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América. A quimera do ouro só não teve espaço para a dança dos papo-secos

América. A quimera do ouro só não teve espaço para a dança dos papo-secos

DR Afonso de Melo 10/01/2019 21:31

De Pelé a Eusébio; de Toni, Manuel Fernandes e Jordão a George Best; de José Henrique a Gordon Banks; de Beckenbauera Humberto Coelho, Messias e até Vítor Baptista só por um jogo

Pelé em primeiro lugar: muito bem. Mas não só. A lista poderia dar uma página quase por completo. Querem ver? Carlos Alberto, Franz Beckenbauer, Johan Cruyff, Gordon Banks, George Best, Roberto Bettega, Roberto Boninsegna, Alan Brazil, Horst Blankenburg, Giorgio Chinaglia, Teofilo Cubillas, Deyna, Trevor Francis, Archie Gemmill, Jimmy Green-hoff, Bruce Grobelaar, Mark Hateley, Bern Holzenbein, Geoff Hurst, Joe Jordan, Salif Keita, Rudi Krol, Ladislao Kubala, Jean-François Larios, Peter Lorimer, Lozano, Lou Macari, Bobby Moore, Gerd Müller, Johan Neeskens, Resenbrink, Gigi Riva, Roberto Rivelino, Romerito, Sekuralac, Graemme Souness, Suurbier, Luis Suárez, François Van Der Elst, Van Hanegem, Zmuda, e mais e mais e mais.

Ufa! Limitei-me aos mais conhecidos. E, ainda assim, que campeonato de qualquer país do mundo pode gabar-se de, durante 16 anos, ter visto passar tantas estrelas e tão cintilantes, muitas ao ponto de cegar? Nenhum outro. Entre 1968 e 1984, a América foi como o filme de Charlie Chaplin “A Quimera do Ouro”. Só não chegou ao Klondike, ao contrário de Douglas Fairbanks e Mary Pickford, mas podia muito bem ter tido uma dança dos pães, a cena mais icónica da película.

Como é evidente, os portugueses também partiram em busca da sua quimera. Ainda por cima porque, entretanto, com o 25 de Abril, pôs-se um fim abrupto à tal lei da opção que amarrava os jogadores aos clubes quase eternamente. Mas expliquemos igualmente algo sobre o advento desta febre futebolística surgida numa região do mundo na qual o jogo inventado pelos bretões nunca teve grande projeção. Sob a organização da American Soccer League (ASL), já tinha havido uma época dourada nos Estados Unidos, na fase final dos anos 20. Não durou muito. Não tardou que a FIFA fosse assoberbada com queixas de clubes europeus que acusavam os americanos de lhes virem roubar muitos dos seus jogadores. A ASL não resistiu à pressão. E o futebol mergulhou de novo no amadorismo até ao aparecimento da North American Soccer League (NASL), em 1968, motivada pelo enorme sucesso popular que as transmissões dos jogos do campeonato do Mundo de Inglaterra, em 1966, tiveram um pouco por toda a América do Norte. 

O primeiro passo para que se estabelecesse uma verdadeira competição nacional - ou internacional, se considerarmos que os clubes canadianos estavam igualmente comprometidos - passou pelo entendimento entre a ASL e a NASL. Em seguida, e quase diria infalivelmente, houve a introdução de várias americanices que pudessem não só entusiasmar os espetadores como atrair a atenção da cadeia televisiva CBS, que surgiu como primeira parceira da NASL. Mais uma chatice: os responsáveis pela CBS pressionavam a comissão de arbitragem a forçar faltas constantes de forma a ganharem minutos mortos para a inserção de publicidade. Ah, pois! América é América!

Um cronómetro digital com os números a diminuírem do 90 para o 0; uma linha de fora-de-jogo aos 32 metros; grandes penalidades para decidir jogos que terminavam empatados; bónus de pontuação para cada golo marcado: eis ao que os jogadores idos da Europa tinham de se habituar. O profissionalismo não era absoluto. Muitos dos jogadores norte-americanos mantinham trabalhos paralelos. As médias de espetadores mantiveram-se baixas, entre os 10 mil e os 15 mil (o que já era considerado bom para os organizadores) e só com a avalanche de grandes nomes, como já vimos logo no início deste texto, começaram a subir significativamente.

A chegada de Pelé ao Cosmos de Nova Iorque revolucionou a história do futebol nos Estados Unidos. Mais de 10 milhões de pessoas seguiram em direto, pela televisão, o seu jogo de estreia: dia 15 de junho de 1975, no Downing Stadium, contra o Dallas Tornado. No ano seguinte, a ABC decidiu assumir a transmissão de toda a época. A partir do momento em que o alemão Franz Beckenbauer passou a ser companheiro de Pelé no Cosmos, as assistências do Giants Stadium, em East Rutherford, New Jersey, atingiram picos únicos, de quase 50 mil.

Portugueses A febre do ouro americano não tardou a encantar os portugueses. Os pioneiros emigraram logo no início da década, com destino ao Canadá, onde os clubes de Toronto e Montreal lhes abriram as portas. O primeiro grande nome do futebol lusitano a chegar foi José Henrique, o popular Zé Gato do Benfica. 

Fundado em 1956 pela comunidade croata de Toronto, o Metros Croatia seria um nome importante na vida do futebol norte-americano. Em 1976, Eusébio, que já tivera uma experiência no Boston Minutemen, de onde passou para o México, para Monterrey, por influência do seu antigo treinador no Benfica, Otto Glória, levou os “croatas” ao Soccer Bowl, ou seja, ao título de 1976, juntamente com gente como Ivan Lukacevic, Ivan Grjna, Filip Blaskovic ou Zelijko Bilecki. Infelizmente, os americanos não estavam muito dispostos a ter como campeões uma equipa composta por tanta gente natural da Croácia, nessa altura parte integrante da Jugoslávia. Os meios de comunicação raramente tratavam o Toronto por Toronto Croatia e houve pressões para que os seus proprietários mudassem de nome. O clube acabou por se desmembrar, passando a ter uma equipa na NASL chamada Toronto Blizzard e remetendo o Croatia para os torneios amadores, da responsabilidade da ASL. 

Eusébio viria a saltitar um pouco por toda a América e voltou a atuar, ainda que brevemente, por outra equipa da comunidade croata, esta de Chicago, o Red White and Blue Adria, nome que remete obviamente para as margens do Adriático. O seu grande amigo António Simões foi outro viajante digno de um livro de Jack Kerouac. De San Jose, na Califórnia, a Dallas, no Texas; de Independence, no Kansas, a Boston, no Massachussets. E voltaram a jogar juntos, tal como tinham feito tantos anos no Benfica e na seleção nacional (e durante três meses no União de Tomar), no Boston Minutemen.

Já outro antigo benfiquista, Diamantino Costa, que passou pela Luz entre 1966 e 1977, conseguiu lugar numa equipa mais exótica, o Team Hawai, de Honolulu, na ilha de Oahu. Recorde-se que os clubes eram todos franchisados, pelo que tanto mudavam de nome como mudavam de cidade. Foi o caso deste, transplantado do Texas, onde se chamava San Antonio. 

Em Foxborough, Norfolk County, Massachussets, juntou-se uma parceria leonina, com Jordão, Manuel Fernandes e Artur (que saíra do Benfica dois anos antes), que fez companhia a Alexandre Alhinho no New England Tea Men. Já em Rochester, o contingente de 1976 a 1979 incluiu o mesmo Manuel Fernandes, Artur Jorge, Messias, o Costa da Académica e do FC Porto, Ibraim, Eurico Caires, João Pedro, Jorge Calado e Victor Móia, Manafá e Messias.

Ninguém parecia escapar à atração da quimera. Seninho jogou no Cosmos depois de uma rábula nunca perfeitamente contada que meteu um jogo frente ao Manchester United que o fez passar à frente de António Oliveira na preferência dos americanos, que se tinham deslocado à Europa para ver um jogo do FC Porto. Com Humberto Coelho e Toni foi também o irrequieto Vítor Baptista. Assinou pelo San Jose Earthquakes mas, como de costume, fez das suas. Por isso, a NASL regista-lhe, nos seus impecáveis arquivos, apenas um jogo realizado. Fez as malas e foi para o Amora.
 

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