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Djaimilia Pereira de Almeida. O calcanhar daquilo

Djaimilia Pereira de Almeida. O calcanhar daquilo

Teresa Carvalho 02/01/2019 13:28

“Feliz Natal, mestre Aquiles. Está quase em Lisboa a nossa caravela”. Os votos (e os desejos frustrados) - já atrasados - são de Cartola de Sousa, a figura marcante do novo livro de Djaimilia Pereira de Almeida, um romance pós-colonial que nos embarca numa viagem sem regresso. Ao contrário da nau Catrineta, não tem muito que contar. O talento da autora repousa na própria escrita

Aristóteles disse só meia verdade quando propôs que as tragédias servem essencialmente para nos purgar. A verdade é que elas servem também para nos entreter, para nos divertir, e até para nos proporcionar uma forma perversa de felicidade, um estranho prazer experimentado diante da desdita e do tombo dos protagonistas, de quem nos compadecemos (pobrezito!, ó infeliz!) mas que nos sabe bem ver cair - e de quanto mais alto melhor. O segundo livro de Djaimilia Pereira de Almeida, “Luanda, Lisboa, Paraíso”, publicado pela Companhia das Letras, mostra-nos que nem só de muito alto se pode cair fundo. 

Para Cartola de Sousa e o filho Aquiles, angolanos chegados a Lisboa em junta médica para fazer frente a um problema ortopédico, o cume dos anos passados em Portugal (que entretanto arrumara as caravelas no museu do património nacional) foi o casamento do pedreiro da obra onde ambos trabalhavam, que convidou Cartola para padrinho. A queda, que acompanhamos como um desastre em câmara lenta, esconde-se na portada, a exibir um título carregado de cálculo irónico. O infortúnio - que vai da cabeça aos pés - começa no nome das duas personagens principais, combustível para uma tragédia a que a cidade das sete colinas estenderá as achas. 

Como o seu homónimo, também este Aquiles é agarrado pelo calcanhar, que alcança honras de abertura (“Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar”), e é em cima dele que todo o enredo, curto, se alicerça. O meio onde o corpo deste Aquiles mergulha é que não lhe traz nada de bom. Ele não “o de pés ligeiros”: a rapidez é nele um fingimento dolorido. Mas epítetos não lhe faltam: na escola é o “Botinhas”; mais tarde, há de calçar-lhe uma alcunha menos caridosa: “o Aquiles, aquele preto coxo”. Anónimo e invencível na solidão, Aquiles não é propriamente o negativo do herói máximo da Ilíada, mas mais facilmente se aproximaria de um Eneias a que faltassem a missão, a tentação do amor, o futuro: “Quando deu por si, era um homem e tinha o pai às costas”. 

Se um nome fosse um jogo de correspondências, Cartola seria um desses mágicos à antiga, ciente da sua identidade. No caso, o nome é uma espécie de acessório sem valia. Aparentemente, tem a inutilidade das coisas sem préstimo. É desajuste, desconcerto, falha. Quando muito, uma homenagem ao passado como as primeiras estrofes que decorou d’ “Os Lusíadas”. A Lisboa dos anos 80, não lhe deixou coelhos para sacar. Apenas lacunas embaraçosas, ecos de ausências, sonhos esvaziados como balões furados, penúrias que se instalam com a força do “fatum”. Passes de mágica, apenas quando põe a dançar desejos, aspirações cujo acanhamento nos comove: uns sabonetes de lavanda, uma pulseira de ouro, uns ganchos comprados na Praça de Espanha para atender às solicitações da mulher que ficou, entrevada, em Luanda, “O prazer não alcançado, mas apenas entrevisto […] a viagem de mota que gostava de ter feito com Aquiles; as aulas que sonhava ter conseguido continuar a pagar-lhe, tivesse o filho querido continuar a fazer o curso […] uma mesa a uma janela para fazer rabiscos à secretária; a viola que gostava de ter aprendido a tocar e um serão à volta de uma fogueira com os amigos”. E também um chapéu novo e um lote de terra nos Prazeres. O único truque que Cartola domina é dormir para iludir a fome. Ele é o próprio coelho tirado da cartola da ficção, dócil e esfolado pelo trabalho na construção civil clandestina: “É sexta-feira, mas Mota não paga”. Entre a terra prometida e a vida vivida abre-se um abismo de margens negras onde, como por decoro, o sangue não corre. 

O Paraíso - ou melhor, a Quinta do Paraíso, um lugarejo a caminho de Caneças, Odivelas, onde com o filho habita um casebre que terá o mesmo destino de Tróia - não é mentira ou ilusão: Cartola acha-se a viver nele, a ser parte dele, a acumular logros e desilusões, a adaptar-se àquele inferno como luva a abarrotar de talco. Ter-se atirado nos braços de uma Lisboa agreste, magra de afetos, que o mantém à distância e o enxota para a margem, toda indiferença e desapego e não o regaço que imaginara, não é a menor delas. Invisíveis entre a multidão da grande cidade, arrastando “uma existência sem documentos” (o equivalente da bruma que protege os heróis da tradição clássica), ninguém se apercebe que pai e filho são um destroço humano, um falhanço ambulante. 

Tal como acontecia já com o seu livro de estreia, “Esse Cabelo” (Teorema, 2015), são várias as passagens que nos colonizam a memória. É o caso do passeio de Cartola pelo Cemitério dos Prazeres, um espaço a que conhece os cantos e onde ambiciona um lote de terra, “sempre era um Portugal, ao vento e à chuva”. As horas que passa entre muros e ciprestes são, a um tempo, uma forma passiva de suicídio e o desejo de ser, enfim, um português como os outros. “De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu único visto de residência”. 

Desenvoltamente dominada, a linguagem, sem nunca prescindir de um cuidadíssimo registo metafórico, é clara, direta, componentes sintáticos no seu lugar, como se a autora pretendesse dar forma concreta, nome definido ao que foi mitificado, espesso como coisa sonhada. Aos sonhos e anseios responde a autora com uma visão disfemística que não recua perante o pormenor desagradável, feio: são os bilhetes que a mulher doente lhe envia de Luanda, “metidos dentro de jornais velhos ou esquecidos nos armários da cozinha junto a cabeças de alho bolorentas”, os beijos dela “esquecidos dentro de livros com bicho”. Onde não chega a substância e o interesse romanescos vai sempre a linguagem, que não basta para guindar este romance-balanço, extravagantemente bem escrito, ao Olimpo de um género de exigências múltiplas. Dir-se-ia que o maior trunfo de Djaimilia Pereira de Almeida - o domínio desenvolto da língua de Camões - é também a sua maior fragilidade. Por vezes, é como se a escrita, esquecida do fio narrativo, ganhasse vida própria, concentrando em si mesma todas as atenções. De “Luanda, Lisboa, Paraíso” o que mais visivelmente emerge é uma personalidade (no sentido literário) que corre o risco de mobilizar a atenção do leitor mais pelo modo como diz do que pelo que diz. 

E depois, no corpo moderadamente simbólico desta narrativa, há também articulações sensíveis, ligações pertinentes que são sugeridas e logo descartadas, prometendo uma complexidade complementar que nunca comparece, deixando um rasto reduzido, porém palpável, de opções por explorar. 

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