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Felicidade. O segredo pode estar num Estado Social forte

Felicidade. O segredo pode estar num Estado Social forte

Ricardo Cabral Fernandes 29/12/2018 12:50

Desde 2012 que as Nações Unidas publicam um ranking para averiguar quais os países mais felizes. Os nórdicos já se tornaram uma presença habitual no topo da lista, com países africanos, Síria e Iémen no lado oposto da lista. Portugal está na 61.ª posição, registando-se uma “ligeira melhoria” na felicidade dos portugueses. O sucesso dos nórdicos pode bem estar no Estado social forte e nas boas condições laborais.

Os Estados Unidos vão voltar a cair este ano no Índice Global de Felicidade das Nações Unidas, numa tendência já salientada no “Happiness Report 2018”, publicado em março deste ano referente aos dados de 2017. Quem o diz é Ludvig Lindström, fundador da Global Happiness Organization, ao i. O relatório referente aos dados deste ano só será publicado em março de 2019, mas o que se viu no último foi os EUAem 18.º, quatro lugares abaixo do que tinha ficado no anterior. O pior posicionamento desde que o índice começou a ser produzido pela ONU em 2012.

“Podemos ver que os Estados Unidos têm vindo a retroceder na última década. Têm alguns problemas, como a epidemia da obesidade, drogas e doenças mentais, que se reforçam mutuamente”, explicou Ludvig Lindström. “O sistema político norte-americano também produz muita desigualdade e as condições socioeconómicas são um fator de risco para a saúde mental e física, a que se soma o facto de a saúde ser muito cara”. E, ao contrário do que tinha prometido com o slogan “Make America Great Again”, a situação não mudou desde que Donald Trump chegou à Casa Branca, bem pelo contrário, piorou. 

Uma imagem que não deixa de contrastar com a dos países que ocupam o topo do ranking mundial: os nórdicos. A liderar está a Finlândia, que este ano conseguiu ultrapassar a Noruega. “Têm riqueza, liberdade individual e Estado social, pouca corrupção e grande confiança no Estado e suas instituições, mas também entre cidadãos”, explica Lindström, que é sueco. Além disso, continua, há décadas que não vivem uma guerra. Já Portugal está no 61.º lugar, com o relatório a dizer que o país “mostra uma ligeira melhoria” a partir de 2015, depois de anos em que a felicidade caiu na sequência da crise económico-financeira e das políticas de austeridade. 

No entanto, nem tudo é um mar de rosas na Europa do Norte: a depressão e a ansiedade são as grandes preocupações sociais numa região onde o sol não abunda. “O combate à depressão e ansiedade é muito importante se quisermos aumentar a felicidade, porque as doenças mentais são uma das principais causas da infelicidade do mundo”, explica o especialista. Não poucas vezes, as causas da depressão e ansiedade estão relacionadas com a condição socioeconómica, mas nos países nórdicos esse não parece ser geralmente o caso, o que não deixa de surpreender. No resto do mundo, esse problema é comummente relacionado com relações laborais débeis e baixos salários, ambientes familiares fraturados e poucas oportunidades de vida, culminando em pobreza. O aumento das doenças mentais, continua Lindström, “precisa de ser uma prioridade para os governos”, ressalvando que “pouparia imenso dinheiro às sociedades” se o trabalho de prevenção fosse feito. 

É precisamente esse o principal contributo que o relatório pretende dar a todos os governos e suas populações: “Permitir saber quais as políticas públicas que aumentam a felicidade e quais as que não funcionam”. E, questionado sobre se a atenção dos governos a este indicador aumentou, o especialista não tem dúvidas que estão a “ficar mais interessados” em consequência de a comunidade científica, os média e as pessoas comuns estarem a referir-se a ele mais vezes. 

A felicidade não chega a todos Quando surgem nas notícias não o são pelas melhores razões: guerras civis, genocídios, golpes de Estado, instabilidade política, casos de corrupção ou pobreza extrema. E raramente se sabe como as populações veem o seu futuro e se sentem. O ranking veio tentar emendar essa situação mostrando quais os países mais infelizes do mundo. O cenário já era expectável, mas nem por isso deixa de ser curioso: Síria, Togo, Ruanda, Costa de Marfim, Comores, Sudão do Sul, Guiné Conacri, Geórgia, Benim, Níger e Afeganistão estão na cauda do pelotão da felicidade. 

“Podemos dizer que os mais infelizes são os africanos e os da Europa de Leste”, considera o especialista, explicando: “Em África temos guerras civis e falta de alimentos e abrigo e desigualdades sociais em que uns são muito ricos e outros muito pobres”. A corrupção é outro dos fatores, fragilizando a confiança das populações nos governos e instituições do Estado. Todavia, há certos países omissos no relatório por falta de dados, como é o caso da Coreia do Norte. 

A ideia da felicidade Há muito que os governantes dizem querer fazer as populações felizes, mas só recentemente começou a surgir a ideia de se medir a felicidade como indicador do bem-estar das populações. Começou no pequeno reino do Butão, em 2011, substituindo o tradicional Produto Interno Bruto (PIB) como principal indicador da prosperidade de um país – curiosamente o Butão ficou este ano no 97.º lugar.

O PIB pode crescer quase ininterruptamente, como foi o caso da Colômbia entre 1960 e 2015, excetuando em 1999, mas não quer dizer que as populações sejam mais felizes e as desigualdades sociais menores, mostrando-se como indicador débil só por si, ainda que útil à falta de outros. O conceito de PIB foi desenvolvido por Simon Kuznets em 1934 e desde essa altura, principalmente depois da II Guerra Mundial, que se tornou no principal indicador económico. 

Foi neste contexto que o relatório das Nações Unidas começou a ser produzido em 2012. Para medirem a felicidade, os especialistas usaram seis variáveis: PIB per capita, apoio social, expectativa de vida saudável, liberdade social, generosidade e ausência de corrupção. A informação é recolhida pela Gallup World Poll e analisada por uma série de especialistas independentes usando uma medida chamada “escada cantril” – os inquiridos são convidados a colocarem a sua “melhor vida possível” entre 0 e 10. A opção da Gallup, explica Lindström, que não participou no relatório mas que o leu com atenção, foi por ter “mais dados do que outras empresas”. 

É, no entanto, de ter atenção aos resultados do relatórios, alerta o especialista, por parte da definição de felicidade (ver entrevista) depender de um fator subjetivo dos inquiridos. “As pessoas pensam em geral que o mundo está a ficar um lugar mais perigoso e isso acontece porque os média estão sempre a dar más notícias”, afirmou Lindström, acrescentando que na realidade é o oposto que acontece: “Está a ficar melhor e melhor; cada vez há menos pessoas a morrerem à fome e menos guerras e conflitos; mais pessoas sabem ler e escrever”. “Há altos e baixos, mas se virmos a tendência a longo prazo podemos ver que há cada vez mais pessoas a ficarem felizes”, garantiu.

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