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Índia. O mistério sem resposta dos rapazes dos pés descalços

Índia. O mistério sem resposta dos rapazes dos pés descalços

DR Afonso De Melo em Bombaim 26/12/2018 18:15

Depois de se terem apresentado como país independente nos Jogos Olímpicos de 1948, os indianos qualificaram-se para o Mundial de futebol de 1950, no Brasil. Não apareceram: diz-se porque insistiam em jogar sem botas

BOMBAIM – O tempo será um lugar? Ok. Tempo assim, com maiúsculas. Em nenhum lugar do mundo perdi tanto a noção do Tempo (assim mesmo) como na Índia. Por isso, vou direto a 1948. Não se esqueçam que a Índia perde-se na noite das memórias, mas só se tornou país independente, de papel passado, em 1947. À meia noite de 14 para 15 de agosto. “Freedom at Midnight”, escreveram La Pierre e Collins, os jornalistas que viveram esse ano inteiro na lama de um país que parecia impossível, repartições e tudo. Depois, um sem-vergonha português barato, de pacotilha, copiou o que eles escreveram e ganhou, neste lugar que o mar não quer, pelas palavras de Ruy Belo, uns milhares largos de euros à conta da estolidez em que vivemos. Por agora, vamos em frente. Mesmo que de regresso a 1948. Nessa altura, acreditem ou não, a Índia era a melhor seleção de futebol da Ásia. Pelo menos considerada assim. Convenhamos: apareceu na fase final do torneio dos Jogos Olímpicos, em Londres, e foi batida pela França (1-2), muito de aflitos, na eliminatória preliminar. Os indianos, que não eram nenhuns saloios, aproveitaram para fazer, em seguida, uma digressão pela Grã-Bretanha que se tornou épica, mas também vamos para além dela.

1950: fase final do Campeonato do Mundo no Brasil. A primeira depois de 1938 e da II Grande Guerra. Havia lugar para um representante do continente asiático. E, vamos lá ver, o mundo, ou o planeta redondo achatado nos pólos, como preferirem, não era um daqueles locais ideais para viver. Pouco importa. Das quatro equipas da Ásia que se apresentaram com vontade de ir à América do Sul – Índia, Birmânia, Indonésia e Filipinas – baldaram-se logo três. E, desse modo, a Índia ganhou o seu lugar entre os 16 finalistas. Mas também não desistiu. A razão dessa ausência ainda vive hoje perdida nos labirintos da memória.

Há quem diga que, depois de surgir como grande nação nos Jogos de 1948, os indianos estavam cheios deles próprios – afinal tinham levado até Londres nada menos de 79 atletas para competirem em dez modalidades. Com 20 medalhas de ouro no hóquei em campo. Já não havia muita pachorra para perdedores.

A pergunta ficou até hoje: por que não compareceu a Índia no Mundial de 1950, apurada por desistência alheia, ou lá o que fosse? E a lenda criou uma justificação maravilhosa, ainda que não científica: os indianos só admitiam jogar descalços e a FIFA, entretanto, proibira por completo pés ao léu. Pois é: ainda hoje, um jogador que chute uma bola sem a chuteira calçada deve ser advertido por conduta anti-desportiva.

Discutiu-se até à protérvia: e tudo acabou por cair no anedotário.

Um mês antes de começar a fase final desse Mundial de 1950, o secretário-geral da FIFA, Ivo Schricker, recebeu um telegrama da federação indiana. Dizia que a Índia não tinha possibilidade de comparecer. Mas, ao que parece, nunca reivindicando que seria por causa de os seus internacionais serem incapazes de jogar calçados. O telegrama, pelos vistos, nem sequer apresentava um motivo. Era normal nesse tempo: não vamos porque não podemos, ponto final.

Este não podemos foi, ao longo da realidade, um não temos dinheiro para para fazer parte desse circo, desculpem lá qualquer coisinha. Reparem: a França também não foi ao Brasil.

Mas, agora acreditem se quiserem, não há lenda sem uma verdade que a suporte. E o telegrama enviado pela Federação de Toda a Índia (com o Toda), pedia em resposta breve que a elucidassem em relação aos equipamentos obrigatórios para que cada jogador pudesse entrar em campo. A selecção da Índia fazia muita questão de se apresentar com os seus jogadores descalços, apenas com faixas embrulhando os pés. A resposta foi vaga. De um estilo “nonchalant”: “Estamos a contar convosco!”. Duas semanas mais tarde, Schricker acrescentou: ““I want to mention a question which may be discussed: the question regarding whether the bare-foot playing will be allowed. I know that nothing is said about this question in the Laws of the Game – but the question will be eventually raised. It would be in my opinion advisable to let your players use in practice games light shoes, not heavy shoes”.

Os indianos, aconselhados a jogarem ao menos de chanatos, terão ficado confusos. Por via das dúvidas, não puseram os pés no Brasil. Nem descalços! Ficaram fora dos Mundiais até hoje.

 

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