9/5/21
 
 
Marcelo. O Presidente da República que não abranda ao fim 1027 dias de mandato

Marcelo. O Presidente da República que não abranda ao fim 1027 dias de mandato

AFP Cristina Rita 31/12/2018 14:58

Na avaliação de 2018, o politólogo Costa Pinto considera que o chefe de Estado é o “provedor da sociedade civil”. Marques Mendes acrescenta que o PR é o antídoto contra o populismo e José Miguel Júdice espera que se recandidate

Marcelo Rebelo de Sousa conta já com 1027 dias de mandato e os últimos 365 revelam que o chefe de Estado não dá sinais de abrandar o ritmo.

Na análise do estilo presidencial, o antigo bastonário da ordem dos advogados José Miguel Júdice considera que Marcelo Rebelo de Sousa aprendeu com os erros de 2017, depois de ter tido vários registos de exagero. “O caso dos incêndios de 2017 foi paradigmático. Ele reagiu em excesso a pôr a mão por baixo do governo, a dizer está tudo a ser feito, e depois entrou em pânico, e a seguir, em outubro de 2017, reagiu por excesso contra o governo. Exagerou nos dois sentidos. Ele abrandou e aprendeu à sua custa”, começou por recordar o advogado ao i.

José Miguel Júdice faz uma avaliação positiva, mas preocupada do mandato presidencial. “O capital impressionante do presidente da República não está a ser gasto. Ele não nos disse até hoje uma coisa que não gostássemos de ouvir”, justifica José Miguel Júdice, acrescentando que Marcelo “é um populista, mas é um populista moderado. É alguém que usa o populismo como um projeto não radical”. Apesar da crítica, Júdice faz votos de uma recandidatura: “Deus queira que ele se recandidate e Deus queira que ele ganhe.”

Olhando para o registo de proximidade do presidente, o politólogo António Costa Pinto não antecipa grandes mudanças em 2019: “Marcelo Rebelo de Sousa reforçou ao longo do seu mandato e não promete alterar essa ideia, a de ser um pouco o provedor da sociedade civil, com uma grande proximidade à sociedade civil e também com um estilo mais interventivo. Até é provável que esse estilo político mais interventivo se reforce em 2019”, afiança Costa Pinto.

O estilo e a forma de estar do presidente aparentemente não cansam ou desgastam a imagem de Marcelo. Esta é, pelo menos, a opinião do antigo líder do PSD e conselheiro de Estado, Marques Mendes. “É popular, sem ser populista e, sendo próximo das pessoas, combate as tentações de surgimento dos movimentos populistas”, sintetiza Mendes ao i, acrescentando que a grande mais-valia do chefe de Estado é o combate ao populismo. “É um grande antídoto contra os crescimentos dos populismos. Marcelo Rebelo de Sousa tem um discurso que não deixa de ser institucional, mas nada distante das pessoas. Combate os populismos”, repete Marques Mendes. O também comentador televisivo considera ainda que Marcelo foi “o único agente político em Portugal que nunca foi desgastado pela situação de Tancos” e esteve “sempre em alta” ao longo de 2018.

O caso de Tancos Num ano marcado pelas investigações ao caso do furto de material de guerra em Tancos, Marcelo Rebelo de Sousa esteve semanas a falar e a ser confrontado com factos novos. “Se pensam que me calam, não me calam”, chegou a dizer em novembro, ao “Público”, negando que Belém tivesse tido contactos com o ex-diretor da Polícia Judiciária Militar, arguido no processo, sobre a operação de encobrimento para a recuperação das armas. Antes, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha aceite a exoneração de um ministro da Defesa – Azeredo Lopes –, e do chefe de Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte.

O caso de Tancos foi talvez o tema sobre o qual mais se pronunciou, mas houve outros. O ano político de 2018 ainda teve os efeitos da tragédia dos incêndios de 2017. Em maio, Marcelo Rebelo de Sousa adensou o tabu sobre uma eventual recandidatura: [Haver uma nova tragédia como a de 2017] é fundamental para o próprio juízo que o Presidente fará sobre o seu mandato presidencial. Como quem diz, quando eu avaliar, em meados de 2020, o mandato presidencial — portanto, olhar para o passado — e depois também avaliar ou não a existência de um dever de consciência”, afirmou, numa entrevista à “Renascença”.

Mas 2018 foi também o ano em que o PSD teve um novo líder, partido que Marcelo Rebelo de Sousa chegou a liderar. Em pleno verão, o presidente não resistiu a pedir “coesão” aos partidos de poder, numa altura em que o PSD era notícia quase diária devido às tensões internas. E, com a saída de Pedro Santana Lopes do PSD, Marcelo aproveitou para deixar as suas preocupações sobre uma oposição fragmentada, que deixa de ser “alternativa de poder”.

O presidente falava em plenas férias de verão no centro do país, uma escolha para apelar ao turismo nas zonas mais afetadas pelos incêndios de 2017. Mas em agosto acabou por assistir a mais um grande incêndio, em Monchique, e a ter de corrigir o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, no discurso de triunfalismo por não se terem perdido vidas humanas, num dos maiores incêndios de verão de 2018 na Europa.

A polémica substituição da PGR Em setembro, Marcelo Rebelo de Sousa teve de gerir um dos momentos mais polémicos do ano: a substituição da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. A sua saída e a nomeação de Lucília Gago para o cargo levou o antecessor de Marcelo, Cavaco Silva, a considerar que a “substituição da PGR era talvez a decisão mais estranha tomada pela geringonça”. O presidente ouviu e assumiu-se como o destinatário da crítica: “o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato.”

As farpas mútuas não se esgotaram na procuradora e Marcelo lembrou também a “falta de senso e falta de gosto” de um governo de Cavaco Silva, em 1992, ao vetar a obra de José Saramago na corrida para o prémio literário europeu. O ano não terminou sem um veto, o do decreto-lei à reposição de dois anos de descongelamento do tempo de serviço dos professores. Mas Marcelo também vetou outros diplomas como o das alterações à lei de financiamento dos partidos, a lei Uber – entretanto alterada – a lei que dá preferência aos inquilinos no caso da venda da imóvel ou a mudança de género aos 16 anos. Os deputados alteraram a lei para contemplar um relatório médico.

O ano que termina ficou marcado também por duas visitas a Portugal, uma do presidente de Angola, e outra do presidente chinês, além de uma lição de história do presidente da República ao presidente norte-americano Donald Trump. Em Washington a conversa entre ambos acabou por incluir futebol e Trump perguntou a Marcelo se Cristiano Ronaldo alguma vez iria concorrer contra o atual presidente. Marcelo respondeu que “Portugal não é como os Estados Unidos”.

Marcelo termina o ano com uma viagem marcada para o Brasil para a tomada de posse do novo presidente Jair Bolsonaro e com uma certeza: o ano eleitoral começou mais cedo e 2019 vai obrigá-lo a manter o mesmo nível de intervenção.

Sobre uma eventual recandidatura, a decisão só chegará em 2020.

“Estranho e contraditório ano esse, que ontem terminou, e que exigiu tudo de todos nós”

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×