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Exponoivos. "Esta é uma indústria que trabalha com as emoções e como tal tudo é possível"

Exponoivos. "Esta é uma indústria que trabalha com as emoções e como tal tudo é possível"

DR Carolina Brás 06/01/2019 14:55

O diretor da feira fala sobre as mudanças que a indústria dos casamentos tem sofrido. Hoje faz-se o que for preciso para transformar os sonhos em realidade

A Exponoivos celebra agora 25 anos. Qual o balanço que faz desta caminhada e das mudanças na indústria dos casamentos?

Ao longo destes 25 anos acompanhámos todo o crescimento e maturação da indústria do casamento em Portugal. Estamos a falar de questões sociais e económicas e naturalmente houve picos altos e baixos, como em qualquer indústria. Quando iniciámos o projeto, em 1994, a indústria praticamente não existia. Aliás, funcionava apenas na base do passa a palavra, quem ia casar ou estava a preparar o seu casamento fazia-o em locais familiares ou de pessoas conhecidas. Nessa altura, a maior parte dos casamentos começaram a ser feitos em restaurantes ou hotéis. A partir do final do século passado, a tendência inverteu-se e hoje 80% dos casamentos são feitos em quintas com espaços que permitem estes casamentos. Claro que quando falamos de casamentos estamos a falar de emoções e o pensamento é sempre proporcionar a quem casa um dia único e memorável. Na realidade, foi essa a questão que permitiu a consolidação desta indústria. Antes da feira, eram os noivos que iam à procura do que precisavam e funcionava sobretudo à volta das páginas amarelas e dos relacionamentos que tinham. Hoje a indústria, passando por todas as crises que nós passámos, soube-se adaptar à realidade das pessoas, tanto económicas como sociais. É uma indústria completamente consolidada e sólida e que consegue transformar sonhos em realidade. 

Mas a verdade é que esse momento único é por alguns vivido mais que uma vez. Portugal é já um dos países com maior taxa de divórcios da Europa e muitas pessoas voltam a casar. Esta é uma realidade cada vez mais presente nos últimos anos? 

A realidade dos divórcios já faz parte da nossa cultura, mas a verdade é que, sim, as pessoas acabam por se casar outra vez. Temos fenómenos sociais completamente diferentes do que tínhamos há 25 anos. Não só nos divórcios, mas também na questão da faixa etária. Há 20 anos os noivos tinham 24 ou 25 anos quando casavam, hoje a idade média ronda os 30, 32 anos, o que permitiu uma operação total do ponto de vista da mentalidade e do ponto de vista cultural. Os casais optam agora muito mais por pôr em primeiro lugar a vida profissional antes de pensarem no casamento, o que traz uma mudança de paradigma relacionada com o volume de negócios que a indústria fatura. Há 20 anos, um casamento custaria à volta de 10 ou 15 mil euros por casal com 100 convidados: o que acontecia era que os pais e os padrinhos estavam dispostos a investir e organizar o casamento, e suportar os custos. Atualmente, a realidade é completamente diferente, uma vez que são os próprios noivos, porque já tem condições económicas para isso, a decidir, comprar e pagar o casamento, o que também os obrigou a serem muito mais exigentes, a pensar fora da caixa e a procurar aquilo que é diferente.

E esta diferença no que diz respeito às escolhas dos noivos obrigou a que a indústria se adapta-se ou a que os noivos se adaptassem à indústria?

Sem dúvida que obrigou a indústria a adaptar-se a esta nova fase do mercado que evoluiu muito em termos de inovação, de produto, de serviço. É o que faz com que esta indústria seja resiliente. Se formos a pensar, há 20 anos tínhamos um número de casamento por ano em Portugal que rondava os 80 ou 90 mil; hoje estamos a falar de 33 ou 34 mil casamentos por ano... Esta é uma indústria que, acima de tudo, trabalha com a emoção das pessoas e como tal tudo é possível. Muita coisa mudou, tanto em termos de inovação, de conceito de moda, de espaços, de catering, de fotografia e até nas próprias viagens de lua-de-mel. Neste momento falamos de 45 subsetores ligados ao casamento. E aqui também a Exponoivos teve um papel muito importante porque veio proporcionar a estas empresas uma plataforma de negócio e permitir aos noivos num curto espaço de tempo poder organizar de forma eficiente o seu próprio casamento. Esse binómio tem sido o binómio do sucesso.

Podemos então dizer que a Exponoivos teve um papel importante na consolidação desta indústria em Portugal?

Eu acredito que sim até porque é uma feira – infelizmente existem poucas em Portugal e no mundo – com longevidade. Isto só acontece porque o mercado existe e tem necessidade que este tipo de eventos exista. Qualquer modelo de negócio tem o seu objetivo, mas nós fundamentalmente trabalhamos para o mercado e o mercado dita as regras. O mercado exige que exista uma feira em que, logicamente, tentamos todos os anos mudar, inovar e ser diferentes. Entendemos o mercado, entendemos as necessidades do mercado, até porque a necessidade dos noivos é completamente diferente com o passar dos anos, portanto tentamos adaptar-nos todos em conjunto, nós e as empresas que participam nas feiras, para que possamos ter a melhor oferta possível. Para que possamos proporcionar aos noivos a organização do casamento de uma forma racional e única.

Ao longo dos anos a vontade dos noivos tem mudado o mercado? Está pronto para ter cada vez mais diversidade de procura?

É como lhe digo: o mercado adaptou-se às necessidades dos noivos. Aquela influência que os pais ou padrinhos tinham já não é tão notória. São os noivos que ou através da informação que está disponível na internet ou aproveitando a facilidade que têm de chegar à informação acabam por ter contacto com outra realidade e procuram aquilo que querem de diferente. As próprias empresas conseguiram adaptar-se tanto do ponto de vista do espaço como da organização do evento. Quando estamos a falar de casamentos temáticos ou casamentos na praia, por exemplo, estamos a dizer que tudo aquilo que o nosso imaginário possa pensar pode ser organizado, como um casamento medieval. Por exemplo, aquilo que era a fotografia tradicional dos noivos e dos convidados, em que se faziam as provas na altura do casamento, já foi ultrapassado e hoje trabalha-se muito mais no digital, muito mais focado nos interesses dos noivos e na parte de inovação e artística. Já se usam drones, por exemplo. Os próprios convites usam materiais mais sustentáveis do que antes. Procura-se sempre surpreender os convidados. No que diz respeito à lua-de-mel, há 20 anos era tradição os casais irem à Madeira ou ficarem em Portugal, hoje logicamente vão para sítios paradisíacos e já são inclusivamente organizadas viagens especificamente para jovens casais. Tudo aquilo que a nossa imaginação pode permitir é o que a indústria consegue oferecer e a realidade de oferecer aos noivos o casamento de sonhos é muito importante.

Há ofertas para todos os gostos, mas, e para todos os bolsos?

Este mercado conseguiu ser resiliente mesmo em tempos de crise. O número de casamentos baixou porque o poder de compra que as pessoas tinham na altura da crise era complicado, mas foi uma indústria que se conseguiu reinventar, conseguiu criar conceitos de casamentos low-cost para todas as bolsas e portanto, exceto em função do número de casamentos, não foi um mercado que se tenha ressentido relativamente a essa matéria e sempre conseguiu, mesmo em termos da própria feira, reinventar este conceito. Para quem casa, a questão financeira não é tão importante quanto se possa pensar. Obviamente que os noivos são mais exigentes, mas a realidade é que as pessoas já têm um outro poder de compra quando se casam e no fundo querem organizar uma festa que seja também uma forma de partilhar com os seus amigos, os convidados e família, um momento que para eles será único. Hoje há muitas ofertas para muitas formas e muitos conceitos. Um casamento tem um custo médio de 25 mil, considerando produtos ou serviços essenciais para uma base de 100 pessoas. É claro que o número de convidados também diminuiu, o que vai de encontro com a racionalidade dos noivos, mas é uma indústria que fatura cerca de 800 milhões de euros por ano, o que tem um peso importante da nossa economia. 

As prioridades estão a mudar, mas ainda há quem cumpra a tradição e prefira esperar até ter dinheiro para casar e começar uma vida em conjunto?

Para o bem e para o mal estamos numa sociedade consumista e, como tal, o espírito de poupança é algo que já praticamente não existe. É difícil poupar para alguma coisa, a sociedade é muito consumista no imediato. Prefiro dizer que as pessoas são mais racionais nesse aspeto e logicamente que, quando têm poder para casar, dão um passo em frente. O que acontece hoje é que os casais que se querem casar já têm outra estabilidade porque optaram pela vida profissional e por se juntar muitas das vezes, o que lhes permite ter outra condição económica. Há quem espere para poder casar, mas a escolha do casamento passa mais pelo lado emotivo. Até porque os serviços como o catering vão de encontro ao que os casais estão dispostos a investir no casamento e eles mostram-se exigentes na procura. E isso, mais uma vez, obrigou o mercado a movimentar-se de uma forma diferente.

Além de todas essas mudanças, hoje vivemos numa era cada vez mais digital. Acredita que as fotografias do casamento de alguém que seguimos nas redes sociais pode ter influência na nossa forma de olhar para o casamento?

Claro, na realidade há muito esse impulso de tentar ser diferente e único. Só para ter uma ideia, nos Estados Unidos e em alguns países ocidentais, há o hábito de se alugar o vestido de noiva. Como é só para um dia, se pensarmos, tem lógica. Para nós, na nossa cultura, e somos muito latinos nessa matéria, é impensável uma noiva alugar um vestido de noiva porque todas querem um vestido que tenha sido desenhado ou quase imaginado só para si. Não quer dizer que a produção não seja também uma indústria, mas no fundo todos aqueles detalhes e pormenores têm de ser desenhados à imagem da noiva, ninguém a compra por pacote ou no pronto-a-vestir. Consoante as coleções lançadas no início do ano, as empresas têm de ter a capacidade de se adaptar ao imaginário da noiva. Hoje tudo é costumizado, se é que assim podemos chamar.

No que diz respeito aos casamentos em sim, além de ser um dos países com maior taxa de divórcio da Europa, Portugal têm também assistido a um aumento dos casamentos por parte de casais homossexuais. Este crescimento é sentido na indústria dos casamentos? 

Sem dúvida que se nota esse crescimento. A questão é curiosa porque têm importância no setor. Lembro-me que a lei que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada no dia em que inaugurámos uma feira e a realidade é que muitos jornalistas me perguntaram na altura o que tínhamos de diferente para casamentos entre pessoas do mesmo sexo e eu respondi sempre que não tinha nada de diferente, porque se tivesse estaríamos a discriminar. Houve sim uma necessidade de adaptar o mercado. É um facto que o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem vindo a evoluir e numa taxa na ordem dos 20 a 25%, portanto é uma fatia importante para as empresas que se souberam adaptar a estas necessidades e interesses. Na Exponoivos temos muitos casais que nos visitam e é mais um negócio para esta indústria até porque são pessoas, regra geral, com algum poder de compra e muito mais exigentes. Logicamente são um nicho de mercado importante que veio ajudar a alavancar o setor e as indústrias souberam adaptar-se a isso. 

E quanto aos turistas? Portugal está no top dos melhores destinos turísticos. Há muitos estrangeiros que escolhem o nosso país para o casamento?

É um fenómeno a que se tem vindo a assistir nos últimos anos. Há muitos anos que, principalmente no norte da Europa, entendem Portugal como um destino de casamento, sobretudo a região do Algarve, por uma questão de custo e clima. Estamos a falar de casos em que um casamento de classe média baixa pagava menos numa semana no Algarve com 200 convidados do que na Irlanda. Como tal, muitas empresas no sul de Portugal, principalmente na hotelaria, aproveitaram esse nicho de mercado, e bem, e divulgaram essa área. Hoje esse mercado está cada vez mais apurado e como Portugal está na moda temos de aproveitar os benefícios de ter uma oferta diferenciada da que existe na maior parte dos países, principalmente no sul de Espanha e França. Durante anos e anos vendemos sol e praia, mas isso toda a gente tem, nós conseguimos diferenciar-nos um pouco e temos um país repleto de turistas e não só no Algarve. Hoje Portugal é não só um destino turístico, mas um destino turístico de determinado tipo de nichos e o casamento é um deles, é um negócio. Para lhe dar um exemplo, quando falamos do Brasil aquilo que o brasileiro entende de Portugal é diferente do que acontecia há seis ou sete anos. Hoje o brasileiro vem a Portugal e descobre um novo mundo, já deixou de ser a terrinha, como lhe chamavam. Neste momento, estamos até a desenvolver um projeto cujo objetivo é aumentar os casamentos de brasileiros em Portugal, porque detetámos que há uma parte da classe média alta que procura aquilo que é diferente e já vê Portugal como diferente face a destinos como Estados Unidos ou Itália, e casar aqui sai até mais barato do que casar no Brasil. Queremos com este projeto dar apoio aos wedding planners que preparem casamentos de brasileiros em Portugal porque o mercado brasileiro é muito diferente do nosso. Enquanto no nosso são os noivos que decidem e que procuram o que querem em função da sua capacidade, os brasileiros entregam a organização do casamento para estes wedding planners. Hoje há uma grande apetência para vir casar a Portugal e esperamos que nos próximos anos os casamentos de brasileiros cresçam na ordem dos 10 a 15%.

Podemos então dizer que o mercado brasileiro tem uma expressão maior do que qualquer outro?

Ainda não, mas rapidamente terá. Atualmente é o mercado do norte da Europa que, sem dúvida nenhuma, está mais consolidado em Portugal. Daqui a uns anos, muito provavelmente será o Brasil um destes mercados, até porque estamos a falar de um milhão de casamentos por ano só no Brasil. Este crescimento vai também permitir às empresas combater a questão da sazonalidade e poder oferecer condições diferentes daquilo a que estão habituados. Não só porque está na moda, mas também porque temos excelentes profissionais e excelentes serviços, Portugal já é reconhecido por toda a gente. É mais um mercado que pretendemos abrir.

E, por falar em mercado, ainda dentro da temática da organização do casamento, acredita que há uma preocupação cada vez maior com questões secundárias e acessórias?

Até pela faixa etária, como lhe disse há pouco, os casais têm uma perceção diferente do que tinham no passado e estão muito mais exigentes e preocupados com aquilo que é prioritário do que com o que é acessório. Normalmente aquilo que é acessório fica para segundo plano. Se hoje as pessoas são muito mais racionais do ponto de vista da exigência e do custo, também o são na hora de escolher onde gastar. É óbvio que há muito produto novo que vai aparecendo todos os dia. Só para ter uma ideia: hoje o gin está na moda, toda a gente bebe gin, e há já empresas que põem um veículo dentro do casamento para servir gin aos convidados. Embora seja um negócio acessório, é algo que pode marcar a diferença. É lógico que isto faz de um casamento único e que parte de cada um saber se é acessório ou não.

Os 25 anos da Exponoivos ficaram então marcados por todas estas mudanças. Com uma nova edição quase a começar, quais são as expectativas e o que há de diferente?

As expectativas são positivas. Aumentámos em termos de área e de expositores e em termos de público acreditamos que vamos ter um crescimento considerável, tanto em Lisboa como no Porto. Investimos um pouco nas redes sociais, portanto é lógico que esperamos ter bastante gente. Por outro lado é também uma efeméride que nos orgulha e temos um programa interessante. Na cerimónia dos 25 anos vamos contar com manequins que passaram pela nossa história, empresários e pessoas que hoje são caras conhecidas da televisão, como a Carla Matadinho, a Rita Pereira ou a Fernanda Serrano. Temos também um espetáculo com Fernando Pereira. Iremos ter um desfile inclusivo, baseado na importância que tem para nós a responsabilidade social, que passará a mensagem de que o casamento é para toda a gente independentemente do género, da raça ou da cor, e como tal vamos ter pessoas com deficiências, mais fortes, casais do mesmo sexo, etc., a desfilar. Vão à passerelle para mostrar que todas as pessoas se podem casar.

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