Porque depois, quando é para finalizar um filme, o dinheiro que me cobram nos estúdios é exatamente o mesmo. Que é um balúrdio. Estive três meses a fazer montagens de som e depois misturas, e não foi barato. 

Achas que essa ilusão…

Acho que é uma ilusão porque, hoje em dia, os filmes estão cada vez mais complicados. Aquilo que acho que tem de haver e que não existe é uma adequação dos orçamentos aos projetos e à maneira de produção dos mesmos, que é uma coisa que não acontece. Existem bitolas de valores e pronto. 

Ia tocar justamente nesse ponto: se essa ilusão de que falas não virá do facto de os tetos máximos dos apoios públicos atribuídos pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual a longas de ficção e a documentários serem tão díspares, umas cinco ou seis vezes menos [de 600 mil euros para 80 mil].

[Os apoios] são muito baixos: quando ganhei [o concurso] era de 80 mil. Agora aumentou um bocadinho, já é 90 mil. Não estou a dizer que não haja documentários que se possam fazer com 80 mil euros, obviamente que há, mas também há documentários que precisam de mais dinheiro. Tal como se calhar há filmes [de ficção] que se fazem com 40 ou 50 mil euros. Depende muito do tipo de projeto, mas também do tipo de produção que se quer fazer. Por exemplo, eu sabia que precisava de estar lá pelo menos um ano. Que não podiam ser três meses. 

A questão não passa só pelo exemplo que deste do aluguer de um estúdio. É essa questão do tempo de que cada filme precisa para ser feito também.

Claro. Mas, ao contrário de algumas pessoas, eu não sou apologista de que se deva viver exclusivamente do cinema. Acho que em Portugal isso é impossível, porque há mais realizadores do que dinheiro para fazer filmes. É impossível. É para alguns privilegiados que conseguem isso. A maior parte das pessoas não conseguem. 

Voltando à pergunta que ia fazer-te: fizeste um documentário e escolheste este filme para primeira longa porque querias fazer um documentário ou porque foi o filme que veio?

Sim, foi o filme que veio. Inicialmente até era para ter sido uma curta, mas depois, com os temas que se queria que fizessem parte do filme, com o facto de eu querer estar um ano com aquela família, percebemos que tinha de ser maior. 

Em relação à banda sonora, a escolha daquelas músicas, em inglês, acaba por nos transportar para um lugar um bocadinho fora dali, da realidade daquele lugar, mas que é ao mesmo tempo o lugar onde está o Albertino. 

Para mim, aquelas músicas têm um feeling muito semelhante ao do Albertino. Transportam-me para um sítio de nostalgia que acho que tem tudo a ver com ele. Sinto que o Albertino não é um homem deste tempo, não é um homem do agora. É um homem que existe agora mas que pertence a outro tempo. A maneira como ele vive, a maneira como ele encara o mundo fazem-me sentir que ele não é de agora. E acho que aquele tipo de músicas tem muito esse feeling, essa aura, essa magia que ele também tem. E a partir do momento em que eles escolhem aquela música para a música do casamento [“Coming Home”, de Leon Bridges], pensei: “Why not, para o resto do filme?” Até porque não sinto que a música portuguesa me desse para isto de que eu precisava.

“Balada de Um Batráquio” era um filme quase punk. Na altura em que recebeste o Urso de Ouro em Berlim por essa curta já estavas a trabalhar neste filme e lembro-me de me teres dito, ao telefone, que era um projeto documental em Vila Franca de Xira e que não tinha nada a ver com aquela curta anterior. Como é que, já um ano depois de ter sido premiado no Cinéma Du Réel, olhas agora para este filme depois dos anteriores - se é que fazes esse exercício, de olhar para trás e tentar perceber como é que uns filmes levam aos outros?

A mim interessa-me fazer aquilo que sinto. Interessa-me pensar sobre para onde vou, não me interessa minimamente…

Estar a olhar para o que já foi. 

Tem muito a ver com o que estou a sentir no momento, com qual é a inquietação, a urgência que estou a sentir, o que naquele momento me está a afligir, basicamente. E depois trabalho sobre isso. E há outra coisa: sinto que cada filme tem a sua própria forma e que o que devo é ouvir o filme para perceber aquilo de que ele precisa, em vez de chegar e simplesmente aplicar uma fórmula que funcionou num filme anterior a achar que vai funcionar no próximo. Não. Não me interessa repetir processos. Interessa-me aprender sempre mais, tentar melhorar e tentar chegar mais longe - e ir arriscando. Sinto que é isso que devo fazer. Mas não é uma coisa em que esteja a pensar muito, de “vou por aqui porque acho que devo ir por aqui”. É mais uma coisa de intuição e de instinto. Não penso assim tanto sobre o que vou fazer a seguir ou não. Acho que é uma coisa que vai surgindo naturalmente. Não sei fazer as coisas de outra maneira. Para mim, os filmes são sempre particulares e têm de ser pessoais: tenho de me sentir sempre implicada nos filmes.

E se formos à procura de uma unidade entre os teus filmes talvez seja esse o primeiro lugar a que vamos dar. De formas diferentes, todos eles são um pouco sobre ti. Neste caso, o lugar.

O sítio onde nasci. Também tem muito a ver com as pessoas que vou encontrando e que também quero filmar, que me apetece filmar. Pessoas pelas quais me apaixono e sinto “é desta pessoa que devo falar”. Também é importante perceber que os filmes nascem destas relações que criamos com as pessoas que conhecemos e que temos vontade de filmar. 

Um filme, para ti, vem mais de uma pessoa do que de um tema, então.

Sim. Tem a ver com as relações. O “Balada de Um Batráquio”, se calhar, foi um tema, o “Terra Franca” tem a ver com o sítio de onde vim, mas também o Albertino e aquela família. 

Transversal a estes dois filmes é uma ideia de liberdade qualquer, mesmo que assuma formas muito diferentes num e noutro. Se “Balada de Um Batráquio” é um filme que grita por uma libertação, “Terra Franca” pode ser livre na forma como te aproximas da história ou como deixas que ela te chegue - a liberdade que quiseste dar-lhe, no fundo.

Acho que tem a ver com essa tal liberdade que me dou a mim de querer ouvir os filmes para perceber aquilo de que precisam. De ir experienciando, vivendo, sentindo, e perceber que devo ir por aqui ou por ali. Isso é uma sorte que tenho, felizmente: a liberdade para fazer os filmes da forma que eu quero. Não ter ninguém a impor-me isto ou aquilo. Isso é um privilégio, uma sorte incrível. Acho que tem a ver com isto de achar que é mesmo preciso saber ouvir aquilo de que os filmes precisam.

Dizias que te interessa o que está para a frente. Depois das duas primeiras curtas e deste “Terra Franca”, sabes já para onde queres ir a seguir? Ou o plano é continuar a viver, simplesmente?

Para já, acho que sim, que também preciso de viver um bocado, porque os filmes também têm de dizer isso, a experiência das pessoas. Não pode ser só querer fazer e depois não saber como. Acho que agora também preciso de me dar esse espaço de ir viver para ver se eventualmente aparece alguma coisa. Também não vou fazer filmes só porque sim, isso nunca. 

Mas quando recebeste o Urso de Ouro em Berlim caiu-te esse peso todo em cima de, de repente, deveres fazer qualquer coisa a seguir.

Claro que caiu. O “Terra Franca” foi continuar a fazer o meu trabalho. Foi meter os pezinhos na terra e pensar só “ok, isto é bom porque vai ajudar-me a arranjar dinheiro para fazer o filme”, e continuar a fazer o meu trabalho. Acho que se não tivesse o “Terra Franca” me tinha sentido um pouco perdida. Porque depois há esta coisa de porem expetativas em cima das pessoas, de não haver espaço para falhar… Caramba. 

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