15/12/19
 
 
Afonso de Melo 28/12/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Um relógio de flores

COLVA - Enquanto o estranho pato preto mergulha, para se manter debaixo de água, às vezes quase meia hora, olho as lótus brancas que se espalham pela superfície e relembro a história antiga: a lótus vermelha abre as suas pétalas de manhã cedo, quando os camponeses vão para o trabalho, e fecha-as ao meio-dia quando eles se recolhem para o almoço; a lótus branca abre as suas pétalas ao início da tarde quando o trabalho dos camponeses recomeça e fecha-as quando anoitece e eles regressam a casa. Os camponeses de Goa trabalham à medida das horas de um relógio de flores.

Agora, a lua cheia estende-se sobre a imensidão da praia e do mar. “I’m feeling so alone that I can’t believe”, canta o David Gray no roufenho aparelho de som do Boomerang Bar ao qual a gente se habituou a chamar Malibu Beach. A clientela reduz-se a aves de arribação sem poiso certo: um australiano de cabelo longo, cara marcada por cicatrizes e gestos indecisos de álcool; um inglês gordo que explica alto coisas que ninguém entende; figuras abstratas, personagens incompletos de uma história ainda por escrever. Sob as sombras estreladas dos coqueiros, duas silhuetas femininas repetem as curvas e contracurvas do ritmo da música vagarosa. Absorvem-se uma na outra e em si próprias. Traços negros que a lua destaca na areia esbranquiçada, movimentos em “slow motion” que espreitamos na certeza absoluta de que um gesto, apenas um gesto, fará desaparecer sem retorno. Há na sua timidez a suave beleza das imagens escondidas. “I’m feeling so alone that I can’t believe”. Os braços levantados sobre as cabeças, os saris disfarçando as curvas dos corpos, as mãos desenhando Esses que o requebros das ancas repetem até aos pés. “Time after Time after Time...”. Debaixo da lua cheia, sob a protecção dos coqueiros, duas silhuetas dançam a canção da Índia...

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