23/1/19
 
 
António Rodrigues 07/01/2019
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

Um homem perigoso

O novo ministro das Relações Exteriores brasileiro está disposto a teorizar sobre todo o mal que Jair Bolsonaro possa vir a fazer. Recompensa para quem o tirou da obscuridade.

O discurso de tomada de posse de Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores do Brasil é um documento extraordinário, pela forma como descreve as mudanças na política externa brasileira que aí vêm, mais ainda pelo retrato do homem que Jair Bolsonaro foi buscar para chefiar a sua diplomacia.

Sobre a política externa sistematiza um discurso patrioteiro, povoado de referências clássicas, de entroncamento europeu, sobretudo português, místico e messiânico (Dom Sebastião, Dom Quixote), onde só faltou escrever por extenso que o Brasil quer cumprir o vaticínio do Padre António Vieira e construir o Quinto Império.

“Precisamos recuperar o papel do Itamaraty [sede do Ministério das Relações Exteriores] como guardião da memória brasileira”, lembrar que se trata de “um santuário” ou “uma espécie de túnel do tempo, onde os heróis estão vivos, os heróis famosos e os heróis anónimos, onde nós convivemos com os descobridores, com Alexandre de Gusmão, José de Anchieta, com D. João vi, com os imperadores e as princesas, com os bandeirantes e os abolicionistas, com os seringueiros e garimpeiros e tropeiros que construíram essa nação.”

Ernesto Araújo até arranja forma de colocar o mito do sebastianismo no mesmo patamar do mito Bolsonaro, Messias de seu nome do meio: “O mito ensina a não ter medo, e é curioso que o mito é o mito e, no momento atual, o mito é o apelido carinhoso que o povo brasileiro deu ao presidente Bolsonaro.”

Falando em amor à pátria, num país universalista que pretende ter coisas importantes a dizer ao mundo, a alinhar com governos ideologicamente próximos, como EUA, Israel, Hungria, Polónia e “os países latino-americanos que se libertaram dos regimes do Foro de São Paulo”, o ministro das Relações Exteriores do Brasil garante que o grande problema do mundo, hoje, não é a xenofobia, mas a “oikofobia”, que define como ódio ao próprio povo e repúdio do seu passado, e a “teofobia”, ou o ódio a Deus.

Deus, pátria, família (no sentido mais alargado de povo brasileiro, ou melhor, o povo brasileiro que votou em Bolsonaro) contra o globalismo, esse ogre que “se constitui no ódio” e com “ramificações ideológicas” contra a nação e a natureza humana: “Nós vamos lutar para reverter o globalismo e empurrá-lo de volta ao seu ponto de partida.”

“Nós queremos levar a toda parte o grito sagrado da liberdade, eleuthería. Esse foi o primeiro grito de guerra do Ocidente em seu nascimento, na batalha de Salamina, Eleutheroûte Patrída. Libertai a pátria”, leu o ministro.

Ernesto Araújo poderia dizê-lo de outra maneira, mas não podia ser mais eloquente no que pretende impor como política externa do Brasil – melhor, o que Bolsonaro quer como política externa do Brasil. Porque ele está disposto a colocar toda a sua verve, toda a sua eloquência pomposa de “professor de Latim frustrado” ao serviço da revolução ideológica em curso no Brasil.

Há no longo discurso do ministro uma falsa modéstia ressentida de quem foi condenado pelas suas ideias à obscuridade dos cargos intermédios do Itamaraty, que se cansou de ver as suas opiniões ultradireitistas rejeitadas pelos seus pares na carreira diplomática e que agora se banqueteia na satisfação de se ver, por fim, recompensado.

Mesmo não sendo o ideólogo do regime, como tanto gostaria (cargo reservado a Olavo de Carvalho, que não deixou de referir no discurso como sendo, a seguir a Bolsonaro, “o grande responsável pela transformação que o Brasil está vivendo”), por lhe faltar carisma e incapacidade para cativar com o seu discurso, Araújo mostra-se como um soldado obediente ao serviço da revolução bolsonariana, pronto para emprestar as suas capacidades intelectuais para justificar com referências qualquer decisão do governo, por mais extremista que seja.

Ernesto Araújo pode não ser o Giovanni Gentile do Brasil, mas acredita que poderá ser pelo menos um Roberto Farinacci. E não se vai poupar nos elogios ao político que ousou trazê-lo para a luz: “Graças a essa extraordinária equipe ministerial que o presidente Bolsonaro criou com um espírito de harmonia e um sentido de missão sem precedentes. Quando digo extraordinária me excetuo, porque não quero falar de mim mesmo. Estou falando dos outros 21 ministros.”

Nem se poupará nas falsas modéstias. Porque o que este discurso nos mostra é uma pessoa cheia de si mesma, inchada de citações, e no original, a fingir um recato que soa a falso. No discurso de tomada de posse, cita em grego, em latim, em tupi, e diz algo como isto: “Eu não conheço nenhuma outra língua antiga, não conheço tantas, enfim, não conheço hitita, não conheço sânscrito.” Quando o que realmente está a dizer é “eu sei muitas línguas antigas, só não conheço aquelas que não vale a pena conhecer”.

Mais perigosos que os políticos de extrema-direita com pouca profundidade intelectual são os professores de Latim frustrados que se julgam merecedores de grandes destinos. É desses que devemos realmente ter medo, porque têm sempre a citação pronta para justificar o injustificável.

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