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Colômbia. A guerra às drogas não dá sinais de resultar

Colômbia. A guerra às drogas não dá sinais de resultar

AFP Photo Ricardo Cabral Fernandes 06/01/2019 15:55

Os Estados Unidos elogiaram a política do governo colombiano no combate às drogas, mas a verdade é que o país nunca produziu tanta cocaína como hoje: mais de 1300 toneladas por ano, segundo as Nações Unidas 

Ainda que estejam preocupados com o aumento de produção de cocaína na Colômbia, os Estados Unidos elogiaram a política de combate ao narcotráfico do presidente colombiano, Iván Duque. “Os EUA continuam profundamente preocupados com o aumento do cultivo e produção de cocaína na Colômbia desde 2013”, disse o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, depois de se ter encontrado com o chefe de Estado colombiano em Cartagena, na Colômbia. “Continuaremos a trabalhar lado a lado consigo, senhor presidente, para alcançarmos os objetivos conjuntos de reduzir o cultivo e produção de coca em 50% entre hoje e 2023”, referiu. 

Por sua vez, Duque anunciou que o seu governo erradicou pelo menos 80 mil hectares de plantação e prevê superar esse número em 2019, ultrapassando os 100 mil. 

A Colômbia é hoje o maior produtor mundial de cocaína, produzindo mais que o Peru e a Bolívia juntos, o segundo e terceiro maiores produtores. Operações militares, apoio financeiro para a compra de armamento e treino militar, dispersão de pesticidas, não foram capazes de travar a expansão do narcotráfico naquela região, sobretudo na Colômbia. 

Segundo dados do Gabinete de Drogas e Crime das Nações Unidas, 171 mil hectares na Colômbia são usados para cultivo da planta de coca que serve de base à cocaína – num aumento de 25 mil hectares (25%) relativamente a 2016. E, em consequência, calcula-se que a produção de cocaína para exportação chegou às 1379 toneladas em 2017, um aumento de 31% face ao ano anterior. Um mercado colombiano de 2,7 mil milhões de dólares (2367 milhões de euros), alimentando uma gigantesca economia paralela. 

Números que contrastam com os do Gabinete Nacional da Política de Controlo de Drogas dos EUA: os hectares de cultivo de cocaína subiram de 188 mil, em 2016, para 209 mil em 2017, com a produção de cocaína pura a subir para as 921 toneladas, aumento de 19% relativo a 2016 nas contas norte-americanas.

A Colômbia, que tinha perdido entre 2011 e 2012 a liderança da produção mundial para o Peru, tem subido a produção desde então. De mais de 300 toneladas de cocaína pura produzidas, chegou a  710 toneladas em 2016, com o número de hectares a acompanharem a subida da produção.

Uma produção destinada na sua quase totalidade à exportação, já que no mercado interno só 0,7% consome cocaína  – está no 34.º lugar no mundo. A tabela de consumo é liderada pela Albânia, seguindo-se a Escócia, Estados Unidos (grande mercado para a cocaína colombiana), Inglaterra e País de Gales, segundo dados da ONU. 

A diminuição e depois aumento exponencial do cultivo da planta na Colômbia estão diretamente relacionados com o acordo de paz entre a o grupo guerrilheiro das FARC e o governo colombiano. Depois da desmobilização das FARC e a sua transformação em partido político, a produção diminuiu, mas o vazio deixado pela organização paramilitar foi rapidamente ocupado por outro grupo guerrilheiro, o Exército de Libertação Nacional, por gangues paramilitares e bandos rurais conhecidos como bacrim. Entraram nos territórios que antes pertenciam às FARC e começaram a cultivar a planta. Fizeram o mesmo que as FARC tinham feito na década de 1990, depois da morte de Pablo Escobar e o desmantelamento do cartel de Medellín pelas autoridades colombianas e norte-americanas. E o posterior desmembrar do cartel de Cali.

Ao mesmo tempo, o governo colombiano avançou com um programa de destruição de colheitas com um pesticida – o glifosato –, com o apoio de Washington e da multinacional Monsanto, destruindo tanto plantações de folha de coca como as de outros produtos agrícolas. Pelo meio, aumentou o  cancro nas zonas fumigadas, obrigando o governo a recuar nessa tática, mas só depois de restarem 48 mil hectares de cultivo em 2012. Mas não demorou até que as plantações fossem deslocadas para parques nacionais, reservas indígenas e zonas fronteiriças, fugindo temporariamente ao radar das autoridades. No entanto, diz a Reuters, Duque pondera voltar a essa velha e nociva tática, ao mesmo tempo que avança com novas operações militares. 

O uso de pesticidas foi apenas um dos vários eixos do apelidado Plano Colômbia, parceria entre Washington e Bogotá concebida em 1999 para combater o narcotráfico. Os seus objetivos eram claros: fornecer apoio militar e logístico às forças armadas colombianas para erradicarem as FARC e também o cultivo da coca, então principal fonte de receita da organização. Há, no entanto, quem acuse o programa de não ser mais que uma estratégia para erradicar os grupos de esquerda, ao mesmo tempo que legitima o aumento da presença norte-americana na sub-região.

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